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Stress no trabalho: sistema nervoso e dores de cabeça

Homem sentado a trabalhar no computador, com expressão de dor de cabeça e chá na mão.

Muitas pessoas terminam o dia de trabalho não apenas cansadas, mas também em sobressalto. A mente continua acelerada, o corpo mantém-se tenso e, mesmo nos momentos que deveriam ser de descanso, persiste uma sensação de urgência.

As conversas voltam a passar em repetição, as tarefas por concluir reaparecem e o sistema nervoso parece recusar-se a desligar.

É provável que reconheça esta experiência. Tornou-se tão frequente que, na vida profissional moderna, muitas vezes é tratada como algo normal.

No entanto, este estado de activação contínua tem consequências para a saúde física - sobretudo em pessoas com tendência para dores de cabeça.

Como neurologista com certificação e especialização em medicina das cefaleias, acompanho muitos doentes cuja dor aumenta com a cultura laboral de elevada pressão que hoje é comum. Ainda que pareça algo fora do seu controlo, há medidas que pode adoptar.

Stress e o sistema nervoso

O stress, por si só, não é necessariamente prejudicial. Aliás, quando surge em períodos curtos, pode ser útil: melhora o foco, aumenta o desempenho e prepara o organismo para lidar com desafios.

O problema aparece quando o stress se torna crónico e implacável.

O sistema nervoso é quem detecta e processa tanto o stress como a dor. Foi concebido para ser muito adaptável, respondendo continuamente a sinais internos e a factores externos, reajustando-se para manter o equilíbrio.

Quando o cérebro interpreta de forma constante que existem exigências contínuas sem recuperação suficiente, mantém o corpo num estado prolongado de alerta.

Durante estas fases de stress contínuo, hormonas como o cortisol e a adrenalina permanecem persistentemente elevadas.

Neste estado de sensibilização, sinais que normalmente seriam ignorados - ou entendidos como pouco relevantes - podem começar a ser sentidos como muito mais intensos. Isto conduz a aumento da frequência cardíaca e a tensão muscular sustentada, com o sistema nervoso a entrar num modo de “luta ou fuga” quase permanente.

No caso das dores de cabeça, esta sensibilização pode baixar o limiar da dor, tornando mais fácil o início de uma cefaleia e mais difícil que ela cesse.

Com o tempo, esta activação constante pode desregular o equilíbrio natural do organismo e criar condições para que perturbações de cefaleias surjam ou piorem.

O stress crónico funciona simultaneamente como gatilho e como factor de agravamento das enxaquecas. O sistema neurológico de quem tem enxaqueca tende a ser relativamente mais reactivo a mudanças ambientais, incluindo variações nos padrões de sono, no ambiente, nas flutuações hormonais e na intensidade do stress.

Isto significa que uma exposição persistente ao stress pode aumentar a frequência e a gravidade dos episódios de enxaqueca. Além disso, a tensão muscular no pescoço, ombros e couro cabeludo - um efeito frequente do stress - também pode provocar cefaleias de tensão.

Períodos prolongados sentados, concentração mantida e tensão física ao longo do dia de trabalho podem contribuir para o aparecimento de cefaleias de tensão nas horas mais tardias do dia.

O papel do sono

O stress crónico também pode afectar de forma profunda a qualidade do sono.

Muitas pessoas que se sentem “ligadas” no final do dia têm dificuldade em adormecer ou em manter o sono. Esse sono agitado pode não ter as características restauradoras necessárias para a recuperação.

Por sua vez, dormir mal alimenta o ciclo do stress, deixando o cérebro ainda mais sensibilizado e aumentando a probabilidade de dores de cabeça no dia seguinte.

Este ciclo pode ser difícil de interromper, porque a fadiga reduz a capacidade de resistência e amplifica a sensação de estar sobrecarregado associada ao stress.

Para além de interferir com o sono, o stress crónico prejudica a concentração e a função cognitiva.

Quando o cérebro permanece num estado de vigilância constante, a procurar exigências e ameaças, torna-se mais difícil manter o foco, ser criativo e resolver problemas.

Como resultado, a produtividade diminui, os erros tornam-se mais frequentes e a frustração aumenta, somando-se à carga global de stress.

As dores de cabeça que aparecem em simultâneo com estas dificuldades cognitivas podem perturbar ainda mais o quotidiano, fazendo com que até tarefas rotineiras pareçam difíceis.

Gerir o stress no trabalho

Compreender a ligação entre o stress e o sistema nervoso ajuda a identificar medidas para retirar o sistema nervoso do estado de activação permanente.

Nunca irá eliminar por completo o stress - isso não é realista nem necessário. Ainda assim, é possível criar, de forma intencional, espaço para o corpo reiniciar:

  • Crie pequenas transições no dia. Em vez de passar imediatamente do trabalho para outras obrigações, reserve cinco a 10 minutos entre actividades para parar, respirar fundo, alongar ou simplesmente estar em silêncio. Mesmo pausas curtas podem reduzir a tensão muscular e baixar os níveis de hormonas do stress.
  • Inclua actividade física na rotina. Movimento regular - como caminhar, yoga ou alongamentos suaves - ajuda a regular o sistema nervoso ao processar as hormonas do stress com maior eficiência. Também melhora o fluxo sanguíneo e promove a libertação de endorfinas, que são moduladores naturais da dor.
  • Esteja atento à postura e à ergonomia. Ajuste a cadeira ou a altura do ecrã, faça pausas para se mexer e relaxe os ombros e a mandíbula para prevenir cefaleias de tensão.
  • Explore práticas baseadas em mindfulness. Técnicas como meditação, varrimento corporal e respiração focada podem treinar o cérebro a responder ao stress com maior flexibilidade.
  • Tente definir limites em torno do trabalho. Quando for possível, reduza os e-mails fora de horas, estabeleça um fim claro para o dia e identifique certas zonas da casa como áreas sem trabalho.
  • Procure apoio se as dores de cabeça persistirem. Uma avaliação médica pode investigar causas subjacentes e orientar opções de tratamento adequadas. Fisioterapia, terapia comportamental e terapia de reprocessamento da dor podem abordar contributos físicos e emocionais para as cefaleias.

Estratégias pequenas, consistentes e orientadas tanto para factores biológicos como para hábitos de vida podem reduzir os efeitos do stress crónico e favorecer a regulação do sistema nervoso.

Com o tempo, estas abordagens podem diminuir gradualmente a frequência e a gravidade das dores de cabeça, melhorando a qualidade de vida global.

Danielle Wilhour, Professora Assistente de Neurologia, University of Colorado Anschutz

Este artigo foi republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.

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