Cientistas dos Estados Unidos criaram uma vacina personalizada para o glioblastoma - um cancro do cérebro de evolução rápida e sem cura - que se revelou segura e capaz de desencadear uma resposta imunitária forte, informou esta terça-feira a Faculdade de Medicina da Universidade de Washington.
Os dados de um ensaio clínico numa fase inicial, divulgados esta terça-feira na revista científica Nature Cancer, sugerem que a vacina actua “mesmo em doentes com subtipos tumorais particularmente resistentes ao tratamento convencional”, de acordo com a agência noticiosa espanhola EFE.
Com uma sobrevivência média de 15 meses e uma taxa de sobrevivência aos cinco anos inferior a 10% mesmo com tratamento, o preparado levou a uma resposta num “subconjunto de doentes” que aparenta “aumentar a sobrevivência livre de recidiva após a cirurgia”.
"Estamos extremamente entusiasmados com estes resultados", afirmou Tanner M. Johanns, autor principal do estudo e professor na Divisão de Oncologia do Departamento de Medicina da instituição, conhecida como WashU Medicine.
"Este tipo de vacina é inédito para o glioblastoma e é entusiasmante pensar em como podemos aproveitar esta plataforma de vacina de ADN personalizada contra o cancro para ter um impacto positivo na vida dos doentes que lutam contra esta doença. Além disso, terapias combinadas utilizando esta plataforma personalizada estão a ser investigadas na WashU para verificar se os resultados podem ser ainda melhores", acrescentou, citado pela EFE.
Vacina personalizada GNOS-PV01 para o glioblastoma
A vacina, denominada GNOS-PV01, recorre a moléculas de ADN alteradas com o objectivo de mobilizar o sistema imunitário do próprio doente contra o cancro. A estratégia passa por apontar a “neoantigénios, proteínas exclusivas das células cancerígenas de cada paciente que as suas células imunitárias podem reconhecer”.
Como a vacina de ADN actua sobre os neoantigénios
Para ampliar o leque de alvos, a equipa científica escolheu neoantigénios provenientes de várias zonas do tumor de cada doente, procurando assim aumentar o número de proteínas das células malignas atingidas pela vacinação.
"Escolhemos uma plataforma baseada em ADN porque nos permitiria atingir mais proteínas cancerígenas do que qualquer outra vacina alguma vez atingiu", explicou Johanns.
Taxa de sobrevivência histórica
Segundo os investigadores, a vacina conseguiu activar o sistema imunitário de cada participante para procurar até 40 proteínas cancerígenas específicas do tumor - o dobro das proteínas alcançadas, até agora, por qualquer terapêutica vacinal contra o cancro.
O ensaio clínico incluiu nove doentes adultos com diagnóstico de glioblastoma, acompanhados no Siteman Cancer Center, associado à WashU Medicine. A vacina foi produzida enquanto cada doente recuperava da cirurgia e efectuava radioterapia, tendo a administração começado, em média, dez semanas depois da operação.
"Todos os participantes, exceto um que estava a tomar um imunossupressor esteróide, mostraram um aumento da atividade das células imunitárias" após a vacinação, e não se registaram efeitos secundários graves em nenhum doente.
Em concreto, refere a EFE, em dois terços dos doentes não houve progressão do cancro nos seis meses seguintes às cirurgias, e dois terços mantiveram-se vivos ao fim de um ano.
"Um terço dos doentes ainda estava vivo ao fim de dois anos, o dobro da taxa de sobrevivência histórica, e uma participante ainda está viva e sem recidiva até hoje, quase cinco anos após o diagnóstico inicial".
O próximo passo para Johanns e a sua equipa passa por medir a eficácia da vacina num grupo mais alargado de doentes, alargar a abordagem a todos os tipos de glioblastoma e reforçar a resposta ao preparado.
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