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Música afinada em Lá 432 Hz: há base científica para o bem‑estar?

Jovem sentado no chão com violino e guitarra ao lado, segurando diapasão num ambiente iluminado e acolhedor.

Se passar tempo suficiente a percorrer as redes sociais, é provável que acabe por encontrar vídeos a garantir que ouvir músicas afinadas em "Lá 432 Hz" pode trazer uma sensação extraordinária de calma ou até de cura.

Há ainda quem afirme que a música ajustada a esta frequência consegue alinhar as suas frequências internas com as do universo. A ideia é sedutora: bastaria ouvir música afinada de uma determinada forma para melhorar a saúde.

Mas haverá fundamento científico para isso?

Uma ideia antiga

Antes de mais, o que significa, ao certo, dizer que uma música está afinada em "Lá 432 Hz"?

Hertz (Hz) é uma unidade de medida de frequência - isto é, quantas vezes por segundo as ondas sonoras vibram. O som propaga-se no ar sob a forma de ondas que chegam aos nossos tímpanos, dando origem à sensação de audição. Quanto mais depressa essas ondas vibram, mais agudo é o som que percebemos.

Na afinação padrão de concerto, o Lá acima do dó central é definido em 440 Hz. Afinar em 432 Hz significa simplesmente que esse Lá - e, por consequência, as restantes notas da música - fica ligeiramente mais grave do que o habitual.

Algumas pessoas defendem que 432 Hz está mais próximo de frequências harmónicas naturais do que 440 Hz e que, por isso, esta afinação será melhor para o bem-estar.

A crença de que o som - ou a música - pode curar, ou até colocar-nos em sintonia com o cosmos, não é recente. Muito antes das redes sociais, na Grécia Antiga estabelecia-se uma ligação entre o som e as frequências do universo. Pitágoras propôs que as notas musicais obedeciam a rácios numéricos simples, os mesmos rácios que, no seu entendimento, estruturavam o próprio cosmos.

Mais tarde, pensadores medievais e renascentistas desenvolveram estas ideias através do conceito de "música das esferas" - a noção de que o som poderia servir para nos alinhar com as vibrações dos planetas, criando uma espécie de harmonia cósmica capaz de influenciar emoções e bem-estar.

Sem efeito mágico

Apesar de o alinhamento cósmico ser um conceito apelativo, há pouca evidência científica de que frequências específicas tenham algum efeito “mágico” no bem-estar.

Num estudo de 2019, investigadores fizeram participantes ouvir bandas sonoras de filmes afinadas a 440 Hz num dia e a 432 Hz noutro. Após ouvirem as versões em 432 Hz, os participantes apresentaram uma ligeira diminuição da frequência cardíaca e da tensão arterial.

Ainda assim, o estudo tinha limitações importantes: a amostra era muito pequena e os participantes não foram aleatorizados, o que torna difícil separar um possível efeito real da frequência de fatores como a expectativa de benefício ou uma resposta geral de relaxamento.

Em geral, a investigação contemporânea indica que os efeitos do som e da música no bem-estar dependem menos de uma frequência “especial” e mais da forma como interpretamos e atribuímos significado ao que ouvimos.

Alguns autores têm sugerido que o uso de frequências associadas a certos padrões de ondas cerebrais - como as ondas delta (0,5–4 Hz, associadas ao sono profundo) ou as ondas alfa (8–12 Hz, associadas a um estado desperto e relaxado) - poderia levar o cérebro a sincronizar com essas frequências e, assim, facilitar o relaxamento.

No entanto, a evidência que apoia esta hipótese não é conclusiva. Um estudo de 2017 não detetou alterações na atividade elétrica cerebral depois de os participantes ouvirem esse tipo de frequências apresentadas como batimentos binaurais.

Os próprios batimentos binaurais são outra forma de estímulo sonoro a que muitas pessoas atribuem efeitos quase milagrosos no bem-estar. Quando se reproduzem duas frequências ligeiramente diferentes, uma em cada ouvido, o cérebro percebe uma pulsação rítmica cuja taxa corresponde à diferença entre essas duas frequências - a isso chama-se um batimento binaural.

Há alguma evidência de que certos sistemas fisiológicos (como a respiração e a frequência cardíaca) tendem a sincronizar com qualquer batida que ouvimos. Esse fenómeno pode contribuir para reduzir os níveis de ativação ou alerta.

É também por isso que, quando queremos relaxar, muitos de nós preferimos música mais lenta e tranquila: uma batida mais vagarosa pode abrandar a respiração e a frequência cardíaca, ajudando-nos a sentir mais sonolência ou serenidade.

Concentre-se na sua própria resposta

Isto significa que os batimentos binaurais tenham um efeito terapêutico especial? Não propriamente.

Um estudo recente observou que os batimentos binaurais podem aumentar o relaxamento e modificar a atividade cerebral. Mas, de forma crucial, efeitos semelhantes foram encontrados com outros tipos de sons em movimento ou espacializados. Os autores concluíram que os benefícios provavelmente resultam de características auditivas gerais, e não dos batimentos binaurais em si.

No fim de contas, tudo depende das preferências e da perceção de cada pessoa. Por exemplo, os batimentos binaurais são muitas vezes associados a meditação ou mantras - e pode ser essa associação que amplifica os supostos efeitos no bem-estar para algumas pessoas.

Com a música afinada em "Lá 432 Hz" passa-se algo semelhante.

O cérebro tende a interpretar sons como expressão de estados emocionais. Quando estamos relaxados, a nossa voz costuma ter um tom mais grave do que quando estamos entusiasmados, agitados ou nervosos.

Por isso, notas mais graves podem ser percebidas como mais tranquilizadoras do que notas mais agudas.

Mais uma vez, isto não significa que haja algo de especial ou “mágico” na afinação em 432 Hz - apenas que, para muitas pessoas, sons mais graves parecem mais calmos. E o mesmo efeito pode ser obtido ao ouvir outras músicas ou frequências com um tom mais baixo.

Assim, embora 432 Hz possa soar agradável e relaxante para alguns ouvidos, não é um atalho para qualquer alinhamento cósmico.

Em vez de se fixar nos números, vale mais a pena prestar atenção à sua própria resposta. Repare como diferentes sons o fazem sentir, quais abrandam a sua respiração, aliviam a tensão no corpo ou melhoram o seu humor.

Quando se trata de bem-estar, o que funciona é aquilo que funciona para si.

Sandra Garrido, Investigadora Sénior, Escola de Psicologia, Universidade de Sydney

Este artigo é republicado a partir de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.

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