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Novo fragmento de mármore do naufrágio do brigue Mentor, ligado a Lord Elgin, pode vir do Parténon

Mergulhador a explorar destroços subaquáticos com vários artefactos antigos espalhados no fundo do mar.

Investigadores identificaram um fragmento de mármore proveniente do naufrágio do brigue Mentor - um navio associado ao diplomata britânico Lord Elgin - que poderá ter origem no Parténon, o antigo templo de Atenas.

A descoberta dá um novo suporte material a uma discussão com cerca de 200 anos sobre o que, afinal, seguia na carga do navio, trazendo do fundo do mar um indício concreto.

Descoberta ao largo de Citera

O fragmento apareceu junto aos restos do casco que ainda subsistem durante a escavação de 2025 ao naufrágio do Mentor, ao largo de Citera, a sul da Grécia continental.

Através do trabalho desenvolvido no âmbito da Eforia de Antiguidades Subaquáticas da Grécia, o Dr. Dimitrios Kourkoumelis-Rodostamos relacionou a peça com uma carga há muito associada à Acrópole, em Atenas.

O achado destaca-se porque, em campanhas anteriores, tinham sido recuperadas ferramentas, moedas, cordas e objectos pessoais, mas não tinha surgido qualquer fragmento arquitectónico esculpido que pudesse ter pertencido ao carregamento.

Isso torna o local do naufrágio ainda mais relevante: um sítio que continua a revelar pistas sobre aquilo que foi transportado a bordo.

Indícios por detrás do desaparecimento do casco

Um outro sinal importante veio de uma vala vazia aberta a cerca de 4,9 metros a oeste das madeiras preservadas.

Os mergulhadores escavaram aproximadamente 0,9 metros no fundo marinho e, ainda assim, não encontraram madeira conservada - o que sugere que as partes expostas do casco se terão desfeito numa fase precoce.

Relatos históricos referem que mergulhadores de esponjas abriram um acesso ao porão após o afundamento, permitindo que entrasse mais água e que o esforço adicional rasgasse a estrutura.

Esse enquadramento ajuda a perceber por que razão objectos soltos resistiram, ao passo que extensas secções de madeira parecem ter desaparecido por completo do local.

Uma “armadura” metálica num navio de madeira

A norte da viga inferior do navio, os arqueólogos recolheram tiras de cobre e chumbo que, em tempos, revestiam a zona mais baixa do casco.

O cobre atrasava a acumulação de organismos marinhos e oferecia protecção contra vermes-de-navio, animais que perfuram a madeira submersa.

Também surgiram fragmentos de chumbo residual, que reforçavam a área sujeita a maior tensão junto à base.

Em embarcações de madeira, o cobre funcionava como defesa padrão contra incrustações e pragas, o que torna particularmente esclarecedor o revestimento do Mentor.

Em conjunto, estes elementos indicam com precisão onde terminava a protecção e onde começava o reforço, acrescentando um nível raro de detalhe sobre a construção original do navio.

O quotidiano a bordo do Mentor

Dispersos ao lado dos restos estruturais, utensílios da tripulação e uma placa de argila apontam para tarefas comuns realizadas a bordo.

É provável que a placa estivesse próxima de um braseiro, onde a argila cozida ajudaria a impedir que o calor queimasse a madeira nas imediações.

Escavações anteriores no Mentor já tinham revelado relógios, moedas, joalharia e instrumentos, pelo que estas novas peças apenas alargam e enriquecem o retrato do naufrágio.

O conjunto de sinais à escala humana impede que o sítio se reduza a uma disputa científica abstracta: havia pessoas reais a viver e a trabalhar naquele navio.

Fragmentação sob análise

O fragmento de mármore agora identificado mede cerca de 9,4 centímetros de comprimento e 4,8 centímetros de largura.

Uma saliência arredondada talhada na pedra sobressai aproximadamente 2,3 centímetros e ocupa cerca de 6,6 centímetros, correspondendo a pormenores observados no Parténon.

“"As dimensões da gota podem ser comparadas com medições anteriores de elementos decorativos do Parténon",” indicou o Ministério da Cultura grego.

A dimensão, por si só, não prova a origem; ainda assim, as medidas reduziram as hipóteses a uma lista muito curta de fontes clássicas.

Uma ligação física a um passado contestado

O que torna esta peça particularmente significativa é o seu contexto: foi encontrada num naufrágio associado a uma carga de mármore removida de Atenas.

Até aqui, a ligação entre este naufrágio e a carga de mármore assentava sobretudo em documentação, testemunhos de época e esforços de salvamento prolongados.

Como o primeiro salvamento recuperou grande parte do carregamento, os mármores remanescentes no fundo do mar tinham permanecido, frustrantemente, raros.

É por isso que um fragmento menor do que um postal pode ter um peso histórico muito superior ao que o seu tamanho faz supor.

O regresso do debate sobre o Parténon

Para lá da arqueologia, este achado volta a tocar na longa controvérsia sobre as Esculturas do Parténon e sobre onde devem ficar.

As autoridades gregas defendem a reunificação em Atenas, enquanto o Museu Britânico sustenta que a exposição dividida serve o público.

Um fragmento vindo do fundo do mar não resolve esse confronto político, mas acrescenta informação nova sobre o transporte.

Esse dado adicional é relevante porque as disputas de propriedade tendem a endurecer em torno de registos antigos, e não de objectos encontrados recentemente.

Prudência para garantir credibilidade

Mesmo com a atenção gerada, os arqueólogos evitam atribuir a este pequeno pedaço de pedra uma capacidade de prova que, isoladamente, não tem.

A salinidade, a abrasão e o tempo podem apagar pistas superficiais debaixo de água, pelo que a conservação precisa de estabilizar o mármore antes de comparações mais rigorosas.

Segundo responsáveis do Ministério, a conservação e um estudo mais aprofundado deverão clarificar de que monumento antigo provém o fragmento.

Essa cautela mantém aberta a possibilidade de surpresa e, ao mesmo tempo, impede que a descoberta se transforme numa manchete que vá além do que os dados permitem.

Peças minúsculas podem alterar a história

A arqueologia subaquática raramente devolve narrativas completas, e o Mentor lembra que até fragmentos pequenos podem reorientar um caso inteiro.

Uma descoberta revelou a ausência de madeira preservada, outra trouxe objectos da tripulação, e esta aproxima ainda mais o naufrágio da Acrópole.

Vistas em conjunto, estas linhas de evidência transformam o fundo do mar num registo de transporte, salvamento e da “vida posterior” de arte removida.

Por isso, mesmo num naufrágio já bem conhecido, os mergulhadores conseguiram encontrar algo capaz de mudar a história que o envolve.

Um pedaço de mármore, tábuas desaparecidas, revestimento metálico e vestígios de cozinha contam agora a mesma narrativa: o Mentor continua a guardar provas em vários níveis.

As próximas campanhas poderão afinar a origem do fragmento, mas esta descoberta já faz de um naufrágio familiar uma testemunha histórica mais nítida.

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