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Recuperação de lesões nas redes sociais: Kim Kardashian e Kid Cudi em modo viral

Homem com pé imobilizado e muletas sentado no sofá a usar telemóvel e tablet numa mesa à frente.

Quando Kim Kardashian entrou, a deslizar numa trotinete de joelho, na festa de inauguração da boutique SKIMS em Nova Iorque - com um sapato de salto agulha num pé e, no outro, um gesso de designer - não estava apenas a contornar uma lesão. Estava, também, a produzir conteúdo.

E não é caso único.

Da lesão ao conteúdo: Kim Kardashian, Kid Cudi e as redes sociais

Em 2024, o rapper Kid Cudi transformou o próprio pé partido numa narrativa viral, partilhando actualizações de si com muletas e com uma bota ortopédica pós-cirúrgica depois de um incidente no festival Coachella, na Califórnia.

Lesões com este nível de exposição pública já não geram só empatia: rendem pontos de estilo, novos seguidores e milhões de visualizações.

À medida que a recuperação deixa de ser um processo privado e passa a funcionar como entretenimento online, surge uma questão essencial: esta tendência está a apoiar a cura - ou a incentivar comportamentos arriscados que podem atrasar a recuperação?

Basta abrir uma rede social para ser provável encontrar vídeos de pessoas a coxear pelo supermercado, a dançar com muletas ou a fazer treinos intensos enquanto usam uma bota médica.

Comunidades de #ClubeDoPePartido e #RecuperacaoDeLesao

Hashtags como #ClubeDoPePartido e #RecuperacaoDeLesao deram origem a comunidades activas, onde se partilham dicas, desabafos e marcos do processo de recuperação. Para muitas pessoas, a reabilitação tornou-se uma espécie de espectáculo público, com histórias de regresso “em grande” e tom de vitória.

E isto não se limita a figuras famosas. Há pessoas de todos os tipos a transformar lesões - desde entorses em caminhadas até recuperações pós-cirurgia - em diários digitais. Parte desse conteúdo é útil, com conselhos práticos e apoio emocional; outro foca-se sobretudo em “acelerar” resultados, por vezes passando por cima das etapas lentas (mas indispensáveis) de uma recuperação verdadeira.

Acompanhar a recuperação de outras pessoas pode ser, de facto, muito reconfortante. Ver alguém a brincar com a instabilidade a caminho da casa de banho, ou a explicar como subir escadas com muletas, ajuda a diminuir a solidão que tantas vezes acompanha uma lesão.

Também há criadores que acertam na abordagem. Cada vez mais profissionais de saúde - de cirurgiões ortopédicos a fisioterapeutas e podologistas - usam plataformas como o TikTok e o Instagram para divulgar exercícios seguros, prazos realistas e orientações especializadas sobre como atravessar a recuperação.

Para quem tem dificuldades em aceder a acompanhamento presencial, este tipo de conteúdo com base clínica pode ser uma verdadeira tábua de salvação.

Ainda assim, nem tudo o que se publica tem a mesma qualidade - e certas publicações podem prejudicar mais do que ajudar.

Quando o repouso é reembalado

Nas redes sociais, o repouso nem sempre cabe no enredo. Muitos dos vídeos de recuperação com mais visualizações não vêm de profissionais de saúde, mas de influenciadores que procuram mostrar uma evolução rápida.

Há quem abandone as muletas cedo demais, quem comece a apoiar o peso do corpo sem ajuda antes de tempo, ou quem experimente exercícios de alto impacto quando o organismo ainda está vulnerável - tudo para gerar envolvimento.

O que frequentemente fica fora do enquadramento é a parte menos apelativa: o inchaço, os retrocessos, a necessidade de parar e o ritmo lento (por vezes frustrante) da cura real. Ossos, tendões e ligamentos não se deixam convencer por gostos nem por números de seguidores.

Recuperar implica tempo e uma carga progressiva bem estruturada: aumentar, de forma gradual e intencional, o apoio e o movimento para reconstruir força sem elevar o risco de nova lesão.

Quando este processo é ignorado, o resultado pode ser atraso na consolidação, dor crónica, recaídas ou até complicações a longo prazo nas articulações e na musculatura - com impacto em joelhos, ancas ou costas.

E não se trata apenas de teoria. Um estudo de 2025 que analisou conteúdo no TikTok sobre lesões agudas do joelho concluiu que a maioria dos vídeos era feita por não especialistas e continha informação incompleta ou incorrecta.

Os investigadores alertaram que esta desinformação pode, não só, distorcer as expectativas dos doentes, como também influenciar escolhas que dificultam uma recuperação adequada. Tendências semelhantes foram identificadas em vídeos sobre lesões do ligamento cruzado anterior, onde práticas perigosas, sem suporte científico, foram promovidas a milhões de pessoas.

Profissionais de saúde já estão a observar este efeito em cadeia. Muitos fisioterapeutas e podologistas relatam um aumento de doentes que chegam com expectativas irrealistas moldadas pelas redes sociais, em vez de se guiarem por aconselhamento clínico.

Alguns ficam desmotivados quando o próprio progresso não acompanha o que vêem online. Outros tentam exercícios arriscados antes de o corpo estar preparado, e acabam por recuar no processo.

A Organização Mundial da Saúde também tem assinalado os riscos da desinformação em saúde na internet. Quando “atalhos” nas redes substituem cuidados profissionais, o risco não é apenas recuperar mais devagar: podem surgir problemas médicos mais complexos, e os clínicos ficam a lidar com as consequências.

A recuperação não é uma corrida

Embora as comunidades online possam oferecer suporte e alívio emocional, a pressão para “recuperar depressa” pode ser perigosa. Vídeos virais e recuperações de celebridades alimentam comparações nocivas, levando algumas pessoas a apressar a própria cura.

A investigação mostra que a vontade psicológica de regressar à actividade - sobretudo entre adultos mais jovens - pode reduzir a adesão à reabilitação e aumentar de forma acentuada o risco de nova lesão.

A recuperação verdadeira não é definida por hashtags em tendência; depende de um calendário pessoal, ditado pela biologia, que exige paciência, repouso e reabilitação cuidadosamente estruturada.

Ver figuras como Kim Kardashian com um gesso de designer pode tornar a lesão “fashion”. Mas, para a maioria das pessoas, partir um pé não tem glamour: são semanas de movimentos desajeitados, desconforto, adaptações e uma cura silenciosa e constante.

Conteúdo sobre mobilidade pode inspirar, motivar e criar ligação - mas não é um guião para a sua recuperação. Se estiver lesionado, olhe para o que vê online com curiosidade, não com comparação.

Aprenda com os outros, mas dê prioridade aos sinais do seu corpo. A cura é individual. A sua recuperação não vai ser determinada por visualizações, gostos ou tendências virais - vai acontecer ao ritmo do seu organismo.

Craig Gwynne, Docente Sénior em Podologia, Universidade Metropolitana de Cardiff

Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.

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