Novos estudos estão a pôr em causa uma ideia que parecia óbvia.
Várias equipas de investigação do Reino Unido, da Irlanda e dos EUA analisaram, nos últimos anos, uma bebida que quase toda a gente guarda no frigorífico - e chegaram a uma conclusão inesperada: em certos contextos, consegue manter o organismo hidratado durante mais tempo do que a água. Sem qualquer “truque”, apenas graças à sua composição nutricional.
O que os estudos mostram realmente
Já em 2007, um grupo de investigadores realizou uma experiência com pessoas que tinham praticado exercício e, por isso, estavam ligeiramente desidratadas. Aos participantes foram dadas bebidas diferentes - água, bebidas desportivas comuns e leite. Ao longo das horas seguintes, mediu-se quanta água o corpo eliminava e durante quanto tempo o balanço de líquidos se mantinha favorável.
"O leite levou a menos urina do que a água e as bebidas desportivas - e o balanço de líquidos manteve-se positivo durante cerca de cinco horas após o esforço."
Com a água e as bebidas desportivas tradicionais, a vantagem perdeu-se muito mais depressa: ao fim de aproximadamente uma hora, o benefício em termos de hidratação estava, em grande parte, esgotado. Isto sugere que o organismo retém uma parte da água proveniente do leite por mais tempo.
Quase uma década depois, uma equipa da Universidade de Limerick, na Irlanda, reproduziu um cenário semelhante - desta vez com sete homens jovens e fisicamente activos. O resultado voltou a apontar no mesmo sentido: no período de recuperação, quem bebeu leite apresentou um equilíbrio hídrico mais estável do que quem bebeu água.
Grande estudo comparativo: o leite supera muitas outras bebidas
Em 2016, foi publicado no “American Journal of Clinical Nutrition” um estudo mais abrangente. Setenta e dois homens consumiram, em dias diferentes, várias bebidas, sem terem praticado exercício previamente. Depois, os investigadores acompanharam durante quatro horas a forma como a água era mantida no corpo.
Entre as bebidas avaliadas estavam, por exemplo:
- Água
- Leite inteiro
- Leite magro
- Chá preto
- Café
- Cola e cola light
- Sumo de laranja
- Cerveja
- Bebida desportiva
- Solução médica de reidratação
O desfecho surpreendeu até especialistas: leite inteiro, leite magro e a solução específica de reidratação ficaram entre as opções com maior capacidade de hidratar e de manter líquidos no organismo por mais tempo. A água não ficou no fim da tabela, mas, no que toca à retenção de líquidos, teve um desempenho inferior ao do leite.
Um trabalho adicional, publicado em 2020 na revista científica “Nutrients”, reforçou a mesma tendência: mais uma vez, o leite destacou-se como bebida com efeito de hidratação particularmente forte quando comparado com a água.
Porque é que o leite mantém o corpo hidratado durante mais tempo
A explicação não está apenas na quantidade de água, mas sobretudo nos nutrientes. O organismo responde à composição global da bebida: electrólitos, calorias, proteína e gordura influenciam a velocidade a que o estômago esvazia e a quantidade de líquido que os rins eliminam.
O papel do sódio, da proteína e da gordura
O leite contém, entre outros componentes:
- Sódio - um mineral que ajuda a reter água no organismo, como se “segurasse” o líquido
- Potássio - essencial para as trocas de líquidos ao nível celular
- Proteína - abranda o esvaziamento gástrico e, por consequência, a eliminação de líquidos
- Gordura - intensifica esse efeito de travagem no estômago (sobretudo no leite inteiro)
"Electrólitos como o sódio e o potássio promovem a hidratação, enquanto as calorias e os nutrientes abrandam o esvaziamento do estômago e, assim, atrasam a produção de urina."
É precisamente este mecanismo que faz com que o leite permaneça mais tempo no aparelho digestivo. A água que contém não é “expulsa” rapidamente, sendo libertada de forma gradual para a corrente sanguínea. Para atletas, isto pode ser útil na recuperação, porque o equilíbrio de líquidos tende a manter-se mais estável.
