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A psicologia diz que a forma como reage, emocionalmente, aos elogios mostra o quão seguro se sente.

Homem jovem sentado num café, a olhar para o telemóvel, com livro aberto e chá quente à sua frente.

“Hoje estás mesmo bem.”
Ela ri-se, encolhe os ombros e atira o clássico: “Qual quê, estou um caco.”
A pessoa que elogiou ainda sorri, mas há ali qualquer coisa que arrefece por um instante. Não é drama - é só menos proximidade do que havia um segundo antes.

Em Portugal, chamamos muitas vezes a isto “modéstia” e seguimos em frente.
Só que a psicologia insiste num ponto: estas reacções pequenas e meio desconfortáveis raramente são só conversa. Falam de vínculo, de confiança e, sobretudo, de segurança emocional - da sensação de “estou bem aqui com esta pessoa”.

O modo como lida com um simples “fizeste um bom trabalho” vai desenhando, em silêncio, o quão seguro se sente com os outros.
E, por vezes, o quão seguro se sente consigo próprio.
De forma estranha, um elogio pode ser mais íntimo do que uma confissão.

When “Nice shirt” feels like a threat

Observe um grupo de adultos no trabalho ou num jantar e vai notar um padrão.
O elogio chega e quem o recebe ou encolhe, faz uma piada, muda de assunto, ou brilha por meio segundo e diz: “Obrigado.”

É naquele micro-segundo entre ouvir o elogio e escolher a resposta que a psicologia “escuta”.
Para algumas pessoas, o sistema nervoso recebe um elogio como um cobertor quente.
Para outras, é como um holofote numa cena de crime.

Dizemos que adoramos ser incentivados, mas muitos de nós ficam tensos quando isso acontece de verdade.
A boca diz “obrigado”, mas os ombros dizem: “Por favor, não olhem demasiado para mim.”

Veja o caso da Lena, 32 anos, gestora de projeto.
O chefe diz-lhe numa reunião: “Geriste aquele cliente brilhantemente.” A sala vira-se, por momentos, para ela.
O coração da Lena acelera; ela ri-se alto demais e dispara: “A sério, tive foi sorte, eles estavam bem-dispostos.”

No comboio para casa, volta a passar o momento em loop, envergonhada.
Porque é que foi tão difícil dizer apenas “Obrigado”?
Lembra-se de ser miúda, levar um desenho para casa e ouvir: “Não ganhes a mania.”
O elogio vinha quase sempre com um aviso.
E agora, qualquer elogio soa a teste - um teste que pode falhar na próxima vez.

Os psicólogos falam de “segurança sentida” (felt safety) - não se está ou não seguro, mas se o corpo acredita que está.
Os elogios tocam nesse ponto sensível, porque dizem: “Eu vejo-te. Eu valorizo esta parte de ti.”

Se, no passado, ser visto levava a crítica, rejeição ou pressão, o cérebro aprende a ligar elogio a perigo.
E protege-se: minimiza, desvia, esconde.

Por outro lado, quando cresce com aprovação constante e não condicional, os elogios soam a um eco natural de quem é.
Não precisa de colapsar nem de “performar”.
Consegue receber as palavras sem sentir que agora tem de pagar com perfeição.
Essa distância entre as duas reacções mostra a sua segurança emocional em tempo real.

How to accept a compliment without panicking inside

Comece tão pequeno e trapalhão quanto for preciso.
Da próxima vez que alguém disser algo simpático, pare um instante, respire uma vez e não faça nada.
Sem piada. Sem “não foi nada.” Apenas uma pausa curta e desconfortável, para dar ao cérebro tempo de perceber que não há perigo.

Depois, experimente uma frase simples: “Obrigado, significa muito.”
Não precisa de justificar, rebaixar ou devolver o elogio como se fosse uma batata quente.
Deixe as palavras assentarem em si durante dois segundos.

Isto não é sobre boas maneiras.
É um micro-exercício para se deixar ver sem fugir.

Muitos de nós têm o reflexo de devolver o elogio imediatamente.
“A tua apresentação foi excelente!”
“Oh, a tua também foi incrível, adorei os slides!”

Parece gentil, mas muitas vezes é uma fuga.
Tira rapidamente o foco de si, porque ser o centro da atenção dá sensação de exposição.
Com o tempo, isto treina o cérebro a acreditar que o seu valor só existe quando está a dar - não quando está a receber.

Experimente introduzir um atraso.
Primeiro aceite; depois, se for genuíno, devolva algo mais tarde.
É nessa pausa que a auto-estima cresce em silêncio.

O psicólogo Guy Winch costuma dizer que aceitar elogios é “higiene emocional”: “Quando desvalorizamos o elogio, também estamos a desvalorizar provas valiosas que contradizem a nossa auto-crítica dura.”

