A exposição ambiental aos chamados “químicos eternos” parece, muitas vezes, um assunto longínquo - algo associado a rios contaminados ou a zonas industriais. No entanto, investigações recentes apontam para uma realidade bem mais próxima.
Muitas das substâncias hoje debatidas nas ciências do ambiente já se encontram dentro do corpo humano.
Um novo estudo, de grande dimensão, ajuda agora a perceber com mais nitidez como é, na prática, a exposição a químicos eternos e põe em causa a forma como cientistas e médicos encaram o risco.
O que são os químicos eternos?
As substâncias perfluoroalquílicas e polifluoroalquílicas, conhecidas como PFAS, constituem um vasto grupo de químicos sintéticos utilizados desde a década de 1940.
A indústria recorre a estas substâncias em produtos que precisam de resistir ao calor, ao óleo e à água. Por isso, estão presentes em utensílios antiaderentes, embalagens alimentares e tecidos impermeáveis.
O problema nasce precisamente da sua resistência. Estes químicos eternos degradam-se com dificuldade e permanecem no solo, na água e nos organismos vivos.
Com o passar do tempo, acumulam-se no organismo humano. Estimativas de estudos indicam que quase todas as pessoas, a nível mundial, têm algum nível de PFAS no sangue.
Um olhar mais atento sobre a exposição
Um estudo recente avaliou 10,566 amostras de sangue recolhidas ao longo de um ano. Para identificar quantidades mínimas de compostos individuais de PFAS, os investigadores recorreram a métodos de análise avançados.
A maioria das amostras foi analisada para 13 químicos diferentes, enquanto um grupo mais pequeno foi rastreado para 18. Assim, foi gerado um dos maiores conjuntos de dados do mundo real sobre exposição a PFAS.
A intenção era direta: perceber não apenas se os PFAS estão presentes, mas também de que forma surgem em conjunto no corpo.
Químicos eternos em quase todos os corpos
Os resultados confirmaram que a exposição é generalizada. Entre todas as amostras, 98.8 percent continham pelo menos um composto de PFAS.
Só este dado já mostra até que ponto estes químicos eternos se tornaram comuns. No entanto, ao aprofundar a análise, os investigadores detetaram um padrão ainda mais relevante.
Apenas 19 amostras apresentavam um único composto de PFAS - uma parcela mínima do total. Praticamente todas as restantes continham vários químicos.
Foram identificadas dezenas de combinações distintas. A configuração mais frequente incluía seis compostos e surgiu em mais de um quarto das amostras.
Isto indica que a exposição humana raramente envolve apenas um químico. Em vez disso, o organismo transporta uma mistura.
Porque é que as misturas alteram o risco
A orientação médica mais comum avalia os PFAS um a um. Na prática, cada nível é comparado com valores de referência padronizados.
Esta forma de avaliação parte do princípio de que cada composto atua de forma independente. As novas conclusões sugerem que essa suposição não corresponde ao que acontece no mundo real.
Em toxicologia, as misturas podem comportar-se de modo complexo. Há substâncias cujos efeitos se somam e outras que interagem, originando impactos mais fortes ou, por vezes, mais fracos.
As interações químicas importam
Para compreender estas interações, é necessário estudar combinações, e não apenas químicos eternos isolados.
“Estas conclusões reforçam que a exposição a PFAS raramente ocorre como compostos isolados”, afirmou a Dra. Laura Labay, toxicologista principal na NMS Labs e autora principal do estudo.
Acrescentou que, em geral, as pessoas apresentam cargas corporais constituídas por cinco ou mais PFAS, com propriedades de bioacumulação e meias-vidas diferentes.
“A elevada prevalência e consistência de combinações específicas de PFAS destaca a importância de uma interpretação baseada em misturas na biomonitorização, sobretudo tendo em conta o potencial dos PFAS para afetarem múltiplos sistemas biológicos no corpo”, explicou a Dra. Labay.
