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Estudos internacionais ligam homens a maiores emissões na crise climática

Homem jovem com bicicleta parado numa zona urbana, segurando a chave, com carros e indústria ao fundo.

Há anos que investigadores vêm a registar um padrão intrigante no comportamento face ao clima.

Produtos promovidos como amigos do ambiente - como sacos reutilizáveis, alimentação de base vegetal e veículos eléctricos - tendem, de forma consistente, a ser percepcionados como mais femininos do que masculinos.

Um novo conjunto internacional de estudos defende, porém, que esta tendência vai muito para além de estereótipos de consumo.

Da mobilidade e da dieta à liderança empresarial e ao negacionismo climático, a investigação indica que os homens - sobretudo homens com mais recursos em sectores de elevadas emissões - continuam desproporcionalmente associados a práticas que alimentam a crise climática.

Olhar mais fundo para as emissões

O trabalho foi publicado num número especial com revisão por pares, editado por Jeff Hearn, professor de sociologia na University of Huddersfield.

Ao longo de 11 artigos, 22 investigadores de 13 países reuniram evidência que vai desde a política de oleodutos no Canadá a influenciadores pró-carne na Finlândia, passando por activistas climáticos homens em África.

A conclusão em destaque é directa: em quase todos os indicadores - emissões, atitudes, padrões de voto e até os sectores profissionais escolhidos para construir carreira - os homens surgem como mais prejudiciais para o planeta do que as mulheres.

“O que é espantoso é como este aspecto não entra na maior parte do debate e das políticas para um mundo mais sustentável”, afirmou Hearn.

Os homens deixam pegadas climáticas maiores

A diferença na pegada de carbono revela-se significativa. Um estudo de 2025, que acompanhou 15.000 pessoas em França, concluiu que as mulheres emitem cerca de um quarto menos carbono do que os homens apenas através das suas escolhas de alimentação e de deslocações.

Dois elementos explicam grande parte do efeito: a carne vermelha e o automóvel. No estudo, os homens emitiram aproximadamente 5,8 toneladas de carbono por ano provenientes de alimentação e transporte. As mulheres, por sua vez, emitiram cerca de 4,3 toneladas.

Este padrão não se limita a França. Nos estudos reunidos no número especial, os homens, em média, deslocam-se mais, voam mais, conduzem veículos maiores e consomem mais carne vermelha por pessoa do que as mulheres.

Menos preocupação, mais negação

A segunda diferença prende-se com as atitudes. Os homens declaram menos preocupação com as alterações climáticas e mostram menor disponibilidade para alterar hábitos do dia-a-dia.

Num inquérito isolado, a discrepância pode parecer pequena - mas, quando se sobrepõem muitos resultados, torna-se difícil ignorá-la.

A faceta mais dura deste padrão é o negacionismo climático. Um estudo sueco com cerca de 2.500 adultos verificou que os homens que sentiam a sua masculinidade ameaçada tinham uma probabilidade significativamente maior de rejeitar a ciência do clima.

Os resultados apontam para uma ligação entre identidade e negação, embora os investigadores não tenham certezas sobre o que desencadeia o quê.

Alguns académicos dão um nome a esta dinâmica: petro-masculinidade. Os combustíveis fósseis, os motores de grande cilindrada e a carne vermelha ocupam o centro de um tipo específico de auto-imagem masculina, e a política ambiental é lida como um desafio a essa identidade.

Os homens que dirigem a indústria

Os hábitos individuais são apenas uma parte da história. O número especial dedica bastante atenção a quem controla os próprios sistemas de maior impacto.

Os homens ocupam a maioria dos cargos de topo no petróleo, no gás, na mineração e na indústria pesada. Uma revisão de 2022 sobre género e instituições climáticas concluiu que o mesmo padrão se estende aos conselhos de administração de empresas de combustíveis fósseis.

Também dominam funções superiores na área da defesa e constituem a maioria dos negociadores enviados para cimeiras do clima.

Decisões como que oleoduto se constrói, que central eléctrica continua a funcionar e que cultura agrícola recebe subsídios são tomadas, de forma desproporcionada, por homens.

Os maiores responsáveis pela crise climática

Há um fio condutor constante na investigação: estes padrões nocivos não estão distribuídos de modo uniforme pela metade masculina da população.

Eles concentram-se num grupo específico - homens ricos, na sua maioria brancos, no Norte Global.

Um agricultor da classe trabalhadora numa zona rural do Quénia não é o alvo do problema descrito pelos autores. O foco está nas administrações de topo, nos corredores do lóbi, nos jactos privados e no partido político cuja plataforma assenta na gasolina barata.

Muito disto remonta à extracção colonial - apropriação de terras e exploração laboral muito anteriores à conversa sobre o clima, mas que continuam a alimentá-la.

Homens a impulsionar outro caminho climático

Nem tudo no número especial é crítica. Uma segunda linha de investigação centra-se em homens que trabalham activamente no sentido oposto.

Os autores descrevem um corpo de estudos sobre masculinidades ecológicas - formas de identidade masculina que não dependem da dominância sobre a natureza ou sobre outras pessoas.

Estes modelos constroem-se através da agricultura, do activismo, da parentalidade e da política.

Entre os exemplos reunidos estão activistas climáticos homens na América Latina e em África, cooperativas de horticultura na Colômbia e pais no Reino Unido a reorganizar o trabalho de cuidados em casa.

O argumento não é que os homens sejam inerentemente destrutivos. É que um modelo dominante de masculinidade o é - e que já existem outras alternativas.

Trata-se de uma revisão da investigação existente, não de uma nova experiência. Os estudos analisados inclinam-se para países mais ricos, onde os padrões podem apresentar-se de outra forma. Além disso, os homens diferem muito entre si; as conclusões descrevem tendências, não comportamentos universais.

O que falta na agenda

A principal contribuição do número especial não é um único novo indicador. É uma síntese - a ideia de que o padrão de género no comportamento climático está hoje suficientemente bem sustentado para que as políticas públicas não o possam ignorar.

As implicações são práticas. Uma comunicação climática centrada no dever cívico ou na eficiência técnica pode continuar a ter fraco desempenho junto do grupo demográfico mais ligado às emissões.

Abordagens orientadas e que levem a identidade masculina a sério, em vez de a contornar, tornaram-se uma prioridade de investigação. O mesmo acontece com a questão de como afastar homens da elite de comportamentos de elevado impacto que tratam como norma.

Durante décadas, a política climática tem olhado sobretudo para países e empresas. A próxima década poderá ter de se concentrar em quem, dentro dessas instituições, está de facto ao volante.

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