A Food and Drug Administration (FDA) dos EUA emitiu um aviso urgente sobre a tianeptina - uma substância vendida como suplemento alimentar, mas conhecida no mercado informal como “heroína de bomba de gasolina”.
Apesar de nunca ter sido aprovada para uso médico nos EUA, tem sido associada a sobredosagens e mortes e continua a ser comercializada em postos de combustível, lojas de tabaco e vaporizadores e através de retalhistas online.
O que é, afinal, a tianeptina - e porque está a gerar tanta preocupação?
O que é a tianeptina e porque é chamada “heroína de bomba de gasolina”
A tianeptina foi desenvolvida em França na década de 1960 e acabou por ser autorizada para utilização clínica no final dos anos 1980 como tratamento para a depressão.
Do ponto de vista estrutural, lembra os antidepressivos tricíclicos - uma classe mais antiga -, mas o seu modo de actuação é bastante diferente. Em vez de aumentar tipicamente os níveis de serotonina, como acontece com muitos antidepressivos convencionais, a tianeptina parece actuar sobre o sistema do glutamato no cérebro, que está ligado à aprendizagem e à memória.
Em vários países da Europa, da Ásia e da América Latina, é utilizada como medicamento sujeito a receita médica, sob marcas como Stablon ou Coaxil. Mais tarde, porém, investigadores identificaram uma particularidade relevante: a tianeptina também activa os receptores mu-opioides no cérebro - os mesmos sobre os quais actuam a morfina e a heroína - o que explica a alcunha “heroína de bomba de gasolina”.
Em doses prescritas, esse efeito tende a ser discreto; mas, em quantidades elevadas, pode provocar euforia, sedação e, com o tempo, dependência. Quem procura um efeito recreativo pode ingerir doses muito acima de qualquer recomendação em contexto médico.
Como é vendida nos EUA e que falhas de controlo estão a ser exploradas
Mesmo sem aprovação da FDA, a substância tem sido colocada no mercado norte-americano como produto de “bem-estar” ou como nootrópico - isto é, algo alegadamente destinado a melhorar o humor ou a clareza mental. Surge em cápsulas, pó ou líquido, muitas vezes com rotulagem enganosa que a apresenta como suplemento alimentar.
Esta brecha facilita que algumas empresas contornem a supervisão regulatória. Produtos como Neptune's Fix foram divulgados como alternativas seguras e legais a medicamentos tradicionais, apesar de não existirem mecanismos de acompanhamento clínico e de, por vezes, conterem ingredientes não declarados ou perigosos.
Em determinadas amostras, foram mesmo detectados canabinóides sintéticos e outras substâncias. Segundo dados dos centros de controlo de intoxicações dos EUA, as chamadas relacionadas com exposição à tianeptina aumentaram mais de 500% entre 2018 e 2023. Só em 2024, a substância esteve envolvida em mais de 300 casos de intoxicação. O mais recente comunicado da FDA incluiu recolhas de produtos e alertas relativos a importações.
Riscos, dependência e sinais clínicos
Em fóruns e nas redes sociais, incluindo no Reddit - onde existe um canal dedicado -, utilizadores descrevem tanto os efeitos procurados como síndromes de abstinência particularmente duros. Há relatos de pessoas a tomar centenas de comprimidos por dia. Outros referem dificuldades em abandonar o consumo, com desejos intensos e recaídas que se assemelham ao padrão observado na dependência de opioides clássicos.
Como a tianeptina não aparece nos rastreios toxicológicos habituais, é possível que profissionais de saúde não a identifiquem. De acordo com médicos na América do Norte, a substância pode estar presente em doentes hospitalizados sem ser detectada, sobretudo em situações com convulsões ou sintomas cardíacos atípicos.
As descrições de abstinência incluem sintomas semelhantes aos de opioides, como o fentanil: ansiedade, tremores, insónia, diarreia e dores musculares. Em alguns casos, houve necessidade de hospitalização por convulsões, perda de consciência e depressão respiratória.
Legalidade no Reino Unido
No Reino Unido, a tianeptina não está autorizada para uso médico pela agência reguladora de medicamentos e produtos de saúde e também não é classificada como substância controlada ao abrigo da Lei do Uso Indevido de Drogas de 1971. Na prática, isto deixa-a numa zona cinzenta: não é formalmente aprovada, mas também não é ilegal possuir.
É possível comprá-la online a fornecedores no estrangeiro e uma pesquisa rápida mostra dezenas de vendedores a oferecer pó e cápsulas de “grau de investigação”.
Há pouca evidência de que a tianeptina esteja a circular de forma significativa no Reino Unido; até ao momento, apenas uma amostra confirmada foi registada publicamente numa base de dados nacional de testagem de drogas. Não surge em comunicados recentes do Home Office ou do Advisory Council on the Misuse of Drugs e também não aparece nas estatísticas oficiais de criminalidade ou hospitalares.
Ainda assim, isso pode simplesmente significar que ninguém a está a procurar. Sem protocolos de testagem implementados, é possível que exista consumo, mas sem registo.
Devido à sua estrutura química e aos seus efeitos pouco comuns, se a tianeptina aparecesse num serviço de urgência no Reino Unido poderia ser facilmente confundida com uma sobredosagem de antidepressivos tricíclicos - ou até ser descartada como consumo recreativo de drogas. Isto complica o diagnóstico e dificulta que o tratamento seja o mais adequado.
É plausível que a substância venha a atrair, em particular, pessoas à procura de alternativas a opioides mais difíceis de obter ou quem procure um “high” legal. Com baixa visibilidade, acesso online e potencial aditivo, a tianeptina reúne muitos dos factores que, no passado, tornaram populares drogas como a mefedrona ou o spice antes de serem proibidas.
O Reino Unido já assistiu a vagas de novas substâncias psicoactivas a surgir por vias semelhantes: primeiro online ou em lojas especializadas, depois a disseminarem-se de forma discreta até haver resposta das autoridades. Se a tianeptina seguir o mesmo percurso, quando finalmente entrar no radar, os danos poderão já estar a acontecer.
Michelle Sahai, Bioquímica Computacional, Brunel University of London
Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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