Os suplementos alimentares vivem um verdadeiro auge: fórmulas para dormir melhor, reforçar as defesas ou emagrecer mais depressa ocupam lugares de destaque em farmácias, parafarmácias e lojas online. Muitas pessoas consomem-nos como se fossem rebuçados, frequentemente sem aconselhamento médico. Entretanto, dados recentes e relatos clínicos de vários países estão a gerar preocupação: certos produtos podem causar danos graves no fígado, no estômago e na pele - sobretudo quando são usados de forma incorrecta.
Promessas na prateleira: o que os suplementos alimentares podem dizer - e o que não podem
Do ponto de vista legal, os suplementos alimentares são considerados géneros alimentícios, não medicamentos. Por isso, não podem prometer curar nem prevenir doenças. Na rotulagem surgem frases como “contribui para o normal funcionamento do sistema imunitário” ou “apoia o metabolismo energético” - mais do que isto não é permitido por lei.
Ainda assim, é comum criar-se a ideia de que se trata de pequenos “milagres” em cápsulas. O mercado é enorme: produtos para a tosse, fórmulas com bactérias lácticas, soluções para o sono, a redução de peso, a pele bonita, o cabelo forte, articulações “reforçadas” ou mais energia. A oferta vai desde simples comprimidos de vitaminas até combinações complexas com extractos de plantas exóticas.
Suplementos alimentares destinam-se a complementar uma alimentação normal - não substituem um tratamento médico nem são um passe livre para hábitos de vida pouco saudáveis.
Antes de uma substância poder ser utilizada num suplemento alimentar na União Europeia, regra geral tem de existir um histórico plausível de consumo, entendido como um indício de segurança. Ainda assim, a responsabilidade de garantir que o produto final não é nocivo quando usado conforme indicado recai directamente sobre o fabricante.
Quando “natural” não é sinónimo de inofensivo: alertas sobre efeitos indesejáveis
Muitos suplementos incluem nutrientes em concentrações muito superiores às dos alimentos comuns. E aqui está um dos principais problemas: aquilo que, num tomate ou numa porção de espinafres, não levanta preocupações, em forma concentrada pode desencadear efeitos secundários.
Artigos científicos, incluindo publicações dos EUA, descrevem casos de lesão hepática grave associados a determinados suplementos alimentares - sobretudo em categorias como produtos para emagrecimento, fórmulas para ganho de massa muscular e “curas energéticas” à base de plantas. A causa exacta é muitas vezes difícil de identificar, já que estes produtos combinam inúmeros ingredientes.
Em alguns países existem registos específicos para reacções hepatotóxicas ligadas a medicamentos e suplementos. Na Alemanha, contudo, ainda não existe um registo central desse tipo. As notificações de suspeitas relacionadas com produtos “naturais”, incluindo suplementos alimentares, são reunidas através de um sistema destinado a produtos de origem vegetal.
O que mostram os dados de notificação - e o que não mostram
O que se observa nas notificações disponíveis é o seguinte: tendo em conta a enorme disseminação dos suplementos alimentares, os casos suspeitos registados não são extremamente frequentes, mas surgem em praticamente todas as categorias de produto. A maior fatia diz respeito a queixas gastrointestinais - como náuseas, diarreia e cólicas abdominais - e a reacções cutâneas, por exemplo erupções ou comichão.
Os casos com suspeita de lesão do fígado representam apenas uma pequena parte das reacções comunicadas. Ao mesmo tempo, há um ponto essencial: este tipo de sistema baseia-se sobretudo em notificações voluntárias de médicas/os, farmacêuticas/os e consumidoras/es. Muitas pessoas não fazem a ligação com o suplemento ou nem sequer procuram ajuda médica. Assim, a dimensão real do problema permanece pouco clara.
Vitaminas e minerais vs. extractos de plantas: uma diferença importante
Nem todos os suplementos alimentares apresentam o mesmo perfil de risco. De forma simplificada, especialistas agrupam-nos em duas grandes categorias:
- Produtos com vitaminas e minerais - como vitamina D, magnésio, zinco ou multivitamínicos.
- Produtos com substâncias vegetais (botanicals) - por exemplo curcuma, extracto de chá verde, Garcinia cambogia, ashwagandha ou misturas de várias ervas.
No caso das vitaminas e dos minerais, existem na UE limites mínimos e máximos relativamente claros. A sua composição pode ser determinada quimicamente com precisão e a dosagem é mais controlável. Os problemas surgem sobretudo quando se tomam vários produtos ao mesmo tempo, levando a ultrapassar largamente a dose diária recomendada.
Com os produtos de origem vegetal, a situação é mais complexa. Um extracto pode conter dezenas ou centenas de compostos diferentes. E as proporções variam consoante:
- região de cultivo e características do solo
- condições meteorológicas e momento da colheita
- método de secagem e armazenamento
- técnica de extracção utilizada (água, álcool, outros solventes)
Pequenas diferenças podem alterar de forma relevante a concentração das substâncias activas. Isso torna mais difícil antecipar efeitos indesejáveis, sobretudo quando há toma simultânea de medicamentos.
