Envelhecer muitas vezes parece apenas um número registado num documento. No entanto, a ciência tem vindo a mostrar que o organismo conta uma história diferente.
Duas pessoas podem fazer anos no mesmo dia e, ainda assim, o corpo de cada uma envelhecer a ritmos muito distintos.
Essa distância nem sempre resulta de acontecimentos marcantes. Por vezes, nasce de algo tão comum como a forma como cada pessoa se mexe, faz pausas, descansa e dorme ao longo do dia.
Um estudo recente da Escola de Saúde Pública Bloomberg da Universidade Johns Hopkins abordou esta ideia de uma maneira diferente, partindo de uma pergunta simples.
Será que o seu ritmo diário, acompanhado por algo como um dispositivo no pulso, consegue indicar a velocidade a que o seu corpo está a envelhecer?
Mesma idade, corpos diferentes
Duas pessoas podem ter a mesma idade em anos e, mesmo assim, os seus corpos não corresponderem.
Uma pode manter horários de sono regulares, ser activa durante o dia e descansar bem à noite. A outra pode dormir de forma irregular, deitar-se tarde e viver o dia sem grande estrutura.
Com o passar do tempo, estes padrões podem influenciar o funcionamento do corpo. O estudo sugere que hábitos diários como estes podem deixar marcas profundas no organismo, ao nível das células.
Ler o relógio do corpo
A idade cronológica é directa: contabiliza os anos desde o nascimento. Já a idade biológica é mais complexa, pois reflecte o grau de desgaste acumulado no corpo ao longo do tempo.
Esse desgaste tem múltiplas origens. Níveis de glicose no sangue, stress, inflamação, doenças e estilo de vida contribuem todos para o processo. Para estimar a idade biológica, os cientistas recorrem a marcadores corporais que se alteram à medida que envelhecemos.
Actualmente, os investigadores utilizam ferramentas conhecidas como relógios epigenéticos. Estes relógios analisam alterações químicas no ADN. Não mudam os genes, mas mostram como o organismo vai respondendo à vida ao longo do tempo.
Ao observar estes padrões, torna-se possível estimar “que idade” o corpo aparenta ter no seu comportamento biológico, mesmo quando isso não coincide com a idade real da pessoa.
Acompanhar os ritmos diários
A equipa de Johns Hopkins quis perceber se os padrões de actividade do dia-a-dia se relacionavam com a idade biológica. Para isso, analisou 207 adultos mais velhos, com uma idade média de cerca de 68 anos.
Cada participante usou, durante aproximadamente uma semana, um dispositivo no pulso que registava o movimento. O equipamento captava quando as pessoas estavam activas e quando estavam em repouso.
Além disso, os participantes mantiveram registos do sono nocturno e das sestas.
Em paralelo, os investigadores analisaram amostras de sangue com recurso a quatro relógios epigenéticos diferentes.
Padrões de ritmo diário que fazem diferença
O estudo identificou três padrões principais associados a um envelhecimento biológico mais lento.
O primeiro foi o contraste. As pessoas que se mantinham activas durante o dia e descansavam bem à noite apresentavam idades biológicas mais “jovens”.
O segundo foi a continuidade. Quem tinha rotinas diárias mais fluidas e menos interrompidas parecia mais jovem a nível celular.
O terceiro foi a consistência. Participantes com horários semelhantes de sono e actividade, dia após dia, também mostravam sinais de envelhecimento mais lento.
Nem todos os relógios epigenéticos reagiram da mesma forma. Dois deles, chamados GrimAge e PhenoAge, revelaram ligações mais fortes aos ritmos diários.
Estes relógios são conhecidos por ajudarem a prever riscos de saúde e longevidade. Os outros relógios apontaram na mesma direcção, mas com evidência menos robusta.
Diferenças entre grupos
Os especialistas observaram ainda que estes padrões eram mais evidentes em mulheres e em participantes brancos.
Os investigadores sublinharam que serão necessários estudos com maior diversidade antes de se tirarem conclusões definitivas.
O co-autor sénior do estudo, Dr. Adam Spira, é professor no Departamento de Saúde Mental da Escola Bloomberg.
"Os nossos resultados sugerem que os ritmos de repouso-actividade podem ser marcadores úteis da taxa de envelhecimento fisiológico em adultos", afirmou o Dr. Spira.
"Se forem confirmados por investigação futura, estes ritmos poderão vir a tornar-se alvos potenciais de intervenções para abrandar o processo de envelhecimento."
Este trabalho enquadra-se num conjunto mais amplo de investigação. Alterações e perturbações nos ritmos diários já foram associadas a vários problemas, como declínio da memória, condições de saúde mental e até alguns tipos de cancro.
As novas conclusões sugerem que estes ritmos podem também espelhar o envelhecimento ao nível celular.
Limitações do estudo
A investigação oferece indícios relevantes, mas não respostas finais. O estudo retrata um único momento no tempo, o que significa que não permite concluir se ritmos desfavoráveis provocam envelhecimento mais rápido, ou se é o próprio envelhecimento que perturba os ritmos.
Existe ainda outra limitação. "Suspeitamos que as associações que encontrámos nesta amostra subestimam o que se passa na população em geral", afirma Brion Maher, co-autor da Escola de Medicina da Johns Hopkins.
"Estávamos a analisar adultos que chegaram a idades avançadas e que estavam suficientemente saudáveis para participar na investigação, o que significava que não estávamos a observar adultos que envelheceram mais rapidamente e que já tinham morrido ou estavam demasiado doentes para participar."
Direcções para investigação futura
Para compreender o quadro completo, será necessário acompanhar pessoas durante muitos anos.
"Precisamos mesmo de fazer estudos longitudinais ao longo do tempo, para ver se o enfraquecimento dos ritmos de repouso-actividade antecede a aceleração do envelhecimento fisiológico ou se acontece o contrário", diz Liu.
Trabalhos deste tipo podem esclarecer o que surge primeiro e quão forte é, na realidade, a relação.
Os resultados também abrem portas a possibilidades práticas. Muitas pessoas já usam dispositivos vestíveis para contar passos e monitorizar o sono. Um dia, estas ferramentas poderão ajudar a detectar sinais precoces de envelhecimento acelerado.
Alterações no ritmo diário poderiam funcionar como sinais de alerta antes de aparecerem problemas de saúde graves.
É possível melhorar os ritmos?
Se a investigação futura confirmar uma ligação causal, os hábitos diários poderão tornar-se um alvo para abrandar o envelhecimento.
Ajustar a hora de dormir, aumentar a actividade durante o dia e manter um horário regular podem vir a ter um papel.
Serão necessários ensaios clínicos para testar se estas mudanças conseguem, de facto, influenciar o envelhecimento biológico.
Uma ideia simples, mas poderosa
O estudo não afirma que uma rotina rígida consiga reverter o envelhecimento. O que apresenta é um sinal inicial, mas relevante.
A forma como cada pessoa atravessa o dia pode ter uma importância biológica mais profunda do que aparenta.
A diferença entre actividade e repouso, a fluidez dos padrões diários e a consistência das rotinas podem contribuir para moldar a forma como o corpo envelhece.
No fim de contas, o relógio mais importante pode não ser o da parede. Pode ser o ritmo que o corpo segue todos os dias.
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