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O consumo excessivo de álcool afeta o raciocínio dos estudantes mesmo depois de estarem sóbrios.

Jovem estudante concentrado a estudar com livros e computador numa biblioteca iluminada por luz natural.

O consumo excessivo de álcool costuma ser desvalorizado como apenas mais uma ressaca - dor de cabeça, náuseas e a promessa silenciosa de que, da próxima vez, se vai com mais calma.

Há, no entanto, outro efeito que muitas vezes passa despercebido. Surge no dia seguinte, quando alguém tem dificuldade em manter a atenção numa aula, se esquece de coisas simples ou toma más decisões sem perceber bem porquê.

Uma investigação recente indica que estas falhas mentais não acontecem ao acaso: estão intimamente ligadas à quantidade de álcool consumida na noite anterior.

O custo oculto do consumo excessivo de álcool

Para muitos jovens adultos, beber faz parte da vida universitária. Festas, aniversários e fins de semana acabam, muitas vezes, por girar à volta do álcool. A ideia mais comum é simples: assim que passa o efeito, tudo volta ao normal. Este estudo vem pôr essa crença em causa.

Os investigadores concluíram que o consumo excessivo de álcool - sobretudo quando chega ao ponto de ocorrer um apagão alcoólico - pode interferir com o funcionamento do cérebro no dia seguinte.

Esquecimentos, dificuldade em concentrar-se e um pensamento mais lento não aparecem apenas durante a bebida. Podem manter-se bem para lá da noite, prolongando-se pelo dia seguinte.

Ashley Linden-Carmichael é professora associada no Departamento de Psicologia do Aconselhamento e Serviços Humanos da Universidade do Oregon.

“Estamos a ver, neste estudo, que o consumo excessivo de álcool pode afetar o funcionamento no dia seguinte”, afirmou Linden-Carmichael.

“Os estudantes podem ter mais dificuldade em acompanhar o trabalho académico, em ir trabalhar ou em gerir amizades, e isso pode ter grandes implicações para a sua saúde mental.”

O que acontece durante um apagão alcoólico (blackout)

Um apagão alcoólico não é o mesmo que desmaiar. A pessoa pode continuar a andar, a falar e a interagir com os outros. O que acontece é que o cérebro deixa de formar novas memórias.

“Quando alguém está a ter um apagão alcoólico, continua a orientar-se no mundo, mas não está a processar informação nem a criar e guardar memórias, o que pode levar a decisões que normalmente não tomaria, aumentando o risco de lesão física e de agressão sexual”, assinalou Linden-Carmichael.

Essa quebra na formação de memórias pode ter consequências que vão além da própria noite. Pode deixar as pessoas sem noção do que fizeram e também comprometer a forma como o cérebro responde no dia seguinte.

Acompanhar a vida real, dia a dia

Para perceber melhor o fenómeno, os investigadores acompanharam 304 estudantes universitários ao longo de um período de 21 dias, entre novembro de 2023 e maio de 2024.

Não se tratava de pessoas que bebiam ocasionalmente. Cada participante tinha historial de consumo excessivo de álcool pelo menos duas vezes por mês e, no último ano, tinha vivido pelo menos um apagão alcoólico.

Em vez de dependerem de recordações recolhidas semanas mais tarde, os investigadores foram recolhendo informação ao longo de cada dia.

Os estudantes recebiam questionários por mensagem de texto a cada duas horas, desde o final da manhã até ao início da noite. Indicavam quanto tinham bebido no dia anterior e como se sentiam, em termos mentais, nesse dia.

Além disso, realizavam pequenas tarefas cognitivas, incluindo um teste de memória em que tinham de repetir sequências de números pela ordem inversa. É um exercício simples, mas permite ver, em tempo real, quão bem o cérebro está a funcionar.

Pequenos aumentos, efeitos maiores

Os resultados revelaram um padrão inequívoco: qualquer quantidade de álcool aumentou a probabilidade de falhas mentais no dia seguinte.

Comparando com não beber de todo, até um consumo moderado elevou em 14 por cento a probabilidade de ocorrerem lapsos cognitivos.

E a tendência agravava-se com cada bebida adicional. Por cada bebida extra, a probabilidade de problemas cognitivos no dia seguinte aumentou em 5 por cento.

Os impactos mais marcados apareceram com níveis mais elevados de consumo. O consumo de alta intensidade, definido como mais de 8 bebidas para mulheres ou 10 para homens numa só ocasião, duplicou a probabilidade de surgirem lapsos cognitivos no dia seguinte.

Os apagões alcoólicos mostraram uma associação ainda mais forte: estiveram ligados a uma probabilidade 40% maior de problemas cognitivos no dia seguinte.

Porque isto é particularmente relevante agora

Os jovens adultos entre os 18 e os 25 anos apresentam as taxas mais elevadas de consumo excessivo de álcool. Em 2023, cerca de 5.1 million jovens adultos nos Estados Unidos cumpriam os critérios de perturbação por uso de álcool.

Outros estudos indicam também que cerca de metade dos jovens adultos que bebem já experienciou pelo menos um apagão alcoólico.

Isto significa que estes efeitos do dia seguinte não são raros. É provável que afetem milhões de estudantes e jovens trabalhadores, muitos dos quais não relacionam as dificuldades que sentem com o que beberam na noite anterior.

E o impacto não se limita ao desempenho escolar. Dificuldades de concentração podem comprometer tarefas no trabalho. Decisões menos ponderadas podem desgastar relações. Com o tempo, padrões repetidos deste tipo podem pesar na saúde mental.

Uma oportunidade para mudar

Um dos aspetos mais interessantes do estudo é o momento em que estes efeitos aparecem. O dia seguinte - quando a pessoa percebe que não está a pensar com clareza - pode ser precisamente a altura em que está mais recetiva a mudar.

Os investigadores estão a explorar formas de aproveitar esse momento. Uma das ideias passa por aplicações móveis que enviem mensagens ou feedback em tempo real.

Estas “intervenções no momento certo” podem ajudar as pessoas a ligar as dificuldades que estão a sentir ao consumo recente de álcool.

O objetivo é simples: ajudar a reconhecer padrões enquanto estão a acontecer, e não semanas depois, quando as memórias já se esbatem.

Direções futuras de investigação

A equipa de investigação pretende aprofundar a análise. Quer perceber se o sono pode ajudar a proteger contra estes efeitos do dia seguinte. Também está a estudar o que acontece quando o consumo excessivo de álcool ocorre durante vários dias seguidos.

Outro foco é a forma como o álcool interage com a canábis, já que muitos jovens adultos consomem ambos.

Por agora, a mensagem é clara: os efeitos do consumo excessivo de álcool não terminam quando a noite acaba. Podem acompanhar as pessoas pelo dia seguinte, influenciando a forma como pensam, agem e se sentem - de maneiras fáceis de ignorar, mas difíceis de desvalorizar.

O estudo completo foi publicado na revista Álcool, Investigação Clínica e Experimental.

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