  • Repare no seu guião automático
    Apanhe frases como “Não foi nada”, “Qualquer pessoa fazia”, ou “Tive sorte”. Isto não é humildade - é auto-apagamento.
  • Teste uma resposta nova de cada vez
    Troque “Eu não sou assim tão bom” por “Trabalhei muito nisto, obrigado.” Pequenas melhorias vão reprogramando, devagar, o que sente que merece.
  • Observe o corpo, não só as palavras
    Os ombros sobem? Desvia logo o olhar? Estes movimentos mínimos mostram quão seguro o seu sistema nervoso se sente ao receber calor humano.
  • Pratique primeiro com pessoas seguras
    Escolha um amigo ou o seu parceiro e diga que está a treinar receber elogios. Deixe que a prática seja um bocadinho estranha e honesta.
  • Permita o desconforto
    Sejamos sinceros: ninguém faz isto todos os dias. Crescer aqui sabe a esquisito no início. “Constrangedor” não é falhar - é só novidade.

What your reaction quietly reveals about your emotional world

Olhe com atenção para o seu estilo.
Faz piadas para apagar qualquer elogio?
Isso muitas vezes aponta para medo de vulnerabilidade: se levar o elogio a sério, admite que esta parte de si importa - e isso pode assustar.

Se lista defeitos logo a seguir (“Obrigado, mas a terceira slide correu mal”), isso pode ser um escudo perfeccionista.
Prefere criticar-se primeiro, antes que alguém o faça.
Há uma espécie de segurança estranha em bater no próprio ponto antes dos outros.

Depois há quem consiga aceitar elogios, mas só quando “entregou acima do esperado”.
Se o elogio aparece num dia normal, sente-se impostor.
Este padrão cresce muitas vezes de amor condicional: afecto que só chegava quando se destacava.

Por fora, parecem confiantes.
Por dentro, sentem que uma performance apenas “mediana” vai expô-los.
Por isso, o elogio não cai como “és valorizado”, mas como “mantém este nível ou perdes tudo.”
Não admira que o corpo fique tenso.

Algumas reacções mostram algo ainda mais fundo: se acredita que tem direito a ocupar espaço emocional.
Quem cresceu a cuidar dos outros, muitas vezes sente culpa quando é ele a receber atenção positiva.
Desvia logo o foco, porque ser o “alvo de cuidado” parece inseguro ou pouco familiar.

Outros vivem o oposto: aceitam elogios com facilidade, mas desmoronam com qualquer crítica.
Para essas pessoas, o elogio é como oxigénio - ficam dependentes.
A segurança vem de fora, assente no olhar dos outros, e não no próprio.

Entre estes extremos existe um meio-termo silencioso.
Consegue desfrutar de elogios, sobreviver à ausência deles, e aguentar tanto o louvor como o feedback sem se perder.
Esse estado calmo não é um traço fixo de personalidade - é um clima emocional que se treina.

Talvez o próximo elogio que receber não seja apenas uma gentileza social.
É um espelho pequeno, a mostrar como a sua história, o seu sistema nervoso e o seu diálogo interno estão a dançar em conjunto.

Não precisa de analisar cada “Gosto desses sapatos.”
Mas reparar no reflexo - encolho, desvio, brilho, ou fico congelado? - pode ser um check-in surpreendentemente honesto.

A partir daí, pode renegociar isto consigo, com cuidado.
Pode decidir que ser visto não é o mesmo que ser julgado.
Pode deixar que palavras boas lhe toquem sem ficar a dever perfeição a ninguém.

Às vezes o verdadeiro trabalho emocional não está na grande catarse em terapia, mas naquele sussurro de um momento em que alguém diz “Fizeste bem” e você escolhe, em silêncio, não fugir.

Key point Detail Value for the reader
Compliment reactions show felt safety Deflecting, joking, or tensing up often point to old patterns of criticism, pressure, or conditional love Helps you decode your own automatic responses without blaming yourself
Accepting praise is a trainable skill Simple practices like pausing, saying “Thank you,” and observing your body can slowly reshape your reactions Gives you concrete tools to build emotional safety, not just theory
Being seen doesn’t have to mean being exposed Learning to tolerate the spotlight in small doses creates a calmer inner climate over time Supports healthier relationships, better boundaries, and a kinder inner voice

FAQ:

  • Why do I feel physically uncomfortable when someone compliments me?Your body may have learned to link “being noticed” with criticism, pressure, or rejection. So even harmless praise triggers a stress response. Over time, gentle practice with safe people can teach your nervous system that this kind of attention is not a threat.
  • Is deflecting compliments really that bad?It’s not “bad,” it’s just information. When you constantly brush off praise, you also block evidence that you’re capable and worthy. That can quietly feed low self-esteem and self-doubt, even if you seem confident on the outside.
  • How can I start accepting compliments if it feels fake?Begin with a simple “Thank you” and allow it to feel unnatural. You’re not faking the achievement, you’re just trying a new script. With repetition, your words and your self-image slowly line up.
  • What if I worry people will think I’m arrogant?Accepting a compliment is not boasting; it’s acknowledging someone’s perception. Arrogance usually comes from exaggerating your value, not calmly agreeing that something went well.
  • Can therapy really help with something this small?Yes. Compliments touch core beliefs about worth, safety, and visibility. Working on this in therapy often unlocks bigger shifts: easier relationships, stronger boundaries, and a more stable sense of self.

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