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Do corredor do Hospital de Santa Maria ao laboratório do GIMM: ciência e inteligência artificial contra o cancro da mama triplo-negativo

Cientista mulher em bata branca analisa moléculas em tablet num laboratório moderno, com gráficos no ecrã ao fundo.

Do corredor do Hospital de Santa Maria ao laboratório

Todas as manhãs atravesso o corredor do Hospital de Santa Maria antes de entrar no laboratório. São apenas alguns minutos a pé, mas quase nunca passo por ali sem sentir o peso do que vejo. Há macas e ansiedade, famílias suspensas na espera, rostos marcados por um diagnóstico. E, a cada passagem, volto a pensar na sorte de não ser eu a estar do outro lado. Ao mesmo tempo, lembro-me com a mesma nitidez do motivo por que faço o que faço: há doentes à espera. E há ainda tanto por fazer.

É com essa ideia presente que, dia após dia, entro no laboratório do GIMM, o Instituto Gulbenkian de Medicina Molecular, em Lisboa. O GIMM está no mesmo campus do Hospital de Santa Maria, e essa proximidade não é só de localização; é também uma proximidade de propósito, um lembrete contínuo de que o que acontece na bancada pode vir a ter impacto direto em quem está ali, nos corredores.

Cancro da mama triplo-negativo: o foco do meu trabalho no GIMM

O meu trabalho centra-se no cancro da mama triplo-negativo - um dos subtipos mais agressivos e, ainda hoje, um daqueles para os quais existem muito poucas opções terapêuticas. Até há muito pouco tempo, a maioria esmagadora destas doentes não tinha acesso a terapêuticas específicas: restava, sobretudo, a quimioterapia agressiva. É um tratamento salva-vidas, mas com um custo elevado. A queda de cabelo, a exaustão, e o impacto na autoestima de mulheres que já enfrentam um diagnóstico devastador.

Atualmente existem algumas alternativas, mas com aplicabilidade muito limitada. O que procuro é alargar essas possibilidades: desenvolver fármacos mais direcionados, capazes de atuar sem arrasar o que é saudável. O objetivo é que, um dia, uma doente consiga tratar o cancro sem sentir que, no processo, perde também uma parte de si.

Inteligência artificial para acelerar o desenvolvimento de fármacos

Para chegar lá recorro à inteligência artificial - não por ser tendência, mas porque é uma ferramenta prática que aumenta, de forma real, a escala do que consigo fazer. O desenvolvimento tradicional de um fármaco pode demorar entre dez a quinze anos, desde a descoberta até à aprovação clínica. A parte computacional do meu trabalho permite-me testar virtualmente centenas de candidatos, simular a forma como interagem com os alvos biológicos e selecionar os mais promissores ainda antes de os sintetizar no laboratório.

Cada ano que se ganha neste percurso é um ano que pode ser determinante para um doente concreto.

O laboratório, a persistência e o valor do erro

Apesar disso, a componente computacional não substitui o laboratório. E há lições que só a prática experimental ensina - coisas que nenhum algoritmo consegue prever. Há alguns meses, por exemplo, estava a avaliar os meus compostos em células cancerígenas. Repeti a experiência inúmeras vezes e nada resultava; não obtinha qualquer efeito e não percebia o motivo.

Num desses dias, preparei as células de forma diferente do habitual, sem me aperceber, na altura, do que tinha mudado. Quando analisei os resultados, o efeito estava finalmente lá: claro, inequívoco, exatamente o que procurava. Um erro tinha-me conduzido à resposta. Na ciência, isto é mais comum do que se imagina; a descoberta da penicilina é talvez o caso mais conhecido, mas está longe de ser o único.

Esta é, para mim, a descrição mais fiel do trabalho científico no quotidiano. Não se trata de uma sequência de momentos brilhantes: é um encadeamento de tentativas, regressos ao início, e perguntas que, mal surgem, abrem caminho a três novas perguntas. Sou, por natureza, uma mente inquieta, e a ciência é provavelmente um dos poucos lugares onde isso é, de facto, uma vantagem.

Existe uma liberdade rara em poder seguir uma intuição, pôr uma hipótese à prova e mudar de estratégia quando algo falha. E, quando me apetece desistir, aprendi a reconhecer um padrão: muitas vezes, é precisamente quando estou mais perto do resultado. Foi no laboratório que interiorizei isto - e é uma convicção que levo comigo para tudo o resto.

Ciência feita de pessoas e o que se perde pelo caminho

Outra coisa que não antecipava era o quanto a ciência é feita de pessoas. A curiosidade pode ser solitária, mas o conhecimento constrói-se sempre em conjunto. Aprendo continuamente com quem me rodeia: com colegas que usam abordagens completamente diferentes das minhas e com investigadores de outras áreas, que me colocam questões que eu nunca teria formulado.

Há uma generosidade própria nesta comunidade que continua a surpreender-me. Em Portugal existem polos científicos com condições excecionais: infraestrutura, equipamento e um ambiente interdisciplinar que não fica atrás de qualquer referência europeia.

Também existe, porém, uma diferença grande entre saber - em teoria - que investigamos para ajudar doentes e sentir essa responsabilidade a toda a hora. Quando os resultados demoram, quando uma experiência falha pela décima vez, chega lembrar que há alguém à espera do outro lado. Não é preciso mais.

E a verdade é que, com a persistência certa, os resultados tardam, mas não falham. Ainda são preliminares e estão em fase de validação, mas indicam que os meus compostos conseguem reduzir a proliferação de células cancerígenas. Não é uma cura, não é um fármaco aprovado. Ainda assim, é o suficiente para sustentar a certeza de que vale a pena continuar. Consigo visualizar, com concretude, o cenário de daqui a dez anos: os meus fármacos a serem administrados a doentes com cancro da mama triplo-negativo, a partir de Portugal.

O que me inquieta é o percurso até lá. Todos os anos, terminam doutoramentos com descobertas que poderiam transformar a vida de doentes; e todos os anos essas descobertas ficam exatamente onde começaram - em teses, em artigos, em laboratórios que fecham quando o financiamento termina. É uma das perdas mais silenciosas que conheço, e o custo não recai sobre nós: recai sobre os doentes que continuam à espera de tratamentos que existiam, mas nunca chegaram.

Escolhi este caminho de forma consciente e não me arrependo. Mas não considero aceitável que abdicar de uma vida estável seja o bilhete de entrada para fazer ciência. É uma perda que o país não se pode dar ao luxo de continuar a ignorar.

Se este trabalho me ensinou alguma coisa, foi isto: a ciência não é para quem sabe tudo. É para mentes inquietas e persistentemente curiosas. Para quem bate com a cabeça na parede pela décima vez e, ainda assim, continua a achar a parede interessante. Não é um perfil simples de sustentar, sobretudo ao longo de anos. Mas quando funciona - quando um resultado aparece depois de semanas de nada - percebo com absoluta clareza porque estou aqui. Fazer ciência é isto: acreditar que tudo pode mudar e melhorar.

Acordo todos os dias com a convicção de que o que faço conta: para a oncologia, para a medicina, para alguém que lê estas palavras e que, um dia, poderá beneficiar deste trabalho. Essa certeza é um privilégio que não tomo como garantido.

Cultivo-a todas as manhãs, no corredor do Hospital de Santa Maria, antes de entrar no laboratório. E, no fim do dia, quando volto a percorrer esse mesmo corredor, o hospital mantém-se igual - as macas, as famílias, os rostos. Mas eu levo comigo mais uma pergunta respondida. Amanhã recomeço com outra.

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