Numa rua lateral estreita de Bordéus, o aroma a café e a brioche acabada de sair do forno começa a sugerir algo claramente mais meridional e banhado de sol.
Longe do habitual tiramisù servido em copo, uma nova pastelaria está, discretamente, a mudar a ideia que muitos locais têm sobre o aspeto e o sabor das sobremesas italianas.
Uma nova pastelaria italiana que vai além do tiramisù
Peça a alguém em França ou no Reino Unido para citar uma sobremesa italiana e a resposta tende a ser óbvia: tiramisù. Com sorte, surge também a panna cotta. No entanto, das vitrinas de Nápoles a Palermo, as pastelarias exibem dezenas de bolos regionais, fritos e pães recheados que raramente atravessam fronteiras.
É precisamente esse vazio que a Caterina, uma nova pastelaria no centro de Bordéus, quer ocupar. O espaço é conduzido por Ciro, padeiro de Nápoles, e pela sua parceira, Clémentine. Ambos se cansaram do mesmo padrão que viam em França: comida italiana por todo o lado, mas a vertente doce reduzida a uma única estrela.
“Na Caterina, o objetivo é simples: mostrar aquilo que os italianos realmente comem como sobremesa, e não apenas o que os turistas reconhecem nas ementas.”
Ciro conta que, quando chegou a França, quase todas as cartas de sobremesas “à italiana” giravam à volta de uma única receita. A resposta foi fazer no forno o que lhe fazia falta de casa e montar uma montra mais próxima de um bar de pastelaria napolitano do que de um canto temático numa brasserie.
A paixão discreta de Bordéus por comida italiana
O momento não é coincidência. Os clientes franceses já adotaram clássicos salgados italianos: massa, pizza, risotto e arancini passaram a fazer parte do dia a dia, especialmente durante a semana. Nas redes sociais, o tiramisù é uma das sobremesas mais partilhadas, continuamente reinventada com pistácio, frutos vermelhos ou cremes de chocolate e avelã.
Vídeos curtos com palitos embebidos em café e creme de mascarpone a ser batido tornaram-se um íman de atenção no TikTok e no Instagram. Muitos amadores de cozinha aprendem a montar camadas de tiramisù muito antes de dominarem a massa choux.
A Caterina aproveita esse entusiasmo, mas direciona-o para outros caminhos. Em vez de rejeitar a sobremesa “culto”, usa-a como ponto de entrada familiar e, a partir daí, convida a provar especialidades menos conhecidas de várias regiões de Itália.
O que se encontra na montra da Caterina
Sim, há tiramisù - seria estranho não existir. Só que aqui funciona mais como referência do que como ideia única. À versão clássica de café junta-se uma interpretação mais aromática, que combina pistácio e flor de laranjeira, um casamento bem conhecido no sul de Itália.
“A vitrina mistura favoritos reconhecíveis, como o tiramisù, com escolhas mais arrojadas: pães recheados, aros de choux fritos e rolos de massa estaladiça.”
Doces de assinatura que definem o espaço
- Tiramisù clássico de café – palitos tipo champanhe embebidos em café, alternados com creme de mascarpone e finalizados com cacau por cima.
- Tiramisù de pistácio e flor de laranjeira – mais verde, mais rico em frutos secos e mais floral do que o original, pensado para fãs declarados de pistácio.
- Brioche de pistácio – massa macia e enriquecida, recheada com um creme generoso de pistácio, ideal com café ou como pequeno-almoço demorado.
- Cannolo siciliano – tubos fritos e estaladiços, recheados com creme e terminados com pistácios trazidos da Sicília.
- Maritozzo – pão doce ao estilo romano, aberto e recheado com creme; aqui, com sabor a pistácio ou avelã.
- Zeppola com limão e cereja – aro de massa choux, coberto ou recheado com creme, equilibrado por citrinos e fruta.
Ler esta lista é quase um curso intensivo de geografia italiana. Os maritozzi associam-se a Roma e ao Lácio, os cannoli à Sicília, e as zeppole ao sul de Itália. Ao colocá-los lado a lado, a loja convida a “viajar” pela península sem sair de Bordéus.
Bebidas servidas ao estilo de Nápoles
Nas bebidas, a Caterina assume as origens. O café é preparado numa cafeteira moka, o clássico aparelho de fogão que muitas famílias italianas usam todos os dias. O resultado sai mais intenso do que um café de filtro, um pouco mais denso, e é servido em chávenas pequenas, não em canecas grandes.
Para quem prefere algo mais leve, há também chás italianos frios. A maior parte dos produtos pode ser consumida ao balcão ou levada para uma pausa da tarde numa das praças próximas de Bordéus.
Tudo feito na casa - e os clientes reparam
Um dos argumentos centrais da Caterina é que tudo é apresentado como produzido artesanalmente no local. As massas são amassadas internamente, os cremes cozinham-se na cozinha das traseiras e algumas coberturas são importadas de forma seletiva - sobretudo pistácios da Sicília, frequentemente mais intensos no sabor e também mais caros.