Até que ponto estes resultados são sólidos?
Apesar de os números parecerem impressionantes, há detalhes que relativizam as conclusões. Vários estudos contaram com amostras pequenas e, muitas vezes, apenas com homens jovens e saudáveis. Além disso, muitas medições terminaram ao fim de quatro a cinco horas - o que acontece depois não foi avaliado.
Por esse motivo, um professor de Medicina da Universidade de Harvard levantou a questão de saber se a vantagem do leite sobre a água se manteria com um período de observação mais longo. Será que o leite é apenas eliminado mais tarde, ou permanece realmente superior durante muitas horas? Até ao momento, faltam estudos grandes e de longa duração, com diferentes faixas etárias e também com mulheres.
Acresce que os ensaios foram feitos em ambiente controlado. Na vida real, factores como alimentação, nível de actividade física, temperatura ambiente ou medicação também interferem. Por isso, ainda é limitado o que se pode extrapolar sobre a magnitude das diferenças entre leite e água no dia a dia.
Porque é que os médicos continuam a recomendar água em primeiro lugar
Mesmo com estes dados, a orientação de muitos especialistas mantém-se: para o quotidiano, a água continua a ser a opção principal. A razão não é a hidratação em si, mas sim os “componentes extra” presentes nas bebidas.
Calorias, açúcar e intolerâncias
O leite acrescenta calorias, proteína, gordura e - conforme o tipo - também açúcar sob a forma de lactose. Em certos contextos, isto pode ser vantajoso, como na recuperação após o exercício. No entanto, quem já ingere calorias a mais ou vive com diabetes deve ter em conta que as calorias provenientes de bebidas não são irrelevantes.
Há ainda a questão das intolerâncias: muitas pessoas têm dificuldade em digerir lactose ou apresentam alergia à proteína do leite. Nesses casos, o leite deixa de ser uma alternativa viável como bebida para hidratar. A água torna-se, aqui, a opção claramente mais bem tolerada.
Também a saúde oral entra na equação. Bebidas com açúcar - sejam sumos, refrigerantes ou bebidas de leite adoçadas - desgastam o esmalte dentário muito mais do que água simples.
Quando é que o leite pode fazer sentido no dia a dia
Para quem não tem problemas de saúde relacionados com o leite, pode ser uma escolha estratégica. Exemplos práticos:
- Depois de exercício intenso: um copo de leite fornece líquidos, proteína para os músculos e electrólitos - funcionando como uma bebida de recuperação disponível no frigorífico.
- Como lanche: ajuda a matar a sede e a fome ao mesmo tempo, porque permanece mais tempo no estômago.
- Em desidratação ligeira: após um dia muito quente ou uma viagem longa de comboio, pode contribuir para repor o equilíbrio de líquidos, desde que o estômago o tolere bem.
Ainda assim, o essencial mantém-se: se o objectivo for apenas saciar a sede, a água é a opção mais simples. O leite tende a funcionar melhor como complemento, não como única fonte de líquidos ao longo do dia.
O que significa, afinal, hidratação
Hidratação não é apenas a quantidade que se bebe, mas sim a parte que o corpo consegue absorver e manter. Uma pessoa pode ingerir três litros por dia e, mesmo assim, estar desidratada se eliminar líquidos muito depressa ou se os perder intensamente através do suor.
O que os estudos sobre o leite evidenciam, acima de tudo, é que a composição da bebida também influencia a duração do efeito. Electrólitos, proteína e calorias atrasam a eliminação - algo que pode ser útil, mas que também pode aumentar a ingestão energética total.
Por isso, para matar a sede, não é obrigatório recorrer a bebidas especiais ou misturas complicadas. Para a maioria das pessoas, chega uma combinação sensata: água como base e, quando fizer sentido, bebidas com nutrientes - como o leite ou soluções isotónicas.
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