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Exames médicos revelam segredos ocultos no interior de múmias do Antigo Egipto.

Dois técnicos analisam uma múmia egípcia enrolada numa máquina de tomografia computadorizada.

A tecnologia médica pensada para os vivos está agora a ajudar os cientistas a desvendar os segredos dos mortos.

Durante muito tempo, estudar os restos mumificados de antigos egípcios - pessoas que viveram e morreram há milhares de anos - era um processo que não garantia que os corpos chegassem ao fim intactos.

Hoje, graças à imagiologia de nível hospitalar, é possível revelar o que está por baixo das ligaduras antigas, camada após camada, sem deslocar um único fio de linho.

Múmias egípcias do Museu Semmelweis e a tomografia computorizada (TC)

Quando o Museu Semmelweis de História da Medicina, integrado no Centro de Coleções Públicas do Museu Nacional Húngaro, em Budapeste, foi fundado em 1965, recebeu várias múmias do Antigo Egito - e os investigadores esperam agora revelar os seus mistérios mais profundos com recurso a tomografia computorizada (TC) de alta resolução.

«O objetivo dos exames é obter uma imagem tão precisa quanto possível da estrutura interna dos restos, de quaisquer anomalias e das técnicas de preservação utilizadas», afirma a médica clínica principal e radiologista Ibolyka Dudás, do Centro de Imagiologia Médica da Universidade Semmelweis.

O que a TC permite ver sem tocar nas ligaduras

A tecnologia de TC, ou tomografia computorizada, tem sido extraordinariamente útil em várias áreas da investigação científica. Trata-se de uma forma avançada de radiografia, de alta tecnologia e alta resolução, que recorre a aparelhos de raios X rotativos e a um computador para construir imagens detalhadas do interior de um objeto ou de um corpo vivo, em duas ou três dimensões.

Os benefícios clínicos são amplamente conhecidos e abrangentes, mas os cientistas também têm utilizado esta tecnologia para análises não destrutivas e não invasivas de múltiplos espécimes - desde fósseis antigos a cérebros delicados de insetos e até um meteorito com origem em Marte.

É precisamente este tipo de abordagem que Dudás e a sua equipa estão a aplicar às múmias do museu, usando o mais recente equipamento de TC do centro, equipado com um detetor de contagem de fotões de última geração, para aprofundar o conhecimento sobre estes exemplares enigmáticos.

Imagens mais detalhadas do que nunca nas múmias da coleção

«Os restos já tinham sido analisados anteriormente por uma equipa de investigação», explica a curadora da coleção do museu, Krisztina Scheffer, «mas as imagens atuais oferecem uma visão mais detalhada do que alguma vez foi possível e espera-se que tragam novos resultados cientificamente válidos sobre os restos preservados na coleção há décadas».

Seis das múmias do museu foram datadas por radiocarbono, embora apenas três tenham produzido resultados fiáveis. A mais antiga destas situa-se entre 401 e 259 a.C., apesar de os egípcios praticarem a mumificação deliberada dos seus mortos há vários milénios antes desse período.

As análises dos dados obtidos nas TC estão a decorrer e ainda não foram publicadas. Ainda assim, outros projetos que recorreram a TC para estudar restos igualmente preciosos já mostraram até que ponto estas imagens podem revelar aspetos importantes sobre a vida dos nossos antepassados.

O que outras TC já mostraram: objetos, doenças e violência

Os embalsamadores do Antigo Egito colocavam frequentemente objetos valiosos nas ligaduras - por exemplo, moedas e amuletos.

Noutros estudos, as TC de múmias egípcias revelaram problemas de saúde, como artrite, e uma investigação identificou uma elevada prevalência de anemia em crianças do Antigo Egito.

A TC aplicada a restos antigos também pode expor cancros ocultos; e foi necessário um estudo de TC de múmias sul-americanas pré-colombianas para pôr a descoberto um massacre particularmente brutal.

Primeiros indícios na coleção Semmelweis: datação e surpresas anatómicas

As primeiras leituras das múmias do Semmelweis sugerem que as TC poderão ajudar a datar alguns dos restos com base nas técnicas de mumificação empregues.

Um dos exemplares destacou-se: um embrulho cujo conteúdo era impossível de identificar a olho nu. Os investigadores suspeitaram que pudesse tratar-se de uma ave - os antigos egípcios mumificavam muitas aves. Outra hipótese era ser uma cabeça - mas as imagens mostraram que, na realidade, era um pé.

A TC de outro pé mumificado aponta ainda para a possibilidade de o indivíduo ter sofrido de osteoporose. A equipa espera que os restantes exames permitam esclarecer mais pormenores sobre quem eram estas pessoas e sobre os métodos usados para preservar os seus corpos.

«Com base nos resultados obtidos até agora, é evidente que a tecnologia moderna de imagiologia abre novas perspetivas na investigação de múmias», afirma Scheffer.

«Pode revelar informação escondida em achados com milhares de anos sem os danificar.»

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