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Cientistas dizem que crianças que leem livros em papel desenvolvem melhor concentração e compreensão do texto.

Crianças asiáticas numa sala de aula a ler livros, com computadores portáteis nas mesas ao fundo.

Investigadores concluíram que a atenção selectiva das crianças antecipa, ao longo do tempo, o nível de compreensão de textos, ao passo que algumas modalidades de leitura em ecrã associadas à escola se relacionam com uma compreensão mais fraca.

Este resultado reposiciona o debate sobre hábitos de leitura ao mostrar que é a capacidade de manter o foco - e não apenas o suporte - que determina quão bem as crianças constroem sentido a partir do que leem.

Evidência nas salas de aula: o estudo de Salmerón

Num conjunto de turmas acompanhado durante um ano lectivo completo, a competência de leitura variou em paralelo com diferenças mensuráveis na forma como as crianças conseguiam sustentar a atenção na informação relevante.

Ao seguir os mesmos alunos ao longo do tempo, Ladislao Salmerón, da Universidade de Valência (UV), registou que níveis mais elevados de atenção se alinhavam com melhores resultados de compreensão nas avaliações posteriores.

Ao mesmo tempo, durante esse período, os próprios hábitos de leitura mostraram ter uma influência limitada a longo prazo no desenvolvimento da atenção.

O dado estabelece uma fronteira nítida: para melhorar a compreensão, pesa menos o meio por si só e mais a capacidade de os alunos manterem o foco enquanto lêem.

O foco ajuda, mas tem limites

Para estes leitores, a atenção selectiva - a aptidão de escolher a informação útil e ignorar distracções - abriu um percurso mais claro através de textos exigentes.

As crianças com pontuações mais altas de atenção compreenderam mais nos testes em papel, porque conseguiam reter as ideias principais enquanto filtravam pormenores secundários.

Ainda assim, os hábitos de leitura em papel e em digital registados no ano anterior não explicaram ganhos de atenção um ano depois, segundo os dados.

Este resultado enfraquece a afirmação simples de que os ecrãs, por si só, teriam roubado o foco a este grupo etário.

Os ecrãs dependem do momento e da tarefa

O alerta mais incisivo surgiu no caso de alunos do 4.º ano que usavam ecrãs para leituras escolares fora da sala de aula, durante trabalhos de casa e estudo.

A leitura digital académica destes alunos antecipou uma compreensão mais baixa no 5.º ano, mesmo depois de os investigadores terem controlado a capacidade anterior.

Já alunos mais velhos, na transição do 5.º para o 6.º ano, não exibiram o mesmo padrão após as mesmas verificações.

A idade pode ser determinante porque as crianças ainda estão a aprender a usar texto digital para estudar sem apoio.

A leitura em papel continua relevante

Este trabalho não demonstrou uma vantagem do papel neste teste de um ano, mas evidência anterior continua a atribuir-lhe peso no contexto escolar.

Uma grande meta-análise com 171,055 participantes concluiu que a leitura em papel produziu melhor compreensão do que a leitura em ecrã.

Essa vantagem foi mais forte em textos informativos e em leituras com tempo limitado - ambos frequentes em tarefas escolares.

Para os alunos, o papel poderá ser especialmente útil quando abrandam o ritmo e ligam ideias sem outras “pistas” digitais por perto.

Hábitos antigos perdem força com o tempo

A leitura recreativa em papel não era habitual nas salas de aula espanholas, com uma média de apenas uma ou duas vezes por mês na primeira medição.

Isto é relevante porque a exposição ao impresso - contacto regular com livros e materiais em papel - tem sido associada ao crescimento do vocabulário e da compreensão em 99 estudos.

Um ano pode também ser um intervalo demasiado curto para revelar como a leitura consistente de livros altera as competências em crianças desta idade.

Para as famílias, o ponto prático é reservar tempo regular de leitura em casa, e não procurar uma única escolha perfeita de formato.

A compreensão exige controlo mental

Compreender não depende apenas de reconhecer palavras, porque o leitor precisa de decidir que ideias merecem atenção ao longo de uma passagem extensa.

Uma revisão de 96 resultados, envolvendo 6,673 participantes, identificou uma associação moderada entre competências de controlo mental e compreensão da leitura.

Durante a leitura, as funções executivas - competências de controlo mental que regulam a atenção e as escolhas - ajudam os leitores a suprimir detalhes dispersos.

Estas competências não substituem a prática de leitura, mas ajudam a transformar essa prática em compreensão duradoura.

A leitura digital não é uma coisa só

Ler em digital pode significar uma página de manual escolar, um resultado de pesquisa, uma mensagem ou várias abas em competição.

Esta variedade torna os efeitos do ecrã mais difíceis de medir do que simplesmente contabilizar tempo de utilização de um dispositivo entre turmas.

No estudo de Salmerón, para as crianças mais novas, o uso de ecrã para fins académicos pesou mais do que a leitura em ecrã por lazer.

Por isso, as escolas precisam de regras mais claras para o trabalho digital, sobretudo quando os alunos estão a iniciar o estudo autónomo.

As salas de aula exigem ponderação

Nos primeiros anos do ensino básico, os professores enfrentam uma decisão mais complexa do que proibir ecrãs ou entregar a cada criança um tablet da turma.

Numa entrevista de 2024, Salmerón defendeu que o papel ainda oferecia aos leitores uma via mais forte para chegar ao significado.

“Foi demonstrado que a leitura em papel aumenta a compreensão da leitura, a expressão oral e a aprendizagem de novo vocabulário”, afirmou Salmerón.

Os resultados mais recentes afinam essa afirmação, apontando para o momento, o desenho das tarefas e a preparação das crianças para os ecrãs.

Crianças a ler livros impressos

Em casa, o hábito de leitura mais forte pode ser aquele que uma criança consegue repetir diariamente sem conflito.

Os livros impressos eliminam notificações por definição, o que ajuda as crianças a permanecerem numa página durante mais tempo do que nas aplicações.

A leitura partilhada dá também aos adultos a oportunidade de pedir às crianças que expliquem, por palavras suas, o que mudou numa história.

A leitura em dispositivo pode funcionar melhor quando os adultos definem um objectivo antes de o ecrã ligar e fecham outras aplicações depois.

O estudo de Salmerón deixa aos pais e às escolas uma mensagem mais apertada: as ferramentas de leitura só resultam quando a atenção e a orientação vêm primeiro.

Os livros em papel mantêm-se uma opção inteligente por defeito para leituras prolongadas, enquanto as tarefas digitais exigem timing, orientação e motivos claros.

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