Durante muito tempo, as tabuletas limitaram-se a estar ali. Pequenos fragmentos de argila, empoeirados, empilhados em gavetas de museu, cada um coberto por minúsculos sinais em forma de cunha. Pareciam silenciosos, quase esquecidos.
Só que essas marcas guardavam vozes de há mais de 4.000 anos. E hoje, graças a um trabalho minucioso, essas vozes voltam finalmente a ser ouvidas.
As tabuletas vêm de algumas das cidades mais antigas do que é actualmente o Iraque e a Síria. Há cerca de 5.200 anos, as pessoas começaram a pressionar sinais em argila ainda húmida para registarem as suas ideias.
Esse gesto simples ajudou a erguer sociedades complexas. Abriu caminho a sistemas de comércio, de leis e de governo. A escrita mudou tudo - e estas tabuletas fazem parte dessa história.
Histórias escondidas vêm à tona
Durante mais de um século, o Museu Nacional foi reunindo estas tabuletas sem as estudar a fundo. Essa realidade mudou quando uma equipa de investigadores decidiu olhar para a colecção com outra atenção.
Os especialistas passaram por todo o acervo, peça a peça, identificando, analisando e digitalizando cada fragmento no âmbito de um projecto chamado Tesouros Escondidos: a Colecção Cuneiforme do Museu Nacional.
Assim que começaram a decifrar os textos, ficaram surpreendidos com a diversidade do conteúdo. Havia tabuletas com cartas. Outras apresentavam listas de mercadorias e de trabalhadores. Algumas descreviam tratamentos médicos. E outras ainda avançavam para temas como magia e rituais.
O assiriólogo Troels Pank Arbøll, que participou no projecto, foi essencial para trazer estes textos para primeiro plano. O seu trabalho mostrou até que ponto estes registos são variados - e profundamente humanos.
Um ritual que durava a noite inteira contra o perigo
Um conjunto de tabuletas oriundas da antiga cidade síria de Hama destacou-se desde cedo.
“Os textos da colecção que têm origem em Hama têm quase 3.000 anos e tratam de tratamentos médicos e de encantamentos mágicos”, disse Arbøll.
“Tinham sido deixados para trás nos restos do que acreditamos ter sido uma grande biblioteca de templo. Todos os outros textos tinham desaparecido.”
Uma tabuleta, em particular, chamou a atenção. Nela descrevia-se um ritual contra feitiçaria. Não era uma prática pequena nem casual: prolongava-se por toda a noite e incluía a queima de pequenas figuras feitas de cera e de argila. Ao longo do ritual, um exorcista recitava encantamentos fixos.
“Uma das tabuletas de argila acabou por conter um chamado ritual anti-feitiçaria, que era de enorme importância para a autoridade real na Assíria, porque tinha a notável capacidade de afastar desgraças - como a instabilidade política - que pudessem cair sobre um rei”, disse Arbøll.
O que torna esta descoberta ainda mais relevante é o local onde surgiu. Hama ficava longe da capital assíria e de grandes centros culturais, como a Babilónia.
Encontrar ali um texto deste tipo levanta questões sobre a forma como ideias e práticas circulavam entre regiões.
Reis, mitos e um nome familiar
Nem todas as tabuletas abordam magia. Algumas centram-se no poder e na liderança. Entre as descobertas está uma cópia de uma conhecida lista régia. Este tipo de documento regista nomes de reis, tanto reais como lendários.
A lista recua até a um tempo anterior à narrativa de Noé e do Dilúvio. Mistura história com mito, algo comum nos registos da Antiguidade.
A versão encontrada no museu parece ter servido como texto escolar, provavelmente usado por estudantes que estavam a aprender a escrever.
“Isso faz desta lista régia uma das poucas relíquias que temos e que sugere que Gilgamesh pode ter realmente existido. Não fazíamos ideia de que tínhamos aqui na Dinamarca uma cópia dessa lista. É verdadeiramente espectacular”, disse Arbøll.
Gilgamesh é um nome que muita gente reconhece da literatura antiga. Vê-lo surgir num documento deste género acrescenta mais uma camada à história dos primeiros governantes e à forma como foram lembrados.
Vida quotidiana, escrita em argila
Algumas das tabuletas mais esclarecedoras provêm de um local chamado Tell Shemshara, no norte do Iraque. Datam de cerca de 1800 a.C. e incluem cartas trocadas entre um chefe local e um rei assírio, além de registos administrativos.
Estes documentos deixam claro até que ponto essas sociedades se tinham organizado. Os líderes comunicavam a longas distâncias. Os funcionários acompanhavam mercadorias, trabalhadores e provisões. A escrita tornou possível administrar cidades em crescimento e sistemas cada vez mais complexos.
“Um grande número das tabuletas cuneiformes que temos hoje dá testemunho de uma burocracia altamente desenvolvida”, disse Arbøll.
“Havia a necessidade de acompanhar as sociedades avançadas que estavam a ser construídas, e encontrámos um grande número de tabuletas cuneiformes com informação prática, como contas e listas de mercadorias e de pessoal.”
“Por isso, não é surpreendente que uma das tabuletas da colecção do Museu Nacional contenha algo tão comum como um recibo muito antigo de cerveja.”
Esse pormenor sobressai. Um recibo de cerveja pode parecer banal, mas cria uma ligação simples entre passado e presente: as pessoas registavam as suas compras, tal como fazemos hoje.
Porque é que estas tabuletas importam agora
Estas tabuletas de argila são mais do que artefactos. Mostram como as pessoas viviam, governavam e tentavam compreender o mundo há milhares de anos. Algumas recorriam a rituais para proteger os seus líderes. Outras mantinham registos rigorosos para organizar o quotidiano.
O que se destaca é o quanto muitas dessas preocupações nos soam familiares. Poder, saúde, comunicação e até transacções simples aparecem nestes textos. As ferramentas mudaram, mas as necessidades mantiveram-se muito semelhantes.
Durante anos, estas tabuletas permaneceram silenciosas. Agora, voltam a contar histórias - linha a linha.
Crédito da imagem: Troels Pank Arbøll
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