Caminhe por um campo no final do verão. A terra foi lavrada, pulverizada e limpa da camada de restos orgânicos. A ciência tem quantificado as perdas: menos espécies, menor abundância e uma teia de vida menos complexa.
Parte-se muitas vezes do princípio de que as terras agrícolas são uma versão simplificada do que o solo já foi. Essa ideia acaba de esbarrar num problema.
Um censo global do solo
A biodiversidade do solo representa cerca de 59% de todas as espécies conhecidas, segundo uma estimativa recente.
A maioria dessas espécies vive debaixo da superfície: minhocas, ácaros, colêmbolos, nemátodes, escaravelhos, formigas e os predadores que os caçam.
Uma equipa internacional, coordenada por investigadores da Universidade de Göttingen, reuniu mais de 17,000 amostras de solo provenientes de 456 locais em 19 países.
Essas amostras abrangiam 28 grandes grupos de animais subterrâneos.
O Dr. Zheng Zhou, primeiro autor do estudo, trabalhou com colegas de vários pontos da Europa e da Ásia para compilar esta base de dados.
A pergunta não era quantas espécies havia em cada pedaço de terreno. O foco estava no que esses animais estavam a comer.
Interpretar assinaturas de isótopos
Para seguir as dietas sem ter de observar cada animal a alimentar-se, a equipa recorreu a isótopos estáveis - proporções de átomos de carbono e de azoto presentes nos tecidos de cada organismo.
As proporções de carbono indicam a origem do alimento: material vegetal fresco, folhas mortas ou matéria já transformada por microrganismos.
As proporções de azoto mostram a posição na cadeia alimentar - se o animal se alimenta de plantas, fungos ou de outros animais que, por sua vez, consomem esses recursos.
Quando se colocam suficientes “impressões digitais” químicas no mesmo gráfico, surge uma imagem à escala da comunidade. Quanto maior a dispersão, maior a diversidade de estratégias de alimentação.
O solo agrícola estava mais ativo
Foi então que surgiu a surpresa. As comunidades de animais do solo em sistemas agrícolas exibiram 32% mais variedade nas estratégias de alimentação do que as de áreas florestais.
O solo cultivado - que a maioria dos ecólogos tende a considerar mais simples - apresentou um leque alimentar mais amplo, e não mais reduzido.
Este padrão repetiu-se em detritívoros, consumidores de microrganismos e predadores. Em terras agrícolas, cada um destes grupos alargou a dieta mais do que em floresta.
Já os herbívoros e os alimentadores mistos, pelo contrário, quase não se alteraram.
As dietas mais variadas
Dentro de qualquer comunidade, os organismos que se alimentam de microrganismos - incluindo colêmbolos, ácaros e nemátodes - foram os que mostraram as dietas mais diversificadas.
A amplitude alimentar deste grupo foi cerca de 62% superior à dos detritívoros e 69% superior à dos predadores.
O tamanho reduzido deverá ajudar. Os consumidores de microrganismos cabem nos poros minúsculos entre partículas do solo, onde encontram um mosaico de bactérias e fungos com químicas distintas.
Um único ácaro ou colêmbolo pode “provar” dezenas de sabores microbianos ao longo da vida. Um detritívoro a processar uma folha tem menos alternativas.
A competição intensa pode fazer a diferença
O segundo padrão marcante apareceu ao longo da latitude. Os solos tropicais apresentaram cerca de 40% mais variedade de alimentação do que os solos temperados, e a maior diferença verificou-se entre os predadores.
Nessas regiões, os solos antigos e muito meteorizados são pobres em nutrientes. A manta de detritos não se acumula como acontece em florestas mais frias.
A competição torna-se intensa, e os animais parecem dividir os recursos de forma mais fina apenas para conseguirem coexistir.
Ainda assim, não se sabe se este padrão é explicado pela competição intensa ou por outro fator.
O efeito da escassez
À primeira vista, o “menu” mais amplo das terras agrícolas soa paradoxal. Mas, ao aprofundar a análise, começa a desenhar-se uma explicação.
As florestas fornecem alimento abundante e previsível - uma camada espessa de folhada e um fornecimento microbiano relativamente constante. Quando há comida a mais, os animais do solo tendem a convergir para os mesmos itens.
Nas áreas agrícolas, grande parte dessa estabilidade desaparece. Os resíduos vegetais são removidos, os fertilizantes chegam em pulsos e as mobilizações do solo interrompem repetidamente a estrutura, deixando recursos alimentares irregulares e escassos.
Os sobreviventes não ficam à espera. Agarram-se de forma oportunista ao que estiver disponível, e diferentes grupos acabam por explorar restos distintos. As “funções” alimentares afastam-se umas das outras.
Animais do solo ajustam-se a mudanças no uso do solo
Os investigadores tiveram o cuidado de não apresentar isto como uma boa notícia. A maior amplitude de dieta provavelmente traduz escassez, não abundância.
“Isso não significa que a agricultura seja benéfica para a biodiversidade do solo”, disse o Dr. Zhou.
Os animais estão a esticar a dieta porque os seus alimentos preferidos já não existem ali. Essa flexibilidade pode manter a ciclagem de nutrientes e a decomposição em funcionamento, mesmo quando os campos perdem espécies.
Também levanta uma hipótese mais sombria: talvez só os generalistas permaneçam, e talvez não consigam desempenhar todas as tarefas que antes estavam a cargo dos especialistas.
“Os nossos resultados mostram que as comunidades de animais do solo ajustam a sua posição específica numa cadeia ou teia alimentar, com alterações no uso do solo”, afirmou Stefan Scheu, professor de ecologia animal.
Implicações mais amplas do estudo
Até este trabalho, ninguém tinha testado, nesta escala, se a agricultura simplifica de facto o mundo subterrâneo naquilo que mais importa para o funcionamento do ecossistema: a forma como as comunidades se alimentam.
A resposta acabou por ser negativa. Em solos agrícolas, os animais alimentam-se numa faixa mais ampla do que os de florestas próximas, mesmo quando a lista de espécies encolhe.
Estudos anteriores defenderam que o funcionamento do solo acompanha mais de perto a diversidade de alimentação do que a simples contagem de espécies - um ponto sublinhado numa revisão influente.
O que esta nova base de dados acrescenta é a abrangência global e a comparação com o uso do solo - algo que nenhum estudo anterior conseguira fazer em 456 locais de 19 países.
A questão que permanece é se esta troca se mantém a longo prazo, quando os especialistas desaparecerem de vez. A resposta irá orientar a forma como as explorações agrícolas são geridas e como são modeladas à medida que o clima aquece.
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