Perguntamo-nos: será que o queixo nos torna mais bonitos? Em alguns casos, sim. Mas será que nos torna mais fortes? De maneira nenhuma - é uma saliência sem utilidade motora ou defensiva.
Basta olhar para o seu gato ou cão, para um chimpanzé num zoo, ou até para o crânio de parentes humanos já desaparecidos (como o Homem de Neandertal ou os Denisovanos) para notar um pormenor: nenhum deles tem queixo. Então por que motivo somos os únicos a exibir esta protuberância óssea? Será para mastigar melhor? Para sermos mais atraentes? A resposta é muito simples e pode desiludir: para nada.
É precisamente isso que uma investigação publicada no final de janeiro de 2026 na revista PLOS One, conduzida por uma equipa da Universidade de Buffalo liderada pela antropóloga biológica Noreen von Cramon-Taubadel, veio reforçar: a seleção natural não nos deu este traço por nos tornar mais aptos a sobreviver; o nosso queixo é, sobretudo, um acidente evolutivo.
O queixo humano: o “erro 404” da evolução
Para explicar a ideia, os autores comparam o queixo a um espadrel. Em termos de arquitetura, trata-se do espaço triangular que surge inevitavelmente entre o topo de um arco e o enquadramento retangular de uma porta - muitas vezes fica vazio ou é preenchido apenas com decoração superficial. O arquiteto não o desenha por ter uma função específica: ele existe simplesmente porque o arco, esse sim, é necessário. Nesse sentido, o seu queixo funciona como um espadrel.
Como descreve Noreen von Cramon-Taubadel: «O queixo evoluiu em grande parte por acaso e não por seleção direta; é um subproduto evolutivo resultante da seleção direta sobre outras partes do crânio». À medida que o nosso rosto foi ficando mais achatado, que os dentes diminuíram e que a caixa craniana aumentou para acomodar um cérebro cada vez mais exigente, a zona inferior da mandíbula acabou por acompanhar essas mudanças. Não foi o queixo que “cresceu” para a frente; foi o resto da face que recuou, deixando esta ponta óssea como um vestígio.
A “sobrevivência do mais apto”: um mito?
Sem refutar por completo Herbert Spencer - que popularizou a expressão «sobrevivência do mais apto» na obra Principles of Biology, em 1864 -, é possível afiná-la. Para Spencer, a fórmula apontava para o indivíduo cujas características físicas e biológicas se ajustavam melhor ao ambiente. Numa visão de natureza quase totalmente otimizada, cada elemento da anatomia teria de cumprir uma função clara, um propósito utilitário destinado a aperfeiçoar a adequação da espécie ao seu meio.
No entanto, a evolução não é perfeita e recorreu a alguns remendos. «O facto de termos uma característica única, como o queixo, não significa que ela tenha sido necessariamente moldada pela seleção natural para aumentar as probabilidades de sobrevivência de um animal», esclarece von Cramon-Taubadel.
É verdade que o queixo pode oferecer um ligeiro apoio durante a mastigação e dar alguma proteção à mandíbula inferior em caso de impacto, mas essas vantagens são reduzidas. Temos queixo porque o fomos “apanhando” ao longo da nossa longa viagem biológica até ao destino final, Homo sapiens - e porque ele é um pequeno resíduo de uma grande reorganização anatómica. E, se acha que este é o único “extra” do género, não é: existem outros, embora poucos, como o soluço, a pele de galinha (arrepios) ou a Plica Semilunaris (o pequeno canto rosado no interior do olho). No fim de contas, é um preço baixo face à maquinaria complexa e quase high-tech que é o nosso organismo no seu conjunto.
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