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Tânia Gaspar: assédio, burnout e trabalho híbrido nas empresas portuguesas

Grupo de jovens em reunião de trabalho com uma pessoa em videoconferência na mesa redonda.

Em entrevista ao Expresso, Tânia Gaspar, coordenadora do Laboratório Português dos Ambientes de Trabalho Saudáveis, descreve o estado psicológico dos trabalhadores e o clima vivido dentro das organizações.

Assédio laboral: por que razão é mais reportado

Cada vez mais trabalhadores dizem-se alvo de assédio. A que se deve?

Antes de mais, a uma literacia mais elevada para reconhecer o que é assédio. Muitos profissionais da geração X (entre os 45 e os 60 anos) sofriam essas situações e não tinham consciência disso. Ou seja, aceitavam atitudes que, atualmente, deixaram de ser toleradas. Durante muito tempo, era comum haver chefias a gritar, a tratar mal as pessoas ou a fazer comentários sobre a aparência das mulheres, e isso era encarado como “normal”; hoje, existe uma perceção clara de que esse comportamento não é apropriado e há mais capacidade para o denunciar. Soma-se a isto uma censura social maior e mecanismos de denúncia mais favoráveis.

Ou seja, não há um aumento real de casos?

Não obrigatoriamente. Ainda assim, o facto de existirem valores muito altos de burnout pode, na prática, contribuir para que os episódios aumentem. Quando alguém está exausto e muito irritável, é mais provável que reaja de forma desajustada. E quanto maior é a pressão colocada sobre os trabalhadores, mais facilmente se instala uma competitividade pouco saudável.

Como se pode prevenir?

É essencial definir regras inequívocas e ter um cuidado reforçado na escolha das lideranças. Em muitos contextos, os CEO têm conhecimento de que determinada chefia é tóxica e, mesmo assim, não intervêm. Com o tempo, isso acaba por ter impacto na saúde mental, na motivação e no desempenho dos profissionais. Também é necessário fortalecer os canais de reporte e garantir que, quando as situações se confirmam, existem consequências.

“Muitos trabalhadores da geração X (entre os 45 e os 60 anos) eram vítimas de assédio e não sabiam”

Burnout, cultura organizacional e pressão no dia a dia

No geral, qual é a perceção dos profissionais sobre o ambiente de trabalho?

A leitura que os trabalhadores fazem da cultura organizacional e das lideranças tende a ser menos favorável. Em termos gerais, sentem que a empresa não dá prioridade ao seu bem-estar, que não são escutados nem reconhecidos, e que está cada vez mais difícil compatibilizar o trabalho com a vida pessoal. O excesso de tarefas e a pressão constante refletem-se nos níveis de burnout, que são muito elevados.

As lideranças não valorizam o bem-estar?

Uma chefia precisa de disponibilidade para conhecer as pessoas e acompanhar cada elemento de forma individual, mas, muitas vezes, não o consegue porque também está sobrecarregada - e acaba por transferir essa pressão para a equipa. Existe um desfasamento marcado entre aquilo que a equipa consegue executar e o que lhe é exigido. Estabelecem-se metas sem olhar para os recursos existentes, o que aumenta significativamente a pressão. Perante uma carga permanente, as pessoas tendem a cair em duas respostas: ou se desligam e deixam de se importar, o que é negativo porque o trabalho é uma dimensão relevante da vida; ou insistem em alcançar o inalcançável, entrando em burnout. Cada vez mais, a produtividade precisa de caminhar lado a lado com o bem-estar.

Por que razão as mulheres apresentam piores indicadores

Por que razão as mulheres têm piores indicadores?

Este padrão começa a notar-se desde cedo. Há investigação que indica que, já aos 7 anos, as raparigas revelam menor perceção de felicidade e maiores níveis de tristeza, ansiedade e irritabilidade. As mulheres tendem a internalizar mais e a experimentar mais emoções negativas; os homens, por sua vez, evidenciam mais comportamentos de risco e agressividade - que também podem ser uma forma de expressar sofrimento psicológico. Se perguntarmos diretamente se a pessoa está triste ou ansiosa, é mais provável que a mulher identifique esses estados e os assuma, enquanto o homem tende a ter menos consciência disso.