“A pastelaria destaca uma produção ‘100% caseiro’, um pormenor que os habituais identificam e referem nas avaliações online.”
As primeiras reações têm sido muito positivas. No Google, o espaço já reúne uma classificação média elevada, perto de 4.9 out of 5, com comentários que sublinham repetidamente a frescura, a simpatia do atendimento e o alívio de encontrar algo para lá do alinhamento habitual de clássicos franceses.
Em Bordéus - cidade de canelés e de padarias tradicionais - um conceito tão específico acaba por sobressair. Propõe outro ritual: um espresso rápido com um doce pequeno, em vez de uma sobremesa longa no fim de uma refeição de restaurante.
Porque é que as sobremesas italianas passaram tanto tempo fora do radar
Uma das razões para tanta gente conhecer apenas o tiramisù é simples: muitos doces italianos vivem mais em cafés e bares de pastelaria do que em restaurantes de fine dining. Comem-se a meio da manhã, com um café a caminho do trabalho, ou como mimo ao fim da tarde.
Visitantes britânicos e franceses, em escapadinhas curtas, tendem a concentrar-se numa fatia de pizza ou num gelado. A montra cheia de maritozzi e zeppole é mais fotografada do que “esvaziada”.
O tiramisù também tem vantagem logística: monta-se facilmente e usa ingredientes que viajam bem - ovos, açúcar, café, mascarpone e bolachas. Em contrapartida, fritos como os cannoli podem amolecer se forem recheados com demasiada antecedência, o que dificulta a padronização e a exportação.
| Sobremesa | Região típica | Quando os italianos costumam comê-la |
|---|---|---|
| Tiramisù | Véneto (popular em todo o país) | Sobremesa de restaurante ou encontros em casa |
| Maritozzo | Roma e Lácio | Pequeno-almoço ou lanche a meio da manhã |
| Cannolo siciliano | Sicília | Ocasiões festivas, doces de fim de semana |
| Zeppola | Sul de Itália | Festas religiosas, bancas de rua, bares de pastelaria |
Como pode ser, na prática, uma visita à Caterina
Numa primeira visita, o mais comum é ver alguma prudência. Muitos apontam para o que lhes é familiar - um quadrado certinho de tiramisù atrás do vidro - e depois fazem a pergunta que a equipa ouve todos os dias: “O que é aquele?”
A partir daí, a curiosidade abre espaço para recomendações. Quem adora cremes de pistácio costuma ser encaminhado para a brioche de pistácio, bem recheada. Quem procura texturas crocantes tende a preferir um cannolo, pelo contraste entre a casca que estala e o interior cremoso.
Para quem vem habituado à pâtisserie francesa, os doces italianos podem parecer menos formais. As coberturas são, por vezes, mais rústicas, os recheios mais generosos e as formas menos perfeitas. Essa pequena “imperfeição” faz parte do encanto e aproxima-se da maneira como se cozinha e se come em casa.
Dicas para levar hábitos de pastelaria italiana para casa
Para quem está longe de Bordéus, a Caterina deixa algumas ideias fáceis de adaptar em casa, sem exigir formação especializada.
- Repensar o momento: experimente acompanhar o café da manhã com um doce pequeno, em vez de guardar sobremesas apenas para a noite.
- Brincar com o pistácio: envolva pasta de pistácio em natas batidas para dar um toque diferente a um bolo simples ou a uma sobremesa em camadas.
- Usar café a sério no tiramisù: uma cafeteira moka ou um espresso forte traz estrutura e amargor.
- Manter os fritos estaladiços: se fizer cannoli, recheie as cascas no último momento para não perderem crocância.
Há, ainda assim, contrapartidas a considerar. Cremes ricos e massas fritas são, inevitavelmente, indulgentes. Alternar opções mais leves à base de fruta - citrinos, frutos vermelhos ou peras escalfadas - com os doces mais pesados ajuda a manter um melhor equilíbrio ao longo da semana, sobretudo se os lanches à italiana começarem a ocupar o pequeno-almoço e a tarde.
Para pessoas com alergias a frutos de casca rija, a tendência atual do pistácio pode ser complicada. Muitas receitas italianas dependem de frutos secos para sabor e textura. Confirmar ingredientes, perguntar diretamente aos pasteleiros ou reservar doces mais carregados de frutos secos para ocasiões especiais reduz o risco de exposição acidental sem eliminar o prazer.
Independentemente de algum dia vir ou não a Bordéus, a chegada de uma pastelaria totalmente italiana à cidade deixa um recado mais amplo: a cultura de sobremesas italianas é muito maior do que um único clássico embebido em café. O tiramisù pode ter aberto a porta, mas espaços como a Caterina mostram quão cheio está o corredor que se estende para lá dela.
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