A energia hidroelétrica quase nunca está no centro das atenções. As notícias tendem a destacar a energia solar e a eólica, enquanto o nuclear gera discussão. Entretanto, as barragens continuam a trabalhar de forma constante, longe dos holofotes.
Produzem eletricidade, transformam rios e ajudam a responder ao aumento da procura energética. Para muita gente, parecem uma solução já resolvida e sem grandes dúvidas.
Um novo estudo da Universidade Estatal do Michigan vem abalar essa sensação de segurança. O trabalho não faz uma campanha contra a energia hidroelétrica em si; o que sublinha é algo mais inquietante.
Já sabemos, à escala mundial, como construir barragens com mais responsabilidade - e, ainda assim, insistimos em ignorar esse conhecimento.
A energia hidroelétrica domina a eletricidade renovável
A energia hidroelétrica é responsável por mais de metade da eletricidade renovável do mundo. À primeira vista, o valor impressiona e muitas vezes encerra a conversa antes de começar.
Só que este número mostra apenas uma parte do quadro. Contabiliza quilowatt-hora, mas não inclui custos sociais e ambientais.
Pescarias perdidas, comunidades deslocadas e ecossistemas degradados não entram nas estatísticas energéticas.
O estudo questiona por que razão estes impactos continuam fora do debate principal.
Custos para além da eletricidade
As grandes barragens alteram os rios de forma permanente. Interrompem a migração de peixes, mudam o regime de caudais e retêm sedimentos. A partir daí, os efeitos propagam-se por ecossistemas inteiros.
O impacto atinge também as pessoas. Aldeias podem ficar submersas. Modos de vida dependentes do rio desaparecem. Ainda assim, estas consequências raramente recebem a mesma atenção que a produção energética.
“A energia hidroelétrica tem sido vendida como uma solução para as necessidades energéticas de um país, mas os nossos estudos mostram que, na maioria dos casos, os países que constroem grandes projetos hidroelétricos esquecem-se de garantir que os danos são minimizados nas comunidades locais”, afirmou Emilio Moran, coautor do estudo da Universidade Estatal do Michigan.
“As grandes barragens provocam danos irreversíveis nos ecossistemas fluviais, nas pescarias e nos meios de subsistência dos pescadores.”
Depois de um sistema fluvial ser transformado, não regressa ao estado original. E os efeitos prolongam-se ao longo de gerações.
Um guia global deixado para trás
Há cerca de 25 anos, especialistas elaboraram um quadro detalhado para melhorar a forma como se constroem barragens. A Comissão Mundial de Barragens definiu métodos para reduzir danos sem abdicar da produção de energia.
As orientações eram concretas e apoiadas em investigação. Indicavam um caminho viável.
Ainda assim, os principais países que constroem barragens optaram por não as seguir. Preocupações com custos e prazos falaram mais alto, e o enquadramento acabou por ser colocado de lado.
Atualmente, muitos projetos repetem os mesmos problemas do passado. As comunidades continuam a enfrentar deslocações. Os ecossistemas continuam a sofrer perturbações.
Há, no entanto, uma diferença marcante. As comunidades afetadas passaram a ligar-se além-fronteiras. Grupos de países diferentes partilham experiências e estratégias. Essa troca global reforça a resistência e aumenta a consciencialização.
Os rios funcionam como sistemas
As barragens costumam ser planeadas caso a caso. Cada obra é avaliada isoladamente. Esta lógica não acompanha a forma como os rios realmente funcionam.
Um rio é um sistema interligado. O que acontece a montante influencia tudo a jusante. O transporte de sedimentos, o movimento de peixes e a temperatura da água estão todos conectados.
O estudo defende planeamento à escala da bacia hidrográfica. Ao ampliar o olhar, os decisores conseguem perceber o impacto total antes de iniciar a construção.
Oportunidades de energia híbrida
Quando se analisa um sistema fluvial como um todo, surgem alternativas adicionais. Reservatórios já existentes podem receber painéis solares flutuantes. Aerogeradores podem aproveitar infraestruturas já instaladas para a energia hidroelétrica.
Além disso, existem tecnologias capazes de produzir energia a partir de água corrente sem grandes barreiras. Estas soluções já estão disponíveis e funcionam em várias regiões.
Desta forma, é possível aumentar a produção energética reduzindo, ao mesmo tempo, o dano ambiental.
As comunidades precisam de ter voz
Os projetos tradicionais de barragens seguem frequentemente um modelo de cima para baixo. Governos e empresas decidem; as comunidades locais ficam com pouca influência.
O estudo aponta para uma alternativa. Defende decisões partilhadas, com a participação das comunidades afetadas desde o início. O contributo dessas populações deve influenciar se o projeto avança e, caso avance, de que modo.
Esta mudança pode trazer mais justiça e melhores resultados.
De consumidores a produtores de energia
Entra aqui o conceito de prosumidor, que acrescenta mais uma camada ao debate. Refere-se a pessoas que consomem energia e também a produzem.
“Um modelo assim daria poder às comunidades locais e Indígenas para se tornarem simultaneamente produtoras e consumidoras da sua própria energia”, afirmou Sergio Villamayor Tomas, coautor do estudo.
“Esta abordagem pode ajudar a democratizar o sistema elétrico e garantir que quem é mais afetado pelos projetos energéticos também consegue beneficiar deles, o que, em geral, não tem acontecido até à data.”
Este modelo desloca poder para as comunidades. Permite-lhes participar nos benefícios, em vez de suportarem apenas os custos.
Renovável não é o mesmo que sustentável
A energia hidroelétrica é renovável porque depende de água em movimento. No entanto, renovável não significa automaticamente sustentável.
A sustentabilidade exige equilíbrio ambiental e social a longo prazo. Um projeto pode gerar energia limpa e, ainda assim, deixar danos duradouros.
O estudo realça a importância de separar estas duas ideias nas discussões públicas.
As soluções já existem
“No entanto, com um planeamento mais estratégico, governação horizontal e soluções lideradas pelas comunidades, o nosso trabalho demonstra que as ferramentas para um caminho melhor já existem”, afirmou Maria Claudia Lopez, coautora do estudo.
“A questão não é se governos e investidores irão satisfazer as suas necessidades energéticas, mas [se o farão] sem sacrificar os ecossistemas vitais do mundo.
“As ferramentas e os enquadramentos já existem, e este artigo é uma contribuição importante ao destacá-los e ao fazer avançar as discussões em curso sobre a transição energética.”
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