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Porque a maioria das gravidezes humanas resulta apenas num bebé e não em gémeos.

Médica a apontar para ilustração do sistema reprodutor feminino com gráficos numa mesa de consulta.

O ovário humano tende a escolher, na maioria das vezes, um único folículo com óvulo por puro acaso - e não por privilegiar o candidato maior ou o mais sensível às hormonas - de acordo com uma investigação recente.

O trabalho reformula um dos desfechos mais comuns da reprodução como uma corrida apertada contra um circuito de retroalimentação hormonal, em que um segundo “vencedor” quase nunca dispõe de tempo suficiente para surgir.

Dentro do ovário: seleção do folículo dominante

Em cada ciclo menstrual, cerca de 10 a 20 folículos antrais - bolsas cheias de líquido que contêm óvulos imaturos - ficam à espera de que os níveis hormonais permitam que um deles seja escolhido.

Anatoly Kolomeisky, químico-físico da Rice University, demonstrou que o folículo que vence não precisa de qualquer vantagem inata em relação aos restantes.

Em vez disso, o primeiro folículo a ultrapassar a “linha” hormonal torna-se dominante antes de os outros conseguirem acompanhá-lo.

Isto faz com que a questão central deixe de ser qual é o melhor folículo, passando a ser como é que o organismo fecha a oportunidade com rapidez suficiente para manter a seleção limitada a um só.

As hormonas interrompem o processo de seleção

No início do ciclo, a hormona folículo-estimulante (FSH) aumenta até que os folículos consigam responder.

Assim que um folículo é selecionado, começa a produzir estradiol - uma forma de estrogénio - que, por sua vez, reduz os níveis de FSH.

Como essa descida acontece rapidamente, os folículos remanescentes perdem o sinal de que precisam antes de a maioria conseguir continuar a crescer.

O sistema, portanto, trava a “recrutação” de folículos quase imediatamente após a primeira seleção bem-sucedida.

Seleção aleatória, mas ainda assim precisa

A seleção inicia-se quando a FSH atinge um limiar - o nível mínimo a que o conjunto de folículos consegue responder.

Nos novos cálculos, o primeiro folículo vencedor surgia, em geral, quando a FSH estava apenas um pouco acima desse limiar.

“O nosso modelo, que se correlaciona bem com dados do mundo real, sugere que a seleção é completamente aleatória e ainda assim muito precisa”, disse Zhuoyan Lyu, primeira autora do estudo.

Estes resultados ajudam a explicar como um processo biológico com ruído ainda assim termina, na maior parte dos meses, com um único folículo dominante.

Simulação de milhares de ciclos

Simulações computacionais de 5.000 ciclos colocaram o modelo à prova de forma mais exigente do que cálculos simplificados feitos “à mão”.

Mais de 90% dos ciclos simulados selecionaram um folículo, enquanto menos de 10% selecionaram dois folículos.

Nenhuma dessas simulações gerou três vencedores, o que está em linha com o facto de as ovulações múltiplas naturais serem raras.

Estes valores indicam que o sistema só precisa de uma retroalimentação suficientemente rápida para tornar improváveis seleções adicionais.

Porque é que os gémeos são pouco frequentes

As raras seleções duplas são relevantes porque dois óvulos libertados podem dar origem a gémeos fraternos se ambos forem fertilizados.

Na literatura médica, a gemelaridade dizigótica - o termo formal para gemelares fraternos - começa com dois óvulos, e não com um.

Aqui, um segundo folículo apenas aparecia quando a janela de seleção permanecia aberta por um período ligeiramente mais longo do que o habitual.

Isto oferece uma explicação simples para os gémeos continuarem a ser incomuns, sem os tornar biologicamente enigmáticos.

A idade pode afrouxar o controlo

A idade materna mais avançada está associada a taxas mais elevadas de gemelaridade fraterna, um padrão que o modelo poderá ajudar a interpretar.

Em vez de exigir uma nova regra biológica, o artigo propôs que um controlo um pouco menos apertado do circuito FSH-estradiol poderia prolongar a janela de seleção.

“Podemos usar este modelo para começar a investigar questões de fertilidade que afetam mulheres em todo o mundo”, afirmou Kolomeisky.

Essa perspetiva transforma um evento reprodutivo estreito num problema de temporização que os clínicos podem procurar em doentes reais.

Pistas para a infertilidade

A mesma lógica pode também contribuir para explicar alguns casos de infertilidade na síndrome do ovário poliquístico, uma perturbação hormonal que pode desregular a ovulação.

Quando a FSH nunca atinge o limiar necessário, nenhum folículo recebe o sinal para se tornar dominante.

Essa hipótese coincide com a sugestão do artigo: alguns ciclos falham não porque faltem folículos, mas porque o “gatilho” permanece demasiado fraco.

Um mecanismo deste tipo não explicaria todos os casos de síndrome do ovário poliquístico, mas aponta uma variável clara para testes futuros.

Limitações do modelo

Este modelo simplificado não inclui hormonas importantes como a hormona luteinizante, que desempenha um papel central no desencadear da ovulação, nem outros sinais ováricos que regulam o crescimento folicular.

As medições hormonais reais também variam entre laboratórios, o que significa que o modelo acompanha melhor tendências do que valores hormonais exatos.

Ainda assim, os tempos previstos pelo modelo caem na mesma fase do ciclo que os clínicos associam à seleção folicular.

Um processo que parece ser rigidamente controlado pode depender de algo mais simples: uma primeira seleção aleatória seguida de um corte hormonal rápido.

Se for confirmado em doentes, este entendimento poderá ajudar os médicos a abordar infertilidade, risco de gémeos e tratamentos hormonais em termos de temporização, e não de qualidade do folículo.

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