Cuidar de uma criança com doença complexa ultrapassa largamente o plano clínico. É, antes de tudo, uma exigência ética e uma questão de dignidade, ligada ao respeito pelos seus direitos fundamentais. Em Portugal, contudo, o acesso a cuidados paliativos pediátricos especializados continua, demasiadas vezes, a depender do “acaso”: estar internado no hospital certo, viver na região certa ou cruzar-se com a equipa certa. Num sistema que se pretende justo e numa sociedade do século XXI, é inadiável converter esta lógica de sorte num direito efetivo.
O 1.º Congresso de Cuidados Paliativos Pediátricos e o debate em Portugal
Foi com esta preocupação como ponto de partida que se realizou, em Coimbra, o 1.º Congresso de Cuidados Paliativos Pediátricos da Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos, reunindo especialistas nacionais e internacionais de várias áreas profissionais. Mais do que um encontro científico, o congresso funcionou como um espaço de reflexão sobre a forma como Portugal acompanha crianças com doença grave e sobre a necessidade de integrar este tema, de modo consistente, nas políticas de saúde e na agenda pública.
Cuidados paliativos pediátricos: clarificar o que são (e o que não são)
Um dos maiores entraves é, em grande medida, cultural. No imaginário coletivo, os cuidados paliativos continuam frequentemente associados à morte iminente e à terminalidade. Esta leitura é limitadora e importa corrigi-la: cuidados paliativos dizem respeito à vida - a assegurar que, apesar da doença, a criança continua a poder ser criança, ser pessoa e viver com dignidade.
Naturalmente, todas as crianças em fim de vida devem ter acesso a cuidados paliativos. Ainda assim, muitas situações não se restringem a essa etapa. Em inúmeros casos, o diagnóstico surge à nascença ou na primeira infância, e a criança vive durante anos com uma doença que afeta profundamente o seu bem-estar e o das suas famílias, com repercussões físicas, emocionais, espirituais e sociais significativas.
Um modelo ainda centrado na doença, e não na criança
Apesar dos progressos verificados nos últimos anos, persiste um modelo de cuidados demasiado orientado para a doença, quando deveria colocar a criança no centro: quem ela é, o que sente e aquilo de que necessita. Porque cuidar em cuidados paliativos pediátricos não significa apenas acompanhar uma criança doente. Significa apoiar um ecossistema inteiro - a criança enquanto pessoa, a sua família, mas também a escola e a comunidade - num percurso muitas vezes exigente e imprevisível.
Domicílio e comunidade: a escolha preferencial que nem sempre é possível
Sempre que possível, a comunidade e/ou o domicílio deveriam ser o local preferencial de cuidados. Porém, para muitas famílias portuguesas, esta opção continua por concretizar. Mantêm-se obstáculos na disponibilidade de equipas especializadas, na articulação entre serviços, na continuidade dos cuidados e na referenciação atempada.
Barreiras conhecidas: financiamento, formação e uma rede fragmentada
Os constrangimentos são bem identificados: subfinanciamento, falta de formação específica e uma rede de cuidados ainda pouco coesa. A isto acrescenta-se o desconhecimento, quer na sociedade, quer entre alguns profissionais de saúde, o que perpetua barreiras culturais e institucionais.
O resultado é visível: situações repetidas de exaustão familiar e, mais preocupante, crianças afastadas do conforto do seu ambiente habitual - não por imposição clínica inevitável, mas por limitações organizacionais e estruturais do sistema.
De circunstância a direito: o que é preciso garantir
Neste enquadramento, o acesso a cuidados paliativos pediátricos especializados não pode continuar dependente de circunstâncias casuísticas. Trata-se de um direito fundamental e, por isso, a sua concretização requer uma resposta estruturada, estável e consistente.
Apesar das dificuldades, há conhecimento acumulado, experiência e capacidade instalada. O essencial é assegurar que estes recursos se traduzem, de facto, em acesso efetivo e equitativo em todo o país. Isso implica reforçar a capacitação não só das equipas especializadas, mas também de todos os profissionais (incluindo os da comunidade) que, em algum momento, poderão contactar com estas crianças, garantindo identificação, acompanhamento e referenciação adequados e em tempo útil.
Portugal não começa do zero. Ainda assim, o caminho exige consolidação, investimento e compromisso coletivo - dos decisores políticos, dos profissionais e da sociedade. Os cuidados paliativos pediátricos devem assumir-se como componente integrante e estruturante do sistema de saúde, disponíveis para todas as crianças e famílias, independentemente da sua localização geográfica ou condição socioeconómica. Assim, o acesso a cuidados paliativos pediátricos especializados não pode ser tratado como uma opção do sistema, mas, sim, como uma responsabilidade de todos.
É, por isso, tempo de agir, para que nenhuma criança em Portugal fique sem os cuidados de que precisa, no momento certo e no local adequado, sobretudo quando mais precisa.
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