A maioria dos robôs actuais nasce com uma função muito bem definida. Depois de construídos, raramente mudam de missão. Um braço robótico pode agarrar, elevar ou separar peças, mas os seus movimentos ficam praticamente determinados desde o início.
Quando a tarefa muda, é comum os engenheiros terem de voltar a conceber a máquina quase do zero. Isso implica tempo, custos e trabalho adicional.
Agora, um novo tipo de músculo artificial começa a pôr em causa esse modelo. Em vez de ficar preso a um único papel, consegue alterar a forma, recuperar após sofrer danos e até ser reaproveitado noutro dispositivo. Esta elasticidade funcional pode vir a alterar a forma como os robôs são concebidos e utilizados no dia a dia.
Materiais de músculo artificial
Este sistema assenta num componente chamado actuador de elastómero dieléctrico, ou DEA. Trata-se de materiais macios que se deformam quando a electricidade os atravessa.
Os DEA já são usados, por exemplo, para gerar vibração em dispositivos vestíveis e em pinças robóticas macias que manipulam objectos frágeis, como fruta.
A novidade surge com um material especial integrado no actuador. À temperatura ambiente, comporta-se como um sólido, mas passa a ter um comportamento semelhante ao de um fluido quando é sujeito a calor ou a campos magnéticos. Esta transição permite que o material se desloque e se reconfigure enquanto o dispositivo continua em funcionamento.
Libertar-se de projectos fixos
Os músculos artificiais convencionais dependem de padrões de eléctrodos rígidos. Assim que esses padrões são impressos, deixam de poder ser alterados.
Isto restringe as capacidades do robô. Se for necessário lidar com uma nova geometria ou executar um movimento diferente, o sistema completo tende a ter de ser redesenhado.
O novo actuador elimina essa limitação. O seu eléctrodo consegue dividir-se, fundir-se e deslocar-se em três dimensões. Além disso, pode mudar de posição mesmo durante a operação. Na prática, um único robô passa a poder desempenhar tarefas distintas sem precisar de ser reconstruído.
Esta versatilidade é particularmente relevante em cenários reais. Um robô numa fábrica pode ter de alternar entre movimentos de agarrar, flectir e expandir. Em vez de trocar componentes ou máquinas, poderia ajustar-se no momento.
Auto-regeneração após danos
Os danos são um dos grandes entraves na robótica. Um fio cortado ou uma falha eléctrica pode imobilizar por completo um equipamento. Este sistema segue uma lógica diferente.
Se uma parte do eléctrodo ficar danificada, o material pode tornar-se fluido nas imediações desse ponto. Desse modo, volta a ligar secções interrompidas ou cria um desvio em torno da zona afectada. Em vez de parar, o robô continua a funcionar.
Esta capacidade prolonga a vida útil do sistema. Também diminui o tempo de paragem, algo crucial em ambientes industriais, onde atrasos podem sair caros.
Reutilização de novos músculos artificiais
Há outra característica que se destaca. Quando um dispositivo chega ao fim da sua vida, o material do eléctrodo não tem de ser descartado. Pode ser extraído em forma líquida e reaproveitado num novo sistema.
Em testes, mesmo após vários ciclos de reutilização, o sistema manteve uma taxa de recuperação de cerca de 91 por cento, continuando a apresentar um desempenho consistente. Isto abre caminho a uma robótica mais sustentável, em que as peças são reutilizadas em vez de deitadas fora.
Mais perto de máquinas adaptáveis
Este trabalho junta ciência dos materiais e engenharia mecânica. O material precisava de ser simultaneamente estável e flexível. Em paralelo, o sistema tinha de demonstrar, em condições reais, que conseguia mover-se, reconfigurar-se e recuperar.
O resultado é um único actuador capaz de assumir vários papéis consoante a necessidade. É uma mudança face a robôs concebidos para uma única tarefa, rumo a máquinas que se ajustam quando a situação o exige.
“Este estudo representa uma inovação decisiva ao transformar eléctrodos tradicionalmente estáticos e passivos em ‘elementos vivos e programáveis’, graças a avanços no design de partículas e polímeros”, afirmou o co-autor do estudo Jeong-Yun Sun, professor na Faculdade de Engenharia da Universidade Nacional de Seul.
“Esta tecnologia de eléctrodo auto-regenerador e reconfigurável em forma servirá como uma base essencial para a robótica macia sustentável de próxima geração.”
Para onde isto pode levar
O efeito pode estender-se a várias áreas. Robôs macios poderão executar tarefas mais complexas sem redesenhos constantes. Dispositivos poderão reparar-se enquanto operam em condições adversas, incluindo ambientes com stress eléctrico ou danos físicos.
Existe ainda potencial para novos tipos de ecrãs que mudam de forma em tempo real. Os músculos artificiais poderão tornar-se mais próximos do comportamento biológico, com movimentos que acompanham a complexidade do movimento humano.
A transformação maior está na forma como as máquinas são construídas e mantidas. Em vez de estáticas e descartáveis, poderão tornar-se sistemas adaptáveis que evoluem, recuperam e continuam a trabalhar ao longo do tempo.
O estudo completo foi publicado na revista Science Advances.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário