As câmaras de conservação estão instaladas há anos numa propriedade dedicada à conservação em El Danubio, numa zona de grande altitude. O local fica a mais de 2,000 metros (6,560 pés) pelas encostas acima de Cali.
Na maioria das vezes, estes equipamentos registam pumas, veados e, ocasionalmente, um tigrilho com a pelagem pintalgada habitual.
Em março, porém, as imagens revelaram um animal diferente. Um tigrilho atravessou o enquadramento, mas com uma pelagem quase totalmente negra - uma variação que nunca tinha sido observada nesta área.
Silhueta de um recém-chegado
O animal identificado era um tigrilho - nome científico Leopardus tigrinus, também conhecido como gato-tigre-do-norte ou oncila.
Esse registo é apenas um entre 44,277 captados por armadilhas fotográficas ao longo de 6,216 dias acumulados de trabalho de campo.
Todo o sistema é operado pela agência ambiental da cidade, o Departamento Administrativo de Gestão do Meio Ambiente (DAGMA).
Os investigadores acompanhavam a presença de jaguares, pumas, veados e jaguatiricas, mas um tigrilho de pelagem escura não estava entre as possibilidades consideradas.
Registo raro confirmado
Lina Marcela Botia Muñoz, directora do DAGMA, confirmou a ocorrência através da rede de observação de vida selvagem Red Otus.
Já existiam registos de tigrilhos com esta coloração muito escura, mas apenas dentro do Parque Nacional Farallones de Cali. Em El Danubio, logo fora desse limite, nunca tinha sido documentado um caso.
“Este registo reafirma o nosso compromisso com a protecção e conservação da nossa biodiversidade e dos nossos ecossistemas”, afirmou Botia Muñoz.
Importância do melanismo
A coloração negra resulta do melanismo, uma condição genética que aumenta a quantidade de pigmento na pele e no pelo.
O padrão pintalgado continua presente, mas fica praticamente oculto no fundo escurecido da pelagem. À primeira vista, o animal pode até ser confundido com uma espécie diferente de felino.
Catalina Silva, bióloga do Grupo de Conservação de Ecossistemas do DAGMA, explicou a origem de forma simples.
“Esta condição vem de uma variação genética específica que produz em excesso o pigmento melanina na pele e no pelo”, disse Silva.
Um estudo genético identificou a mesma família de mutações por detrás desta pelagem escura em leopardos, jaguares e vários outros felinos selvagens.
Isso ajuda a perceber porque é que a pelagem preta volta a surgir, de forma independente, em diferentes ramos da família dos gatos.
Uma das raridades da natureza
O melanismo ocorre em cerca de onze das 37 espécies conhecidas de felinos selvagens. Os exemplos mais célebres são os jaguares e os leopardos, associados aos chamados panteras-negras.
Mesmo captar um tigrilho em câmara, em qualquer lugar, já é difícil. Trata-se de uma espécie pequena, nocturna, discreta e confinada a fragmentos florestais cada vez menores. Um indivíduo de pelagem escura é ainda mais invulgar.
Olhar para além da genética
A genética esclarece de que forma a pelagem escura se forma, mas não explica porque é que se mantém em algumas populações e não noutras.
Uma hipótese aponta para a camuflagem: numa floresta nublada densa e com pouca luz, um animal mais escuro pode caçar com maior eficácia ou, simplesmente, permanecer oculto durante mais tempo.
Outra possibilidade relaciona-se com a temperatura corporal - um pelo mais escuro poderá reter melhor o calor em ambientes frios e de grande altitude.
Um artigo recente sobre a evolução da família dos felinos acrescenta uma terceira ideia: o melanismo poderá influenciar a forma como os gatos comunicam entre si em habitats com baixa visibilidade.
Nenhuma destas explicações está totalmente estabelecida. O registo em Cali também não as vai comprovar, mas cada novo caso acrescenta um ponto de dados a um conjunto global ainda reduzido.
Uma espécie em declínio
O gato-tigre-do-norte está classificado como Vulnerável pela União Internacional para a Conservação da Natureza, ameaçado pela perda de habitat, pela caça e pelo tráfico ilegal de vida selvagem.
A espécie distribui-se da Costa Rica ao Brasil, mas, na Colômbia, ocorre sobretudo acima dos 1,500 metros (4,900 pés) - precisamente em algumas das áreas mais intensamente desenvolvidas do país.
Estradas, mineração e expansão agrícola representam riscos adicionais. Estes factores tornam frágeis as florestas de que o tigrilho depende, reduzindo ainda mais o pouco habitat que resta.
Manchas florestais a encolher
Um estudo de 2022 cartografou a distribuição remanescente do tigrilho na Colômbia e estimou uma população nacional em torno de 10,375 indivíduos, com grande incerteza.
O habitat adequado encontra-se dividido em 183 manchas. Cerca de 155 dessas manchas têm menos de 20 quilómetros quadrados (7,7 milhas quadradas). Apenas 12 manchas concentram mais de 83% do habitat remanescente do país.
Aproximadamente metade destas manchas fica fora de qualquer área protegida. O Parque Nacional Farallones de Cali, que faz fronteira com El Danubio, é um dos apenas sete bastiões nacionais que a análise destacou para a espécie.
Lacunas na evidência
A estimativa de cerca de 10,375 indivíduos tem uma margem de incerteza elevada. Os valores de densidade usados nesse cálculo foram derivados de uma espécie aparentada no Brasil.
No entanto, não existem dados equivalentes especificamente para o tigrilho na Colômbia. Além disso, os modelos de distribuição basearam-se em registos até 2019, e o habitat andino continuou a transformar-se desde então.
Novos dados para a conservação
A armadilha fotográfica de El Danubio acrescenta uma peça que antes não existia: a confirmação de um tigrilho de pelagem escura.
A observação não só demonstrou a presença do animal, como também registou que estava vivo e em movimento, numa propriedade de conservação activa e a grande altitude.
Este tipo de informação pode alterar quais os terrenos a priorizar para monitorização e que corredores devem receber protecção.
O melanismo documentado para lá da fronteira do parque também sugere que esta característica pode ser mais comum do que indicam os registos confirmados.
Trata-se de um dado concreto num historial limitado. Para uma espécie ainda pouco compreendida, cada observação validada tem peso e importância.
A Colômbia não pode continuar a perder o rasto do tigrilho. Um felino negro filmado a 2,000 metros (6,560 pés) numa encosta de Cali é exactamente o tipo de evidência que pode orientar futuros esforços de conservação.
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