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Ossos humanos encontrados na caverna inundada Sac Actun, no Iucatão, podem ter 10.000 anos

Mergulhador a examinar crânio humano e ossos no fundo do oceano com bloco de notas e fita métrica.

Os ossos humanos descobertos no interior de uma gruta mexicana inundada pertencem, ao que tudo indica, a um jovem que terá morrido há cerca de 10.000 anos, segundo investigadores.

Esta conclusão transforma uma câmara escondida sob o Iucatão numa nova pista de que alguns dos primeiros mortos da região poderão ter sido ali colocados.

Segredos dentro de um sistema de grutas

No fundo de uma câmara cavernosa, mergulhadores localizaram os ossos a cerca de 200 metros de profundidade no Sac Actun, um enorme sistema de grutas subaquáticas perto de Tulum, na costa caribenha do México.

Com base no crânio e em ossos longos recuperados, especialistas do Instituto Nacional de Antropologia e História do México (INAH) classificaram os restos como pertencendo a um homem adulto.

Os fragmentos indicam um indivíduo de constituição leve, com cerca de 1,45 m a 1,50 m de altura, que terá morrido por volta dos 20 a 25 anos.

Como apenas cerca de 40% do esqueleto foi preservado e o material se encontra muito frágil, os conservadores precisam de o estabilizar antes de avançar para análises mais detalhadas.

Indícios de utilização humana deliberada

O local foi assinalado por vestígios de carvão junto do cenote, uma depressão natural que dá acesso às águas subterrâneas.

A presença de madeira queimada é relevante porque o fogo deixa marcas identificáveis; essas marcas podem ajudar a perceber os movimentos de pessoas que ali pararam, trabalharam ou aguardaram.

“Existiam lareiras, o que indica que a gruta estava activa e que, provavelmente, quando esta pessoa morreu, utilizaram a câmara como uma cripta funerária natural, o que remete para certas crenças e ritos funerários”, afirmou Luis Alberto Martos Lopez, arqueólogo e conselheiro académico do projecto no INAH.

Ainda assim, a hipótese precisa de ser comprovada, uma vez que ossos partidos, por si só, não demonstram a realização de um rito funerário.

Pistas de uma paisagem submersa

Há 10.000 anos, Quintana Roo, no leste do México, tinha pouco em comum com as actuais localidades balneares e a linha de costa marcada por mangais.

O nível do mar encontrava-se cerca de 20 a 30 metros mais baixo, pelo que estas grutas funcionavam então como espaços secos, acessíveis a quem as quisesse explorar.

Na península, estendiam-se pradarias e matos, enquanto a megafauna - grandes animais da Idade do Gelo - se deslocava por vastas áreas. Esses animais recorriam às grutas como abrigo, locais de água e referências naturais na paisagem.

Este cenário antigo ajuda a explicar como um possível enterramento em rocha seca acabou, mais tarde, isolado sob um curso de água subterrâneo.

Uma região rica em restos humanos antigos

O Sac Actun não é um caso isolado: outras grutas inundadas nas proximidades revelaram alguns dos mais antigos restos humanos das Américas.

Uma revisão publicada em 2021 contabilizou dez esqueletos antigos provenientes de grutas submersas em torno de Tulum, antes de esta recuperação mais recente se tornar conhecida.

Entre os achados mais célebres está Naia, que viveu entre 13.000 e 12.000 anos atrás e ajudou a estabelecer ligações entre populações antigas e povos Indígenas posteriores.

Cada novo esqueleto é menos uma curiosidade avulsa e mais um contributo para um registo humano escasso.

Indícios a partir da estrutura esquelética

As primeiras estimativas centraram-se no sexo e na idade, já que a forma do crânio e os ossos longos oferecem pistas antes de se avançar para testes delicados.

Na bioarqueologia - o estudo de vidas passadas através de esqueletos - a espessura óssea e as inserções musculares podem sugerir sexo e compleição física.

Essa avaliação inicial apontou para um homem muito franzino, enquanto um segundo crânio encontrado na zona parece corresponder a uma mulher.

No caso dela, a idade provável situa-se entre os 35 e os 45 anos; a ausência de dentes, juntamente com sinais de subnutrição, poderá ajudar a clarificar outras causas de morte.

Conservação como prioridade

Antes de qualquer medição, é necessário impedir que os restos se desfaçam após séculos submersos.

Esse processo de consolidação - o reforço cuidadoso de material frágil - serve para evitar que o osso húmido descame quando começa a secar.

“A transferência e o estudo destes restos humanos recuperados em Quintana Roo representam um passo muito importante para a investigação sobre os primeiros habitantes do nosso território”, declarou Claudia Curiel de Icaza, secretária da Cultura do México.

Estas medidas podem parecer rotineiras, mas uma superfície fissurada pode apagar para sempre sinais sobre alimentação, doença e idade.

Surgimento de um segundo crânio

Depois de estabilizados, os cientistas irão medir o crânio feminino para estimar a sua estatura, traços faciais e possível ascendência.

Pequenas diferenças no tamanho craniano e nas proporções do rosto podem apontar para ascendência, stress de saúde e até para a aparência provável da face.

Neste ponto, os investigadores têm de actuar com especial prudência, sobretudo perante a hipótese preliminar de que ela possa ter tido ascendência africana.

Até estarem concluídos os testes de antropologia física, essa possibilidade permanece provisória e não deve ser tomada como uma identidade estabelecida.

Sinais de presença humana

Outros estudos em grutas perto de Tulum indicam que pessoas entraram repetidamente nas grutas do Iucatão entre 12.000 e 10.000 anos atrás.

Essas passagens deixaram marcas como lareiras, poços escavados e sinalizações em pedra - vestígios típicos de quem se orienta na escuridão.

Um esqueleto de Chan Hol, datado de pelo menos 9.900 anos, reforça a ideia de visitas ao longo de séculos.

Os ossos agora identificados no Sac Actun enquadram-se nesse padrão mais amplo, ainda que a narrativa de enterramento continue por esclarecer.

Preservar um arquivo subaquático

Estas grutas funcionam como arquivos tanto quanto como locais de sepultamento, já que água, minerais e ausência de luz protegem pistas que, ao ar livre, se perderiam.

Um desabamento do tecto de uma câmara ou a poluição do aquífero pode destruir o contexto, separando os ossos das marcas que lhes dão significado.

À medida que surgem mais fósseis, cresce também o valor de manter intacta a rede de grutas, mergulho após mergulho.

O que ali permanece não é apenas osso, mas o cenário que transforma osso em história.

Os restos do Sac Actun entrelaçam três narrativas - um jovem, uma mulher nas proximidades e uma paisagem desaparecida.

À medida que o trabalho laboratorial evolui da estabilização para a medição, as respostas mais claras deverão surgir quando se relacionarem os ossos com as respectivas câmaras.

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