Além disso, as mulheres são mais frequentemente alvo de assédio no trabalho, suportam maior sobrecarga do que os homens e precisam de conciliar o emprego com o cuidado dos filhos e, cada vez mais, com o apoio a pais idosos. Muitas vezes, são também penalizadas na progressão de carreira. Nalguns casos, são elas próprias que optam por não aceitar determinados cargos para não afetar a família. A isto junta-se o facto de, em média, serem menos assertivas e reivindicarem menos.

Jovens, resiliência e integração nas empresas

Os jovens também mostram risco mais alto de burnout. É uma geração mais vulnerável?

É uma geração mais exigente, que entende que a liderança deve conhecer as pessoas, ajustar-se e respeitar os seus ritmos. Ou seja, coloca a responsabilidade do lado da empresa. Quando sente que isso não acontece, ou muda de organização - e é por isso que a rotatividade (saída da empresa) entre jovens é muito elevada -, ou desenvolve mais sintomas de isolamento e de desadequação. Em paralelo, é uma geração mais ansiosa: é muito elevado o número de jovens que sente não conseguir gerir o stresse.

São menos resilientes?

Há aqui um fator societal ligado ao estilo de parentalidade. É uma geração que teve mais facilidade em aceder às coisas, porque muitos pais procuraram proporcionar “tudo”. Isso pode ter reduzido a resiliência, por haver menos necessidade de desenvolver competências para lidar com frustração. E, por motivos que lhes são externos, tornam-se autónomos mais tarde, o que também tem peso. As empresas precisam de se preparar para esta realidade.

Como?

Tem de existir um processo de integração efetivo, com uma pessoa designada para acompanhar o jovem durante um período de tempo. Esta geração tende a precisar mais desse suporte. Em contrapartida, há um aspeto positivo: tolera menos situações de assédio.

Trabalho híbrido e teletrabalho: ganhos e resistências

O regime de trabalho híbrido está associado a melhores indicadores de bem-estar. Porquê?

Os trabalhadores dão cada vez mais valor à perceção de liberdade e à autonomia. No modelo híbrido, perde-se menos tempo em deslocações, pode-se acordar mais tarde ou ter mais tempo para si, há menos despesa, é possível comer em casa de forma mais saudável… E, em simultâneo, a pessoa sente que a organização confia nela. O bem-estar que resulta disso acaba por se refletir na motivação e no desempenho. Além do mais, muitas pessoas consideram que em casa conseguem trabalhar melhor, porque têm menos distrações.

Ainda assim, só 20% dos trabalhadores estão abrangidos.

Isso entristece-me, porque a evidência é muito clara. Os estudos são unânimes: é o melhor regime, não apenas para o trabalhador, como também para o desempenho e para a prevenção do burnout. Apesar disso, as empresas estão a recuar. Há várias a reduzir dias de teletrabalho ou a regressar ao presencial. Não é coerente e vai aumentar a insatisfação.

A que se deve a resistência das empresas?

Não podemos esquecer que a maioria das lideranças pertence à geração X (acima de 45 anos), com uma cultura organizacional ainda muito ligada à ideia de “picar o ponto” e de controlar os trabalhadores. Mas é fundamental perceber que o facto de os profissionais estarem no escritório não significa que produzam mais. Quem trabalha, trabalha em qualquer lado; quem não trabalha, não trabalha em lado nenhum.

Também sabemos que o teletrabalho a 100% traz riscos, sobretudo para quem vive sozinho e pode passar semanas sem contacto presencial com outras pessoas, o que não é saudável. A proximidade nas relações de trabalho - com colegas e lideranças - funciona como fator protetor. É positivo ir ao local de trabalho de vez em quando, mas esses momentos precisam de ser repensados. As idas ao escritório devem ser aproveitadas para sessões de geração de ideias e para criar ocasiões que reforcem o sentimento de pertença.

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