O hantavírus voltou a dominar as notícias internacionais depois de um surto mortal a bordo do navio de cruzeiro MV Hondius, ao largo da costa da África Ocidental, ter provocado a morte de três passageiros.
Entidades de saúde pública em mais de uma dezena de países estão agora a identificar e a contactar viajantes potencialmente expostos, e a Organização Mundial da Saúde (OMS) emitiu um alerta internacional.
Perante este cenário, impõe-se a pergunta: afinal, o que é o hantavírus - e até que ponto devemos preocupar-nos?
Um vírus nascido da guerra
A família de vírus conhecida como hantavírus recebeu o nome do rio Hantan, na Coreia.
Durante a Guerra da Coreia, entre 1951 e 1954, cerca de 3,200 militares das Nações Unidas colocados perto do rio adoeceram com uma febre hemorrágica de origem desconhecida.
No pico do surto, a letalidade ultrapassou os 10 por cento entre os infetados.
Os médicos militares baptizaram a doença de “febre hemorrágica coreana”. Apesar de conseguirem descrever os sinais e sintomas com precisão, não tinham meios para determinar o agente causador.
Só 25 anos mais tarde o virologista sul-coreano Ho Wang Lee analisou ratos-do-campo capturados ao longo do rio Hantan e isolou o antigénio responsável. Em 1980, o novo agente patogénico foi designado vírus Hantaan.
Duas doenças, uma só família
Atualmente, os investigadores reconhecem dezenas de hantavírus distribuídos pela Ásia, Europa e Américas. Em regra, cada variante mantém-se associada a uma única espécie de roedor, que a transporta sem sinais evidentes de doença.
Em humanos, os hantavírus estão na origem de dois quadros clínicos distintos. As estirpes do “Velho Mundo”, presentes na Ásia e na Europa, podem causar febre hemorrágica com síndrome renal, afetando sobretudo os rins.
Já as estirpes do “Novo Mundo”, nas Américas, estão ligadas à síndrome pulmonar por hantavírus, em que os pulmões podem encher-se de líquido, com uma mortalidade que pode chegar aos 40 por cento.
O vírus Andes, identificado na Argentina e no Chile, integra este segundo grupo e distingue-se ainda por ser o único hantavírus conhecido com capacidade de transmissão de pessoa para pessoa.
Como as pessoas contraem o vírus
A passagem do hantavírus de roedores para humanos não acontece com facilidade. A maioria das infeções começa quando se inala poeira contaminada por urina, fezes ou saliva de um roedor infetado.
Quem corre maior risco inclui caminhantes que limpam cabanas, agricultores que lidam com grãos e militares a escavar trincheiras.
É frequente surgirem mais casos após épocas de muita chuva, quando as populações de roedores aumentam de forma acentuada.
O vírus Andes é uma exceção, porque pode propagar-se entre pessoas com contacto próximo e prolongado.
Ainda assim, esse tipo de transmissão continua a ser incomum e tende a limitar-se a familiares ou a profissionais de saúde.
Surto mortal num navio de cruzeiro
O MV Hondius partiu de Ushuaia, Argentina, em 1 de abril de 2026, depois de escalas na Antártida e de uma rotação rápida em porto. Poucas semanas mais tarde, alguns passageiros começaram a apresentar febre, vómitos e uma pneumonia de progressão rápida.
No início de maio, tinham morrido três pessoas - dois cidadãos neerlandeses e uma mulher alemã. Os doentes mais graves foram transportados de urgência para hospitais especializados em Amesterdão, Zurique e Joanesburgo.
A sequência genética apontou o vírus Andes como responsável. Investigadores da OMS concluíram que o caso índice foi um passageiro neerlandês que, antes de embarcar, tinha passado quatro meses a viajar pelo Chile, Uruguai e Argentina.
Até 8 de maio de 2026, as autoridades confirmaram seis casos na África do Sul, Suíça e Países Baixos, havendo ainda três sob suspeita.
Na Argentina, equipas no terreno estão a capturar roedores ao longo do trajeto do doente inicial, numa tentativa de identificar a origem do contágio.
Implicações para a saúde pública
A menos que viva numa zona onde o hantavírus é mais frequente ou que partilhe um espaço fechado com alguém em fase aguda de doença, não há motivo para alarme.
A OMS sublinha que o risco para a população em geral permanece baixo. O vírus Andes tem pouca eficiência na transmissão entre pessoas e, além disso, os hospitais atuais conseguem oferecer cuidados de suporte intensivos, o que melhora de forma significativa a sobrevivência.
Ainda assim, o episódio no Hondius ilustra como um vírus rural associado a roedores pode deslocar-se rapidamente à escala global.
Basta um passageiro infetado para ligar, em poucos dias, as pradarias remotas da América do Sul a uma cabine de navio de cruzeiro.
Riscos em mudança num mundo mais quente
As alterações climáticas estão a alargar a área de risco do hantavírus. Invernos mais amenos e verões mais húmidos favorecem o crescimento de roedores em regiões onde antes eram naturalmente controlados.
Uma análise recente concluiu que surtos de vírus de origem animal estão a deslocar-se de forma contínua para fora dos trópicos. O hantavírus, a leptospirose e outras infeções associadas a roedores fazem parte dessa tendência.
Cientistas que acompanham o aquecimento nas regiões polares alertam que o hantavírus está a surgir em locais que, historicamente, quase não o registavam.
Neste contexto, o que aconteceu no Hondius encaixa num padrão mais amplo de risco zoonótico, e não num acontecimento isolado.
Medidas práticas para viajantes
Os viajantes podem reduzir o risco com medidas simples: evitar dormir em cabanas com sinais de roedores, guardar alimentos em recipientes rígidos e arejar espaços fechados e poeirentos antes de iniciar a limpeza.
Quem tiver febre, dores musculares ou dificuldade em respirar até seis semanas depois de visitar uma região conhecida por casos de hantavírus deve procurar assistência médica de imediato. Tratar cedo pode ser determinante para salvar vidas.
O hantavírus entrou para a história científica nas trincheiras da Guerra da Coreia. Setenta anos depois, continua a lembrar que a fronteira entre a vida selvagem e a saúde humana nunca é tão distante quanto parece.
A atualização completa sobre este surto foi publicada pela Organização Mundial da Saúde.
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