Numa tarde quente, um bulldog deveria conseguir correr, ofegar e depois repousar como qualquer outro cão. No entanto, em muitas raças de focinho achatado, até respirar passa a ser uma dificuldade diária.
Para quem vive com estes animais, os ressonos, fungadelas e arquejos podem parecer “normais”. Ainda assim, esses sons costumam ser sinais de um problema de saúde sério que, durante muito tempo, foi sendo encarado como aceitável.
Um novo estudo, conduzido por investigadores da Snoretox e da Universidade RMIT, abre uma janela de esperança. A equipa descreve uma abordagem pouco comum que pode alterar a forma como os veterinários lidam com distúrbios respiratórios nestes cães.
Problemas respiratórios em cães de focinho achatado
Cães braquicefálicos como os bulldogs, os carlinos e os bulldogs franceses ganharam enorme popularidade.
O apelo é evidente: focinho curto, cabeça compacta e olhos grandes, características amplamente valorizadas nas redes sociais e na cultura popular. Mas esta aparência tem custos relevantes para a saúde.
Tony Sasse, director-geral da Snoretox e professor adjunto na Universidade RMIT, chama a atenção para as consequências da selecção artificial.
“Décadas de criação selectiva para a popular aparência de focinho achatado levaram infelizmente a problemas respiratórios graves”, afirmou Sasse.
“Nos casos mais severos, demonstrou-se que a condição pode encurtar a vida de um cão em até quatro anos.”
A condição por detrás das dificuldades em respirar (BOAS)
A origem do problema está numa condição conhecida como Síndrome Obstrutiva das Vias Aéreas dos Braquicefálicos (Brachycephalic Obstructive Airway Syndrome, BOAS).
Entre 45 e 50% das raças extremamente braquicefálicas apresentam sinais claros desta perturbação.
A explicação está no modo como o corpo destes cães se foi “ajustando” ao longo do tempo: o crânio encurtou, mas os tecidos moles no interior das vias aéreas não diminuíram na mesma proporção.
“Nas raças de focinho curto, o tecido mole das vias aéreas superiores não se adaptou ao crânio mais curto. Isto deixa tecido em excesso comprimido num espaço menor, onde pode obstruir o fluxo de ar”, explicou o Professor Peter Smooker, biotecnólogo da Escola de Ciências da Universidade RMIT.
Quando o ar não passa livremente, a respiração pode tornar-se ruidosa, trabalhosa e, em determinados momentos, até perigosa.
A cirurgia continua a ser uma opção com riscos
Actualmente, a cirurgia é a principal via terapêutica para a BOAS. Na prática, muitos veterinários removem tecido excedente ou reduzem o palato mole, tentando criar mais espaço para a passagem de ar.
Apesar de ser uma abordagem comum, traz preocupações importantes.
“A investigação mostra que até 60% dos cães afectados continuam a ter problemas respiratórios após a cirurgia, e 7% não sobrevivem ao procedimento”, referiu Sasse.
Mesmo quando o resultado cirúrgico é considerado positivo, a recuperação pode ser exigente. E não é raro que alguns cães continuem a ter limitações, apesar de terem sido submetidos a um tratamento invasivo.
Uma toxina que poderá dar suporte às vias aéreas
Perante estes limites, os investigadores decidiram testar uma ideia muito diferente, recorrendo à toxina do tétano - uma substância habitualmente associada à doença.
Em doses controladas, porém, o comportamento muda. Em vez de provocar danos, pode aumentar a actividade muscular. Esse efeito pode ser útil para reforçar os músculos que ajudam a manter a via aérea aberta.
“A terapia fortalece os músculos na parte frontal da via aérea, ajudando a suportar a garganta e a manter o fluxo de ar durante a respiração”, explicou Smooker.
A estratégia do “isco” do Snoretox 1
Havia, contudo, um obstáculo grande: a maioria dos animais já tem anticorpos contra o tétano devido à vacinação. Em circunstâncias normais, esses anticorpos neutralizariam qualquer tratamento baseado na toxina.
A equipa contornou o problema com uma solução engenhosa. A formulação, chamada Snoretox 1, combina toxina activa com uma versão inactiva, conhecida como toxóide.
O componente inactivo funciona como um isco: “capta” e absorve os anticorpos, permitindo que a toxina activa chegue aos músculos-alvo.
Segundo os investigadores, esta abordagem vem a ser trabalhada há mais de 15 anos.
Ensaios do Snoretox 1 em bulldogs
Para avaliar o conceito, foi realizado um pequeno estudo piloto. Participaram seis bulldogs ingleses com BOAS moderada a grave, com idades entre quatro e oito anos.
O tratamento foi injectado num músculo específico da garganta, responsável por ajudar a estabilizar a via aérea durante a respiração.
Depois, os veterinários avaliaram os animais com um sistema de classificação padronizado. Cada cão fez ainda um teste curto de exercício, para que os especialistas pudessem observar alterações respiratórias sob um nível ligeiro de esforço.
Resultados animadores
Os resultados chamaram a atenção. Os seis cães melhoraram pelo menos um nível completo na escala de gravidade da BOAS. Em alguns casos, o avanço foi ainda mais expressivo. Além disso, o efeito manteve-se por mais tempo do que era esperado.
O benefício mais curto durou 20 semanas. O mais prolongado estendeu-se por 53 semanas. Estes períodos ultrapassam claramente o que se observa com outras intervenções.
“Também observámos melhorias em cães que não tinham respondido bem a cirurgia anterior”, disse Sasse.
Os efeitos adversos foram reduzidos. Dois cães apresentaram problemas ligeiros e temporários associados ao local da injecção.
O que isto pode significar para lá da veterinária
As implicações podem não se ficar pelos animais. O Professor Russell Conduit, da Escola de Saúde e Ciências Biomédicas da Universidade RMIT, destacou o potencial mais amplo.
“Isto é uma evidência entusiasmante para apoiar ensaios de medicamentos em humanos para condições que envolvem fraco tónus muscular”, afirmou o Professor Conduit.
O tratamento da fraqueza muscular em humanos continua a ser um desafio grande, muitas vezes por estar ligado a condições de base complexas e difíceis de abordar sem afectar outros sistemas vitais.
“Este produto tem potencial de plataforma para um conjunto de condições, tanto em animais como em humanos”, explicou Sasse.
“Do ponto de vista das aprovações regulamentares, faz sentido começar com estas aplicações em animais, mas estamos a manter em mente o panorama mais amplo de aplicações em animais e humanos.”
O estudo é, ainda assim, pequeno, e será necessária mais investigação antes de o tratamento poder ser disponibilizado de forma ampla. Ensaios de maior escala, envolvendo diferentes raças, ajudarão a confirmar estes resultados iniciais.
Um caminho para respirar com mais segurança
“Este projecto está focado em fazer uma diferença real nos animais, com potencial para um impacto mais amplo no futuro”, disse o Professor Calum Drummond, Vice-Reitor Adjunto para a Investigação na Universidade RMIT.
Para cães que parecem lutar por cada inspiração, esta linha de trabalho aponta uma alternativa. Sugere a possibilidade de respirar com menos esforço, mover-se melhor e ter um dia-a-dia mais confortável - sem os riscos associados a uma grande cirurgia.
Aquilo que durante anos foi encarado como uma “característica” inevitável de certas raças poderá, em breve, tornar-se numa condição tratável.
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