Saltar para o conteúdo

Estudo do BPI Vida e Pensões: portugueses poupam pouco para a reforma e PPR

Mulher a analisar gráficos e moedas numa jarra, com ténis e cartão ao lado numa mesa de madeira.

Estudo do BPI Vida e Pensões sobre poupança e reforma

Um estudo do BPI Vida e Pensões, entidade que comercializa soluções de poupança e PPR, conclui que os portugueses sentem dificuldades em criar um pé de meia para reforçar a pensão de reforma. Ainda assim, muitos conseguem juntar algum dinheiro - mas, em regra, com objetivos de curto prazo.

A investigação assenta num inquérito a 802 pessoas e num trabalho adicional com 54 participantes, procurando perceber de que forma os portugueses encaram o futuro e a hipótese de investirem no seu bem-estar antes e depois da reforma.

Nos últimos anos, a necessidade de um complemento de reforma tem estado no centro do debate. As projeções de várias entidades apontam que quem se reformar dentro de 15 ou 20 anos poderá vir a receber pouco mais de 38% do último salário bruto (hoje, a taxa de substituição situa-se nos 70%). Nesse momento, prevê-se que haja mais pessoas a receber pensões do que pessoas no ativo, aumentando de forma significativa a pressão sobre o financiamento das reformas.

"As pensões de reforma tenderão a ficar significativamente abaixo do último salário, sobretudo para pessoas que tiveram progressões relevantes de carreira“, refere o estudo, que indica que ”seis em cada dez portugueses fazem poupanças sobretudo centradas no curto prazo e não para complementar o rendimento na reforma".

"A crescente longevidade da população portuguesa não está a ser acompanhada por um planeamento individual estruturado para assegurar a qualidade de vida nos anos adicionais", sublinha o estudo do BPI Vida e Pensões.

"Na área do investimento financeiro, seis em cada dez portugueses poupam atualmente, mas sobretudo a pensar em imprevistos de curto prazo e não no complemento dos seus rendimentos na reforma", revela a mesma pesquisa, realizada entre março e maio de 2025.

Isabel Castelo Branco, CEO (presidente executiva) do BPI Vida e Pensões, enquadra o tema num contexto histórico mais amplo: "Estamos a viver um momento único na história, em que a expectativa de vida aumentou significativamente, permitindo-nos gozar tempo de qualidade". Porém, deixa um aviso: "não estamos mentalizados para preparar esse tempo, porque a sociedade de vidas longas é um fenómeno recente". E acrescenta: "Por isso, é importante tomar consciência de que há ações que estão no nosso controlo que nos podem ajudar a preparar esse futuro mais longo com maior qualidade de vida".

A presidente executiva do BPI Vida e Pensões não é parte desinteressada, uma vez que a empresa vende produtos de poupança e seguros, bem como complementos de reforma, incluindo PPR. Ainda assim, o diagnóstico apresentado é semelhante ao de entidades como a Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF).

A coordenação do estudo foi assegurada pela professora universitária e demógrafa Maria João Valente Rosa. Segundo o documento, os resultados "revelam uma visão geralmente positiva sobre o futuro, mas apelam a uma reflexão sobre a necessidade de um 'investimento' mais abrangente, que inclua não só a dimensão financeira, mas também a saúde, as relações sociais e os espaços de vida".

De acordo com o trabalho, os portugueses, embora "conscientes da sua maior longevidade e da necessidade de investir na saúde pessoal a longo prazo", “valorizam menos outros fatores importantes para o bem-estar, como as relações sociais ou o investimento nos espaços onde vivem”. E o alerta mantém-se: "A fragilidade do sistema de pensões e a tendência de a primeira pensão ser significativamente inferior ao último salário reforçam a urgência de uma preparação financeira atempada".

Saúde é mais valorizada do que investimento adicional para a reforma

Em média, os inquiridos esperam viver até aos 84 anos, algo que o estudo classifica como um "horizonte muito próximo da esperança de vida real". Ao mesmo tempo, os participantes no inquérito "antecipam uma deterioração da saúde por volta dos 66,5 anos, o que prolonga o período de vida dependente de pensões e poupanças acumuladas".

Ainda assim, "apenas 50,6% dos inquiridos admitem pensar regularmente no futuro a longo prazo, enquanto 67,3% consideram útil fazê-lo". Para o BPI Vida e Pensões, estes valores mostram "um desfasamento entre a perceção da importância do planeamento e a sua concretização".

Poupança para a reforma e PPR: hábitos e entraves

No que toca à preparação financeira da reforma, o estudo conclui que esta continua limitada: “permanece reduzida, com apenas 22,1% dos inquiridos a referirem possuir um Plano de Poupança Reforma (PPR)". O documento reforça ainda o perfil conservador observado, com poupanças aplicadas sobretudo "em instrumentos de baixo risco, como depósitos e produtos de capital garantido, com menor potencial de valorização ao longo do tempo".

O estudo identifica três perfis de comportamento quanto ao investimento no bem-estar: "22,2% assumem uma abordagem estruturada de investimento, 17,6% privilegiam o presente e 60,2% consideram que o melhor é conciliar as duas opções".

Entre os portugueses que dizem poupar, 63,3% indicam que esse fundo "destina-se sobretudo a fazer face a imprevistos e não a complementar o rendimento na reforma“. A principal razão apontada é clara: ”a falta de capacidade financeira surge como o principal obstáculo ao investimento no futuro".

O BPI Vida e Pensões sublinha, ainda assim, que mesmo valores reduzidos podem produzir um efeito multiplicador no longo prazo. Segundo cálculos da entidade, "uma poupança mensal de apenas 30 euros (360 euros anuais) investida em instrumentos com retornos médios de 5% (com mais risco) durante 40 anos, pode gerar um valor final 2,5 vezes superior face a instrumentos de baixo risco com um retorno médio de 1%". No exemplo apresentado, conclui-se que "a poupança pode chegar aos 46.149 euros, enquanto no segundo caso se fica pelos 18.140 euros".

No conjunto das prioridades, saúde e finanças surgem à frente dos outros dois eixos referidos no estudo - "relações sociais e espaços e ambientes onde se vive" -, mas as limitações acabam por esbarrar, frequentemente, na capacidade financeira.

Nos últimos anos, os seguros de saúde registaram um crescimento exponencial, associado aos constrangimentos na resposta do Serviço Nacional de Saúde (SNS). O estudo nota que "Mais de metade dos portugueses já adotou comportamentos de investimento em saúde, como alimentação e vida saudável (58,1%) e consultas médicas regulares (56%), evidenciando uma maior proatividade nesta área face às restantes dimensões".

"As projeções da Comissão Europeia apontam para um aumento do peso no PIB das despesas com pensões até um máximo de 15% do PIB em 2046, sendo expectável que a primeira pensão seja inferior ao último salário, sobretudo em carreiras contributivas mais recentes", lê-se também no documento.

Como foi feito o inquérito (Lisboa, Porto e Portugal Continental)

Para chegar a estas conclusões, o BPI Vida e Pensões realizou um estudo qualitativo com grupos de foco em Lisboa e Porto, envolvendo 54 participantes, em março de 2025. Em complemento, foi conduzido um estudo quantitativo com 802 entrevistas a residentes em Portugal Continental, realizado em maio de 2025.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário