As joaninhas são, para muita gente, os insetos mais queridos: as crianças adoram-nas, os jardineiros também, e em inúmeras famílias representam um símbolo de sorte. O que quase ninguém imagina é que, por trás das élitras vermelhas com pintas pretas, há tácticas de sobrevivência, substâncias tóxicas, migrações e comportamentos que lembram mais um filme de acção do que um motivo de livro infantil.
Cores que enganam: as joaninhas não são sempre vermelhas
Na ideia de muita gente, uma joaninha é sempre vermelho-vivo com pintas pretas. Mas, ao ar livre, a paleta é bem mais variada. Existem espécies amarelas, alaranjadas, castanhas, pretas, com manchas brancas e até com tonalidades rosadas.
Os investigadores descrevem mais de 5.000 espécies de joaninhas em todo o mundo, cada uma com o seu desenho próprio. Um exemplo clássico é a joaninha-de-duas-pintas, muitas vezes vermelha com duas pintas. Já a espécie harlequim, introduzida a partir da Ásia, pode apresentar padrões muito diferentes: desde quase toda preta com poucas marcas claras até laranja com muitas pintas.
As cores chamativas não servem para enfeitar - avisam: “Eu sei mal, come antes outra coisa.”
Esta chamada coloração de aviso funciona como protecção contra aves e outros predadores. Em geral, quanto mais contrastante é o escaravelho, mais depressa os inimigos aprendem que este “petisco” pode correr mal - literalmente.
Defesa tóxica: quando a joaninha “sangra”
Quem já segurou uma joaninha na mão pode ter visto isto acontecer: de repente, surge um líquido amarelado nas articulações das patas. Parece sangue, mas é uma resposta defensiva deliberada.
Esse líquido contém alcaloides tóxicos. Tem um cheiro intenso, um sabor amargo e consegue afastar predadores de forma duradoura. As aves memorizam rapidamente este tipo de experiência - e, a partir daí, a joaninha pintada aparece muito menos no menu.
Quão forte é este “veneno”
Para os seres humanos, o fluido defensivo é, regra geral, inofensivo, podendo no máximo causar uma ligeira irritação na pele. Já para pequenos caçadores, como aranhas, carabídeos (escaravelhos de corrida) ou mesmo ratos, a substância pode ser problemática. Ensaios em laboratório indicam que muitos predadores passam a evitar joaninhas de forma permanente depois de um único contacto.
Numa limpeza implacável: joaninhas devoram pulgões
Por detrás do aspecto simpático esconde-se um apetite impressionante. Uma única fêmea adulta consegue comer, num dia, até 50 pulgões. A larva, que precisa de crescer rapidamente, muitas vezes consome ainda mais.
Entre as presas mais frequentes contam-se:
- pulgões de vários tipos
- ácaros-aranha
- cochonilhas-farinhentas e cochonilhas
- ocasionalmente, ovos de outros insectos
Para a agricultura, isto é uma excelente notícia. Em estufas e em campos de cultivo, algumas explorações recorrem intencionalmente a joaninhas para baixar a pressão de pragas e limitar o uso de pesticidas. E, no jardim de casa, quem evita venenos costuma atrair estes escaravelhos quase sem esforço.
Porque é que os jardineiros as adoram
Um roseiral muito atacado pode ficar visivelmente aliviado em poucos dias quando uma família de joaninhas “entra em acção”. Sobretudo na agricultura biológica, estes predadores pintados são considerados aliados importantes, porque contribuem para restaurar e manter um equilíbrio natural.
Mini-migradoras: algumas joaninhas percorrem centenas de quilómetros
Apesar do tamanho reduzido, certas espécies têm uma capacidade de deslocação notável. A espécie harlequim, oriunda da Ásia, é particularmente conhecida por voos em massa no outono. O que desencadeia estes movimentos costuma ser a descida das temperaturas ou a falta de alimento.
Na América do Norte, investigadores observaram migrações de várias centenas de quilómetros, das planícies em direcção a zonas montanhosas. Aí, as joaninhas passam o inverno em fendas rochosas protegidas - ou, por vezes, em habitações humanas.
Porque aparecem de repente às centenas dentro de casa
Cenário típico de outono: um dia de sol e, de um momento para o outro, dezenas de joaninhas ficam na fachada ou acumulam-se nos caixilhos das janelas. Muitas seguem pontos de orientação no terreno e procuram paredes quentes e bem iluminadas. Depois, em sótãos ou atrás de caixas de estores, formam grandes agrupamentos para passar o inverno.
Comunicação por cheiro: sinais invisíveis
As joaninhas não fazem barulho, mas também não são “silenciosas”. Comunicam através de substâncias odoríferas, os chamados feromonas. Com elas, podem assinalar uma boa fonte de alimento ou atrair um parceiro.
