Monitorização de navios russos e da “frota fantasma” em 2025
A intensificação da presença de navios russos - incluindo embarcações associadas à chamada “frota fantasma” da Federação Russa - em águas sob soberania ou jurisdição portuguesa não se esgotou na passagem de 69 navios ao longo de 2025. De acordo com a estatística divulgada pela Marinha em janeiro, esses movimentos motivaram 373 ações de monitorização.
Além desse acompanhamento, a Marinha já terá identificado a utilização de drones a operar a partir de navios russos. Trata-se de um dado que não foi divulgado oficialmente, mas que terá sido referido por um alto responsável naval a António José Seguro quando, enquanto candidato presidencial, visitou a Base Naval do Alfeite, a 30 de dezembro de 2025.
A revelação no Parlamento e a visita ao Alfeite
A deteção de sistemas não tripulados russos por parte da Marinha foi trazida a público pelo deputado socialista André Pinotes Baptista, vice-presidente da Comissão Parlamentar de Infraestruturas, Mobilidade e Habitação. A referência surgiu quando moderou uma conferência na biblioteca da Assembleia da República, dedicada à geopolítica e à segurança dos cabos submarinos, realizada a 21 de abril, com a presença de dois contra-almirantes na reserva e dezenas de participantes.
Na sessão de trabalho parlamentar, o deputado afirmou ter recolhido essa informação numa visita ao Alfeite, relatando que o oficial responsável pela apresentação mencionou “visitas persistentes de viaturas não tripuladas russas, que entretanto desapareceram”. No mesmo contexto - procurando lançar a discussão sobre a vulnerabilidade destas infraestruturas críticas - acrescentou: “Não contei à minha filha de 7 anos” para não a assustar.
O deputado do PS refere que a Marinha falou em “visitas de sistemas não tripulados russos, que desapareceram”.
Mais tarde, Pinotes Baptista confirmou ao Expresso que essa informação foi transmitida publicamente durante a visita à Base Naval, perante um grupo “de 20 ou 30 pessoas” que acompanhavam António José Seguro.
O briefing a António José Seguro e a reserva de comentários
Em resposta ao Expresso, a Marinha confirma que António José Seguro se deslocou ao Comando Naval no período de pré-campanha presidencial e que lhe foi apresentada uma sessão informativa sobre o funcionamento do Centro de Operações da Marinha e do Centro Coordenador de Busca e Salvamento de Lisboa.
“Neste briefing, no âmbito das atividades desenvolvidas, foram também referidas aquelas relacionadas com acompanhamento de navios de interesse, em concreto os da Federação Russa”, indicou o porta-voz da Marinha, comandante Ricardo Sá Granja. O mesmo conjunto estatístico acabaria por ser tornado público alguns dias depois, através de um comunicado oficial.
Quanto à “utilização de drones, nos termos indicados pelo Sr. Deputado André Pinotes Baptista, bem como outros assuntos referidos durante a visita, a Marinha não tem qualquer comentário adicional a fazer”. Na prática, o gabinete do chefe do Estado-Maior da Armada não confirma nem desmente a informação que o deputado socialista tornou pública e que, segundo o relato, terá sido partilhada pelo próprio comando naval.
A Marinha não contraria a versão divulgada e valida a existência de um briefing a Seguro sobre a monitorização de navios russos.
Ministério da Defesa critica divulgação pública do tema
O Expresso questionou por que razão a informação não foi divulgada publicamente, à semelhança do que sucedeu no Reino Unido - onde a deteção de um submarino russo e de dois minissubmarinos espiões em águas britânicas levou a uma conferência de imprensa do secretário da Defesa, John Healey. Perante a questão, o porta-voz da Marinha remeteu o assunto para o Ministério da Defesa Nacional.
O jornal colocou a pergunta ao gabinete do ministro Nuno Melo, sem obter resposta até ao fecho da edição em papel. Já ao início da noite de quinta-feira, com a edição encerrada, o Ministério da Defesa respondeu, deixando uma crítica implícita ao deputado do PS pela exposição do assunto: “Só por irresponsabilidade se podem tratar matérias reservadas de natureza operacional na praça pública“, justificando assim que não comenta a matéria como fez o homólogo britânico.
“Não revelar aos visados, de diferentes nacionalidades, as ações e técnicas de natureza militar, sejam preventivas, de fiscalização, ou outras, de que são alvo, é uma questão de senso e prudência
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