Boa tarde,
O que estava pensado como uma travessia pouco comum pelo Atlântico Sul - entre ilhas isoladas, natureza praticamente intocada e cenários que quase ninguém chega a presenciar - incluía paragens e avistamentos de sonho: Tristão da Cunha, Gough, Santa Helena, Ascensão, observação de baleias, aves raras, glaciares e noites com céus livres de poluição luminosa. Até que, a 6 de abril, um passageiro neerlandês de 70 anos ficou subitamente doente. A partir daí, a viagem passou a ser vivida como um registo contínuo de urgência.
Surto de hantavírus no MV Hondius
A bordo do cruzeiro MV Hondius, um surto de hantavírus, uma infeção rara transmitida de roedores para humanos, alterou por completo o que seria uma expedição de carácter científico e turístico, transformando-a numa sequência de episódios de doença, com três mortes, evacuações médicas e dias prolongados de incerteza em alto-mar.
É esta a narrativa relatada por Catarina Maldonado Vasconcelos, num texto onde junta alguns testemunhos de passageiros, em particular recolhidos através das redes sociais. Sem o planear, alguns viajantes tornaram-se cronistas da crise: vão descrevendo o encadear de notícias negativas, enquanto tentam manter a serenidade, e surgem imagens de alguns deles a fazer tricô e a preservar rotinas. “Não somos apenas manchetes. Somos pessoas, com famílias, com vidas à espera em terra”, escreveu um dos passageiros.
Cronologia, números e suspeitas sobre a origem
A viagem teve início a 20 de março, com partida de Ushuaia, no extremo sul da Argentina, e estava programada para durar 35 dias, com destino final em Cabo Verde. A bordo seguiam 147 pessoas de 23 nacionalidades. No total, oito pessoas foram infetadas.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, os primeiros contágios terão acontecido em terra, na América do Sul, antes do embarque - embora a hipótese de transmissão a bordo não seja afastada. A Associated Press noticiou hoje que, de acordo com duas fontes argentinas que falaram sob garantia de anonimato, existe a suspeita de que a origem possa estar num casal holandês que foi observar aves em Ushuaia e que poderá ter transportado o vírus para o navio após contacto com roedores.
Escalas recusadas e braço-de-ferro político
Entretanto, o caso ganhou também dimensão política. Cabo Verde recusou autorizar o desembarque dos passageiros, ao passo que Espanha permitiu que o navio seguisse para as Canárias, onde os passageiros deverão ser avaliados e repatriados.
No entanto, o Governo regional afirmou que iria recusar a escala e acusou o executivo nacional, liderado por Pedro Sánchez, de deslealdade institucional. O impasse deverá prolongar-se por mais alguns dias, já que o ministro da Administração Interna, Fernando Grande-Marlaska, reiterou que o desembarque vai mesmo acontecer e foi pedido pela Organização Mundial de Saúde, defendendo que Tenerife dispõe de todos os meios europeus necessários para assegurar um repatriamento seguro. Em Bruxelas, o presidente do Governo das Canárias reconheceu que existe um pedido de desembarque para sábado, que será “estudado”.
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