Da Sputnik 1 ao aumento das cargas úteis em órbita
Desde que o primeiro satélite, a Sputnik 1, foi colocado no espaço a 4 de outubro de 1957, já enviámos para lá cargas úteis de tipos surpreendentemente variados. E, à medida que o acesso ao espaço se tornou mais aberto - muito por impulso do sector espacial comercial - também se multiplicaram as experiências e “encomendas” que seguem a bordo destes voos.
Cápsula Nyx da The Exploration Company: voo Transporter-14 e a carga da Celestis
Um exemplo recente é a cápsula Nyx, desenvolvida pela startup alemã de aeronáutica e espaço The Exploration Company. A Nyx descolou a 23 de junho, a partir da Vandenberg Space Force Base, no topo de um foguete Falcon-9, integrada numa missão de partilha de lançamento (Transporter-14).
Para este voo, baptizado “Missão Possível”, a carga útil incluía cinzas e ADN de mais de 166 pessoas falecidas, fornecidos pela Celestis, uma empresa do Texas especializada em voos memoriais ao espaço.
Embora a missão tenha atingido a órbita e realizado uma reentrada controlada, os paraquedas de aterragem da cápsula não abriram antes do contacto com a superfície. Como resultado, a Nyx embateu no oceano Pacífico a 24 de junho, e toda a carga foi perdida no mar.
Esta foi a primeira ocasião em que a The Exploration Company levou para o espaço cargas pagas por clientes, num total equivalente a cerca de 300 kg (660 libras) de carga.
“Sucesso parcial (falha parcial)”: o que a empresa comunicou
Numa declaração publicada no LinkedIn, a empresa caracterizou o voo como um “sucesso parcial (falha parcial)”.
Segundo o comunicado:
"A cápsula foi lançada com sucesso, forneceu energia às cargas úteis de forma nominal em órbita, estabilizou-se após a separação do lançador, reentrou e restabeleceu comunicações após o apagão. Mas, depois disso, de acordo com o nosso melhor conhecimento atual, encontrou um problema e perdemos comunicações alguns minutos antes do amarar. Continuamos a investigar as causas de raiz e partilharemos mais informação em breve. Pedimos desculpa a todos os nossos clientes que nos confiaram as suas cargas úteis."
"Agradecemos às nossas equipas o seu trabalho árduo e a sua dedicação ao sucesso. Temos vindo a ultrapassar limites em tempo e custo recorde. Este sucesso parcial reflete tanto a ambição como os riscos inerentes à inovação. Aproveitando os marcos técnicos alcançados ontem e as lições que iremos retirar da investigação em curso, iremos preparar-nos para voltar a voar o mais rapidamente possível."
Segunda perda para a Celestis e mensagem às famílias
Este episódio representa também a segunda vez que a Celestis perde uma carga. A anterior aconteceu em 2023, quando um foguete que transportava os restos cremados do falecido astronauta da NASA Philip K. Chapman explodiu sobre o Novo México.
Entretanto, a Celestis divulgou igualmente uma nota de condolências dirigida às famílias das pessoas cujos restos foram perdidos:
"Nos próximos dias, a nossa equipa irá contactar cada família individualmente para prestar apoio e discutir possíveis próximos passos. Embora atualmente acreditemos que não conseguimos recuperar as cápsulas de voo, esperamos que as famílias encontrem alguma paz ao saber que os seus entes queridos fizeram parte de uma viagem histórica, foram lançados ao espaço, orbitaram a Terra e estão agora a repousar na vastidão do Pacífico, semelhante a uma dispersão no mar tradicional e honrada."
Canábis, sementes e ciência cidadã a bordo
Para além dos restos humanos e de outras cargas úteis, a Nyx transportava também matéria vegetal e sementes de canábis fornecidas pela Martian Grow, um projecto de ciência cidadã de código aberto.
A intenção era analisar de que forma a microgravidade influencia a germinação e a resistência, com o objetivo de obter pistas sobre como a vida poderá adaptar-se e comportar-se num ambiente marciano.
Missão Bikini, objetivos da Nyx e o plano para a ISS
Antes deste voo, a primeira missão - a Missão Bikini - tinha lançado uma cápsula de reentrada mais pequena em julho de 2024, no topo de um Ariane 6. No entanto, nesse caso, a cápsula ficou em órbita, depois de a etapa superior do foguete não a ter colocado na trajetória de reentrada prevista.
Já esta missão mais recente procurou testar tecnologias essenciais e confirmar a capacidade da cápsula Nyx para transportar carga para o espaço. A expectativa é que versões futuras venham a realizar missões para destinos em Órbita Terrestre Baixa (LEO), incluindo a Estação Espacial Internacional (ISS) e/ou as estações que a venham a suceder.
Com esse objetivo, a empresa planeia um voo de demonstração até à ISS em 2028, sujeito a apoio da Agência Espacial Europeia. Até lá, a The Exploration Company pretende avançar e integrar as lições obtidas com esta missão.
Este artigo foi originalmente publicado pelo Universo Hoje. Leia o artigo original.
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