Nas nossas pesquisas nas colecções medievais da Biblioteca Britânica, encontrámos um documento que tinha passado despercebido e que traz novas pistas sobre quem sobreviveu ao surto de peste conhecido como Peste Negra (1346–53).
Trata-se de um fragmento de pergaminho, inserido num registo de contas do solar de Warboys, pertencente à Abadia de Ramsey, em Huntingdonshire. Nele fica registado quanto tempo os camponeses deixaram de trabalhar quando foram abatidos pela peste.
O mesmo fragmento também indica os nomes de pessoas que resistiram à doença e o período de recuperação que os seus empregadores consideravam plausível.
Num artigo recente escrito com Barney Sloane, apresentámos uma leitura renovada deste conjunto de dados: um grupo de 22 rendeiros que, muito provavelmente, contraiu peste, permaneceu acamado durante várias semanas e, por fim, recuperou.
Como uma das pandemias mais mortíferas da história registada, estima-se que entre um terço e dois terços da população da Europa medieval tenha morrido durante a Peste Negra.
Perante números tão esmagadores, muitos historiadores concentraram esforços em apurar o que se pode saber sobre os que morreram. Em contrapartida, as trajectórias de quem adoeceu e conseguiu recuperar ficaram, em grande medida, por contar.
O que as fontes medievais diziam sobre sobreviver à Peste Negra
Apesar da letalidade da doença, era possível sobreviver à peste, e alguns cronistas medievais admitiam essa hipótese - por improvável que fosse. Geoffrey le Baker, clérigo de Swinbrook, em Oxfordshire, escreveu na década seguinte que, no seu entender, a recuperação dependia dos sintomas apresentados:
"Pessoas que num dia estavam cheias de felicidade, no seguinte eram encontradas mortas. Algumas eram atormentadas por bubões que irrompiam de repente em várias partes do corpo, e eram tão duros e secos que, quando eram lancetados, mal saía qualquer líquido. Muitas destas pessoas escapavam, por se lancetarem os bubões ou por longo sofrimento. Outras vítimas tinham pequenas pústulas negras espalhadas pela pele de todo o corpo. Dessas pessoas, muito poucas - na verdade, quase nenhuma - recuperavam a vida e a saúde."
Mas quem é que recuperava? Porque é que tantos sucumbiam à doença enquanto outros sobreviviam? E, afinal, quanto tempo durava esse "longo sofrimento"?
Infelizmente, existe muito pouca documentação que permita responder, porque a maioria das fontes medievais regista sobretudo mortalidade e não períodos de doença.
Lista única de sobreviventes da peste
No registo de contas do solar de Warboys, uma inclusão invulgar descreve um conjunto de pessoas que adoeceu entre o final de Abril e o início de Agosto de 1349.
Os monges da Abadia de Ramsey elaboraram uma lista de rendeiros que ficaram doentes ao ponto de não conseguirem trabalhar nas terras do senhor, anotando também a duração da ausência.
O documento deixa claro que a peste não afectou todos da mesma forma.
A recuperação mais rápida foi a de Henry Broun, que faltou apenas uma semana ao trabalho. Já John Derworth e Agnes Mold atravessaram doenças bem mais prolongadas e estiveram ambos ausentes durante nove semanas.
Em média, a doença durou entre três e quatro semanas, e três quartos das pessoas regressaram ao trabalho em menos de um mês. A rapidez destas recuperações é ainda mais surpreendente tendo em conta que havia direito a até um ano e um dia de dispensa por doença.
A lista de sobreviventes mostra também uma predominância de rendeiros com explorações maiores dentro do solar.
Há muito que historiadores e arqueólogos debatem se a peste matou de forma indiscriminada - sem atender a estatuto, sexo ou idade - ou se, pelo contrário, os mais pobres e os mais idosos eram mais vulneráveis.
O facto de tantos rendeiros mais abastados terem sobrevivido pode sugerir que melhores condições de vida lhes permitiram recuperar com maior facilidade do que os vizinhos mais pobres, talvez por conseguirem evitar infecções secundárias e complicações.
Não devemos atribuir significado ao facto de 19 das 22 pessoas serem homens: isto reflecte antes o enviesamento de género associado à posse de terras em contexto senhorial do que qualquer selectividade da peste em função do sexo.
O que estas ausências revelam sobre trabalho e sociedade
Embora 22 pessoas possam não parecer muitas, num ano normal da década de 1340 registavam-se, durante os meses de Verão, apenas duas ou três ausências. Ou seja, trata-se de um aumento de dez vezes face ao padrão habitual de doenças no solar.
Visto de outro modo, estes rendeiros doentes representaram 91 semanas de serviços de trabalho em falta ao longo de apenas um período de 13 semanas.
A nossa compreensão do impacto da Peste Negra tem sido moldada pela escala terrível da mortalidade. No entanto, só quando voltamos a incluir no quadro os que adoeceram e recuperaram é que conseguimos perceber, com maior fidelidade, o choque sísmico que a pandemia provocou na sociedade.
Nas aldeias e nas cidades por toda a Europa, os mortos, os moribundos e os doentes terão excedido largamente os vivos.
As consequências aparecem em relatos e crónicas medievais, incluindo uma que registou que "havia tão grande falta de servos e trabalhadores que não havia quem soubesse o que era preciso fazer".
Como resultado da combinação de mortalidade elevada, doença sem precedentes e tempo deplorável, as duas colheitas de 1349 e 1350 foram descritas como as piores vividas na Inglaterra medieval, piores até do que as que estiveram na origem da grande fome de 1315-17.
Sintomas, resistência e regresso ao trabalho
Esta descoberta em arquivo permite reinscrever a história da doença e da recuperação na narrativa da Peste Negra, mostrando que a sobrevivência era possível mesmo durante uma das piores pandemias da história registada.
A nova evidência põe em destaque a notável resiliência dos camponeses medievais.
Muitos permaneceram prostrados durante semanas, acamados, com bubões (os gânglios linfáticos dolorosos, inchados e inflamados na virilha e no pescoço, típicos da Peste Negra), a vomitar sangue e assolados por febres e, ainda assim, não só sobreviveram como voltaram ao trabalho em poucas semanas.
Alex Brown, Professor Associado de História Medieval, Universidade de Durham, e Grace Owen, Investigadora Pós-Doutorada (História do Final da Idade Média), Universidade de Durham
Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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