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Tempestade “Kristin”: 100 dias depois, Leiria ainda sem normalidade

Homem a fechar a porta de vidro de uma pequena loja com várias caixas no interior durante o dia.

Quem hoje atravessa a região de Leiria continua a deparar-se com sinais muito evidentes da tempestade “Kristin”. Nas estradas ladeadas por pinhal, o verde mantém-se como cor dominante, mas surge agora cortado por árvores tombadas, troncos quebrados e pinheiros abatidos quase ao nível do solo. Persistem muros por refazer, coberturas improvisadas com lonas e fachadas que ainda exibem as marcas deixadas pelo vento. Já passaram 100 dias desde a intempérie, mas este território está longe de ter regressado por completo à normalidade.

De acordo com Henrique Carvalho, diretor-executivo da Nerlei - Associação Empresarial da Região de Leiria, os prejuízos diretos nas empresas aproximam-se dos €1,3 mil milhões. Porém, quando se somarem atrasos nas entregas, perda de clientes e perturbações no funcionamento, o impacto global deverá ultrapassar os €1,5 mil milhões. Em várias empresas verificou-se um a dois meses de paragem. E, sublinha o responsável, a prioridade passa por “recuperar os negó­cios, recuperar a confiança dos clientes e manter a atividade num processo normal”.

Recuperação à vista?

No final de fevereiro, poucas semanas após a tempestade, o Expresso ouviu empresários da região que relatavam um quadro de destruição: unidades fabris imobilizadas, hotéis arrasados e empresas sem energia. Três meses depois, já se notam avanços, embora continuem a existir questões pendentes.

Na praia da Vieira, Francisco Almeida Gomes, proprietário dos hotéis Cristal, conseguiu reabrir as unidades que tinham sofrido danos severos. Na altura, descrevera um cenário quase de guerra: janelas destruídas, telhados arrancados, areia acumulada no interior do hotel e uma piscina panorâmica completamente devastada. Agora assegura que o complexo turístico está “95% recuperado”. Ainda assim, se inicialmente apontava para perdas de €800 mil, hoje revê esse valor para €1,3 milhões.

Também na Marinha Grande o processo está longe de concluído. Quando o Expresso visitou em fevereiro a Tecfil, empresa dedicada ao fabrico de fios e cordas, a unidade estava há semanas sem eletricidade e recorria a geradores para manter apenas parte da produção. O consumo de gasóleo atingia os 20 mil litros por dia e a empresa avisava que “não tinha mais dinheiro” para combustível. “Já temos energia, mas a qualidade da energia ainda não é aquela que deve ser”, afirma Paulo Valinha, administrador da Tecfil. Segundo o empresário, continuam a verificar-se cortes frequentes, fruto de intervenções feitas “um bocado para desenrascar”. “Ainda não podemos dizer que temos uma vida normal”, sintetiza. E cada falha pesa: “Um corte representa cerca de €5 mil de perda.” O custo total da tempestade ronda agora os €3 milhões.

O que ainda falha?

As fragilidades na rede elétrica e nas comunicações estão entre as maiores preocupações partilhadas por empresários e pela Nerlei. Henrique Carvalho alerta que uma parte das soluções aplicadas foi “provisória”.

“Com uma situação previsível de fogos e outras intempéries breves, podemos ter aí problemas significativos, nomeadamente no que diz respeito às comunicações”, avisa. “É muito difícil de entender”, acrescenta, referindo-se ao facto de algumas áreas terem passado vários dias sem comunicações de qualidade.

A lentidão das seguradoras é outro entrave que se mantém. Francisco Almeida Gomes diz que ainda aguarda o encerramento definitivo do processo relativo aos danos provocados pela tempestade. Henrique Carvalho nota igualmente atrasos relevantes nas peritagens e critica a inexistência de adiantamentos às empresas. “É muito importante que existam adiantamentos das seguradoras às empresas, porque essa é a forma mais evidente e rápida de se começar a recuperar”, defende.

Quanto às medidas económicas lançadas pelo Governo, as avaliações diferem no tom, mas convergem numa crítica: os apoios chegaram tarde e, em grande parte, traduziram-se em mais dívida para empresas já fragilizadas pelos prejuízos. “Se nós estivéssemos à espera do Estado, estávamos desgraçados. Neste momento a empresa já estava em insolvência”, afirma Francisco Almeida Gomes, apontando demoras do Estado e do Banco Português de Fomento na resposta às necessidades das empresas afetadas. Paulo Valinha reconhece algumas respostas positivas, sobretudo na manutenção do emprego, mas critica que muitas soluções se tenham limitado a mais financiamento bancário.

Houve 700 empresas a aderir ao lay-off

À volta de 700 empresas atingidas pela tempestade “Kristin” recorreram ao lay-off simplificado, criado pelo Governo para mitigar os efeitos da intempérie que fustigou a região Centro no final de janeiro. Segundo dados indicados ao Expresso pelo diretor-executivo da Nerlei, praticamente todas as candidaturas foram aprovadas (97%), abrangendo 5650 trabalhadores.

Os números mostram que cerca de 40% das organizações apoiadas têm sede em Leiria; 35% pertencem ao sector industrial e 20% ao “comércio por grosso e a retalho”. Ainda assim, Henrique Carvalho sublinha que as empresas abrangidas por esta medida representam menos de 2% do tecido empresarial da região.

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