Para a investigação, há aqui um detalhe interessante: estes odores podem ser produzidos artificialmente em laboratório. Algumas empresas agrícolas já testam armadilhas e sistemas capazes de atrair joaninhas para áreas específicas, com o objectivo de reduzir populações de pulgões nesses locais.
Surpreendentemente longevas para um insecto
Muitos insectos vivem apenas algumas semanas. As joaninhas, em comparação, chegam frequentemente a um ano ou mais. Em condições favoráveis, alguns indivíduos conseguem até sobreviver a três invernos.
O que determina a sua longevidade
Vários factores actuam em conjunto:
| Factor | Impacto na longevidade |
|---|---|
| Disponibilidade de alimento | Mais presas = melhores reservas para o inverno |
| Abrigo de inverno | Seco e protegido do gelo aumenta as hipóteses de sobrevivência |
| Predadores | Aves, aranhas e formigas reduzem as populações |
| Uso de pesticidas | Diminui tanto as presas como as próprias joaninhas |
No inverno, as joaninhas entram numa espécie de letargia causada pelo frio. Nessa fase, gastam muito pouca energia e aguardam por dias com temperaturas estáveis e mais amenas para voltarem à actividade.
Amuleto de sorte com tradição antiga
A fama de “mensageiras da sorte” não surgiu por acaso. Já na Idade Média, os agricultores se alegravam quando viam muitas joaninhas a sobrevoar os campos - as colheitas costumavam ser melhores, porque os pulgões eram mantidos sob controlo.
Dessa crença nasceram muitos costumes. Em várias regiões, persiste a ideia de que, se uma joaninha pousar na mão, não se deve sacudi-la: é melhor deixá-la levantar voo sozinha, pois isso seria um bom presságio.
O lado sombrio: quando as joaninhas se comem umas às outras
Apesar do ar pacífico, em tempos difíceis as joaninhas não têm grande espaço para sentimentalismos. As larvas, em particular, podem não poupar ovos - e nem mesmo irmãos - quando a comida escasseia.
Este canibalismo aparece sobretudo em situações de carência, como falta acentuada de pulgões ou sobrelotação extrema. Assim, os indivíduos mais fortes conseguem sobreviver e, mais tarde, assegurar a reprodução. Para o conjunto da população, parece cruel, mas acaba por ter um efeito estabilizador.
Mudança de cor com a idade
Quem observar uma fêmea recém-eclodida vê, muitas vezes, um insecto pálido, amarelado e quase sem pintas. Só ao fim de algumas horas ou dias é que as élitras endurecem e os pigmentos se fixam.
Com o tempo, a joaninha escurece e as pintas tornam-se mais definidas. Temperatura, humidade e alimentação influenciam a intensidade final da coloração. Em regiões mais frias, encontram-se com maior frequência variantes mais escuras, que retêm melhor o calor do sol.
Joaninhas no laboratório: insetos pequenos, grandes descobertas
Como se reproduzem depressa, apresentam variações de cor fáceis de distinguir e são simples de manter, as joaninhas são muito usadas em projectos científicos. Biólogos estudam com elas, por exemplo:
- como predadores e presas se influenciam mutuamente
- como cores e padrões são herdados geneticamente
- que efeitos as alterações climáticas têm nos insectos
- como espécies invasoras afectam joaninhas autóctones
Um caso conhecido é o da joaninha-harlequim, que se tem expandido fortemente na Europa e desloca espécies nativas. Através dela, é possível acompanhar como os ecossistemas podem ser sensíveis à entrada de novas espécies.
Dicas práticas: como ajudar joaninhas no seu jardim
Quem quiser apoiar estes auxiliares pintados pode fazer muito com pequenos gestos:
- evitar pesticidas químicos ou reduzir o seu uso ao mínimo
- criar faixas floridas, canteiros de ervas aromáticas e áreas de flores silvestres
- deixar montes de folhas e cantos com estrutura durante o inverno
- não “esterilizar” peitoris e floreiras de varanda com limpezas excessivas
Em troca, as joaninhas controlam muitas vezes infestações de pulgões por conta própria. Para quem tem crianças, pode ser uma actividade procurá-las propositadamente - por exemplo, em roseiras, feijoeiros ou urtigas. Nesses locais é comum encontrar tanto larvas como adultos.
O que muitos confundem: praga ou auxiliar?
A questão interessante é em que momento uma espécie útil pode ela própria tornar-se um problema. Quando uma espécie invasora de joaninha se multiplica em massa e afasta as espécies autóctones, a percepção muda. De repente, os “pequenos ajudantes” entram na mira, porque empurram joaninhas nativas para fora dos seus habitats.
Para jardineiros amadores, vale a pena observar com atenção: nem todo o escaravelho colorido e pintado é automaticamente inofensivo, mas, na maioria dos casos, jardim e varanda beneficiam claramente da sua presença. E quem já viu uma larva de joaninha agarrar um pulgão atrás do outro percebe rapidamente porque este insecto tão simpático é uma estrela discreta do controlo biológico de pragas.
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