Estudos recentes sobre químicos eternos
A investigação inicial sobre misturas começa a revelar tendências. Em laboratório, estudos com células humanas mostram que a exposição combinada pode gerar efeitos aditivos.
Isto significa que o impacto global pode refletir a soma de vários químicos a atuar em conjunto.
Os estudos em animais trazem pormenores adicionais. Ensaios com peixe-zebra demonstram que a exposição combinada a PFAS pode agravar alterações no desenvolvimento e no comportamento, quando comparada com as mudanças observadas com químicos individuais.
Outros trabalhos, com misturas provenientes de águas residuais, identificaram danos em células e mitocôndrias.
Em conjunto, estes resultados sugerem que a exposição do mundo real pode implicar riscos que estudos focados num só composto não conseguem captar totalmente.
A regulamentação está a evoluir lentamente
As entidades reguladoras começaram a ajustar a abordagem. A Agência de Proteção Ambiental dos EUA introduziu um sistema que considera o risco combinado de vários PFAS na água para consumo.
Grupos científicos também recomendaram que, ao avaliar efeitos na saúde, se meça o nível total de múltiplos PFAS no sangue.
Ainda assim, as alterações políticas avançam devagar. Atualizações recentes adiaram alguns prazos regulatórios e reabriram debates sobre a melhor forma de gerir estes químicos.
A ciência está a progredir mais depressa do que as regras.
O que significa um resultado positivo
Um teste positivo para PFAS não implica que a pessoa vá desenvolver uma doença. Indica apenas a presença dos químicos. Os desfechos de saúde dependem de muitos fatores, como estilo de vida, alimentação e estado geral de saúde.
Mesmo assim, a exposição a PFAS tem sido associada a problemas como disfunção da tiroide, colesterol elevado e alguns cancros.
A dificuldade está em relacionar níveis de exposição individuais com efeitos na saúde ao longo do tempo.
A mensagem essencial é simples: para a maioria das pessoas, carregar vários PFAS passou a ser o normal.
Um recurso para trabalho futuro
O estudo constitui uma base útil para investigações futuras. Ao mapear combinações químicas frequentes, permite que os cientistas desenhem experiências que representem melhor a exposição humana real.
“Este grande conjunto de dados fornece um retrato do mundo real de como múltiplos PFAS ocorrem habitualmente em conjunto nas pessoas”, disse a Dra. Labay.
O trabalho oferece uma compreensão mais sólida de como é a exposição ampla e combinada a PFAS e do que isso poderá significar para a saúde humana.
“Esperamos que estas conclusões ajudem a orientar futuros esforços de avaliação de risco, guiem a investigação sobre misturas de PFAS nocivas e, em última análise, apoiem orientações clínicas e de saúde pública mais claras”, concluiu a Dra. Labay.
Limitações dos testes atuais
Há ainda outro ponto. Os painéis de análise procuram apenas uma lista fixa de químicos. Existem milhares de PFAS, e muitos dos compostos mais recentes não constam dos testes padrão.
Isto significa que os resultados atuais podem subestimar a exposição total. Alguns compostos permanecem invisíveis simplesmente porque não fazem parte do painel analisado.
Os investigadores sugerem que estes painéis sejam atualizados com regularidade. Novas metodologias também podem ajudar a detetar químicos desconhecidos sem depender de listas previamente definidas.
Repensar a exposição a químicos eternos
A principal mudança trazida por este estudo é conceptual. A exposição a PFAS não deve ser encarada como um problema de um único químico; é um problema de misturas.
A maioria das pessoas transporta várias destas substâncias ao mesmo tempo. Isso altera a forma como os cientistas as estudam, como os médicos interpretam resultados e como os reguladores definem limites.
Durante anos, a área de investigação concentrou-se em demonstrar que os PFAS existem no corpo humano. A fase seguinte passa por compreender o que significa, ao longo do tempo, a sua presença combinada.
Essa questão vai influenciar decisões futuras na ciência, nas políticas públicas e na saúde pública.
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