Plantas frequentemente associadas a problemas: curcuma, Garcinia, ashwagandha
Nos últimos anos, vários países - incluindo regiões de língua alemã - assinalaram efeitos indesejáveis ligados a determinados extractos vegetais. Entre os mais mencionados estão:
- Curcuma: muito procurada para inflamações e queixas digestivas. Em extractos altamente concentrados, houve relatos pontuais de lesão hepática.
- Garcinia cambogia: promovida como ajuda para emagrecer. Existem descrições de problemas no fígado após a toma de certos produtos.
- Ashwagandha: um produto “da moda” vindo da medicina ayurvédica, muitas vezes vendido para stress e perturbações do sono. Também aqui há notificações de efeitos adversos.
Em alguns episódios foi possível estabelecer uma ligação clara entre o produto específico e a doença. Em muitos outros, os mecanismos mantêm-se incertos. Vários factores podem coincidir: susceptibilidade individual, doses demasiado elevadas, contaminações durante o fabrico ou interacções com outros produtos.
“Natural” não significa automaticamente “suave”. Também as plantas podem ter efeitos farmacológicos fortes - incluindo efeitos secundários graves.
Como a sobredosagem e as combinações aumentam o risco
Um dos maiores problemas é a falta de espírito crítico em relação à dosagem. Muitas pessoas seguem a lógica de que “mais é melhor” e acabam por exceder - de forma consciente ou não - a dose diária indicada. A isto junta-se a tendência de combinar vários produtos: um multivitamínico, mais vitamina D, um suplemento de magnésio, um “reforço imunitário” e ainda um produto para dormir com melatonina e extractos vegetais.
As consequências possíveis incluem:
- Sobredosagem cumulativa do mesmo nutriente a partir de fontes diferentes (por exemplo, excesso de vitamina A ou de zinco).
- Interacções entre diferentes substâncias vegetais.
- Interacções com medicamentos, como anticoagulantes, terapêutica tiroideia ou psicofármacos.
Acresce que algumas pessoas, por particularidades genéticas, reagem com maior sensibilidade a certos compostos. Para elas, uma dose tolerável para outras pode já ser problemática.
Seis regras para proteger melhor as/os consumidoras/es
Quem, apesar dos riscos, optar por usar suplementos alimentares deve ter em conta algumas regras essenciais:
- Perguntar à médica ou ao médico, sobretudo em uso prolongado, na presença de doenças prévias ou quando se tomam medicamentos de forma regular.
- Escolher apenas um produto por necessidade, em vez de vários suplementos semelhantes em simultâneo.
- Respeitar a dose indicada na embalagem e nunca aumentá-la por iniciativa própria.
- Limitar a duração e planear pausas, em vez de tomar o mesmo produto durante meses sem orientação.
- Preferir canais de compra credíveis: farmácias, farmácias online autorizadas e vendedores estabelecidos.
- Ter cautela com compras no estrangeiro através de lojas online anónimas ou marketplaces de origem pouco clara.
Ajudam especialmente os produtos em que a quantidade de substâncias activas é apresentada de forma clara. Essa transparência nem sempre é obrigatória, mas facilita muito uma avaliação realista.
Como perceber se um suplemento é mesmo necessário?
Muitas carências podem ser corrigidas com medidas simples na alimentação: mais legumes e fruta, cereais integrais, leguminosas, frutos secos, óleos vegetais de qualidade e peixe. Ainda assim, em determinadas situações, um suplemento dirigido pode fazer sentido, por exemplo:
- ácido fólico para mulheres a planear engravidar (por recomendação médica)
- vitamina D no inverno quando existe défice comprovado
- vitamina B12 para pessoas com alimentação estritamente vegana
Uma análise ao sangue ou uma conversa detalhada na consulta dá indicações muito melhores sobre necessidades reais do que promessas publicitárias nas redes sociais. E não existe, de facto, um produto “para tudo”.
Termos típicos, explicados de forma breve
Suplementos alimentares
Fontes concentradas de nutrientes ou de outras substâncias com efeito nutricional ou fisiológico. São disponibilizados em forma doseada, por exemplo cápsulas, comprimidos, pó ou líquidos em frascos.
Botanicals
Termo técnico em inglês para substâncias e extractos vegetais usados em suplementos alimentares ou em medicamentos à base de plantas. A composição é frequentemente complexa e variável.
Lesão hepática por substâncias externas
As/os médicas/os falam em reacções hepatotóxicas quando o fígado é afectado por medicamentos, produtos de origem vegetal ou outras substâncias externas. O espectro vai desde aumentos ligeiros e transitórios das enzimas hepáticas até inflamações graves.
Porque é tão importante notificar efeitos adversos
Quem notar queixas após tomar um suplemento alimentar - como náuseas intensas, cansaço fora do habitual, coloração amarelada da pele ou comichão persistente - deve procurar rapidamente aconselhamento médico e referir o produto. Profissionais de saúde podem encaminhar suspeitas para as entidades competentes.
Estas notificações ajudam as autoridades a identificar mais depressa produtos de risco, emitir alertas ou, em casos extremos, retirar suplementos do mercado. Também aumentam a exigência sobre os fabricantes, para que formulem e controlem melhor os seus produtos.
No fim, mantém-se a ideia central: uma alimentação equilibrada, sono suficiente, actividade física e expectativas realistas trazem, em geral, muito mais benefícios para a saúde do que recorrer sem critério à próxima “cápsula milagrosa” comprada na internet.
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