Apesar dos enormes custos humanos, sociais e económicos associados ao abuso de álcool, as abordagens terapêuticas disponíveis não têm conseguido trazer um alívio verdadeiramente relevante. O consumo excessivo de álcool continua a estar entre as principais causas de morte e incapacidade em todo o mundo. Só nos EUA, 16.4 milhões de pessoas com 12 anos ou mais referiram episódios de consumo compulsivo de álcool em cinco ou mais dias no último mês.
Embora existam vários medicamentos para quem pretende parar ou reduzir o consumo de álcool, os resultados são modestos e, muitas vezes, surgem efeitos indesejáveis importantes.
Porque os tratamentos actuais são pouco específicos
Nas últimas três décadas, grande parte das tentativas de combater o consumo excessivo de álcool centrou-se no desenvolvimento de fármacos dirigidos a proteínas capazes de controlar a forma como os neurónios reagem a estímulos.
O problema é que essas proteínas existem em praticamente todos os neurónios do cérebro. Assim, ao actuarem sobre elas, os medicamentos acabam também por influenciar neurónios que não são directamente responsáveis por regular os efeitos do álcool. O resultado frequente são efeitos secundários não desejados, como dor de cabeça, fadiga, sonolência ou, pelo contrário, insónia.
No meu trabalho como neurobiólogo, investigo a ideia de que identificar com precisão os circuitos cerebrais específicos envolvidos na supressão do consumo de álcool é essencial para criar tratamentos mais direccionados e com menos efeitos secundários. Num estudo recentemente publicado, a minha equipa e eu encontrámos um pequeno grupo de neurónios responsável por travar o consumo compulsivo de álcool.
Um mapa de neurónios do consumo compulsivo de álcool
Os investigadores já reconheceram várias regiões do cérebro como peças-chave no abuso de álcool. Ainda assim, tem-se acumulado evidência robusta de que, dentro dessas regiões, apenas um número muito reduzido de neurónios sustenta os efeitos do álcool sobre o funcionamento cerebral.
Já se demonstrou que pequenas populações de neurónios - designadas conjuntos neuronais - desempenham um papel central na formação de memórias e na vivência do medo. Contudo, não era claro se os conjuntos neuronais activados durante o consumo compulsivo de álcool também influenciavam esse comportamento de consumo.
Tendo em conta que o cérebro contém milhares de milhões de neurónios, localizar os neurónios relevantes é comparável a procurar uma agulha num palheiro. Para ultrapassar este obstáculo, eu e os meus colegas recorremos a um modelo de ratinho geneticamente modificado que, quando exposto ao álcool, activa um gene que codifica uma proteína fluorescente vermelha, expressa de forma selectiva em neurónios sensíveis ao álcool. Ao seguir estes neurónios fluorescentes, conseguimos traçar um mapa das localizações exactas dos neurónios afectados.
Conjunto neuronal no córtex orbitofrontal medial
Identificámos um número bem delimitado de neurónios que responde ao consumo compulsivo de álcool numa região cerebral chamada córtex orbitofrontal medial. Esta área é conhecida por ter um papel determinante no controlo da tomada de decisões e na adaptação do comportamento a ambientes em mudança.
Verificámos também que, ao desligar este conjunto neuronal, o consumo de álcool nos ratinhos aumentava de forma acentuada. Isto sugere que o cérebro possui, em essência, um sistema de regulação integrado que é activado durante a ingestão de álcool e funciona como um travão ao seu consumo. Se estes neurónios falharem, o mecanismo regulador deixa de funcionar, o que poderá contribuir para um consumo descontrolado.
Tratamentos futuros
Embora este estudo aprofunde a compreensão de como e onde o consumo compulsivo de álcool modula a função cerebral em ratinhos, ainda não se sabe se o cérebro humano dispõe do mesmo conjunto neuronal.
Se dispuser, a estimulação desses neurónios poderá abrir uma via para ajudar pessoas que têm dificuldade em controlar a quantidade de álcool que consomem.
Terapia génica e controlo selectivo da actividade neuronal
Apesar de controlar selectivamente a actividade neuronal ser um desafio enorme, os avanços na terapia génica para doentes com cancro e outras doenças raras dão esperança de tratamentos mais eficazes para a perturbação do uso de álcool, com menos efeitos secundários.
Gilles Martin, Professor Associado de Neurobiologia, UMass Chan Medical School
Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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