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Alterações climáticas e migração: o calor extremo não está a expulsar pessoas

Homem sentado num sofá com olhar pensativo, ao lado de uma caixa de cartão e um ventilador ligado.

As alterações climáticas tendem a tornar-se visíveis através de episódios intensos, como incêndios florestais ou inundações, mas as transformações mais lentas conseguem, com a mesma força, mudar a vida quotidiana sem grande alarido.

A subida gradual das temperaturas é uma dessas mudanças. É comum assumir-se que, à medida que certos locais aquecem, as pessoas acabarão simplesmente por sair. Um novo estudo indica, contudo, que o fenómeno é bem mais complexo.

À primeira vista, faz sentido pensar que o calor empurrará a população para fora de determinadas zonas. Na prática, porém, as decisões de mudança de residência raramente se explicam por um único motivo.

Ao ponderar uma mudança, as pessoas colocam na balança fatores como emprego, custo da habitação, escolas e qualidade de vida no geral. A temperatura conta, mas dificilmente é o principal motor da escolha.

O calor, por si só, não está a conduzir a mobilidade

Entre 2017 e 2021, a maioria das regiões dos Estados Unidos registou temperaturas acima do habitual, com um aumento médio de cerca de 1,9°F (aproximadamente 1,1°C). Ainda assim, esse aquecimento não desencadeou uma saída em massa das áreas mais quentes.

Em vez de um padrão nítido de abandono, os investigadores detetaram um efeito mais discreto. Em alguns locais, temperaturas mais elevadas chegaram a coincidir com uma diminuição do número de pessoas a sair.

O resultado reforça que mudar de lugar não é apenas uma reação ao desconforto: depende do rendimento, do trabalho e das alternativas realmente disponíveis.

Menos pessoas a escolher zonas invulgarmente quentes

“À medida que as anomalias de temperatura extrema aumentam, não vemos mais pessoas a sair”, afirmou Yanmei Li, autora principal do estudo da Florida Atlantic University.

“Em vez disso, menos pessoas estão a mudar-se para essas zonas – sobretudo para áreas invulgarmente quentes – o que abranda o crescimento populacional. Trata-se menos de pessoas a serem empurradas para fora e mais de os lugares se tornarem menos atrativos.”

“Ao mesmo tempo, climas consistentemente quentes continuam a atrair pessoas, o que evidencia um contraste entre calor estável e calor extremo.”

Ou seja, em muitos casos, as pessoas mantêm-se onde estão - seja por opção, seja porque mudar não é algo simples de concretizar.

As realidades locais pesam mais

Quando se escolhe onde viver, as prioridades tendem a ser práticas. Ter um bom emprego, encontrar habitação a um preço comportável e garantir um estilo de vida aceitável acabam por pesar mais do que a temperatura, isoladamente.

As cidades continuam a captar residentes por concentrarem trabalho e oportunidades, mesmo quando ficam mais quentes. Em contrapartida, há também quem saia dos centros urbanos por causa do custo de vida elevado, e não por motivos climáticos.

Zonas com menos emprego ou com maior pobreza frequentemente perdem população ao longo do tempo. São dinâmicas com vários anos que persistem hoje, independentemente das oscilações térmicas.

Isto sugere que as condições económicas moldam a migração de forma mais forte do que o clima, por si só.

Muitas pessoas não conseguem suportar os custos de mudar

Um ponto central do estudo prende-se com quem consegue, de facto, deslocar-se - e quem não consegue. A liberdade para recomeçar noutro local não é igual para todos.

Agregados de baixo rendimento tendem a estar mais expostos aos riscos do calor, mas dispõem de menos recursos para mudar. Podem querer sair, porém os custos e a falta de oportunidades tornam a decisão difícil.

Como consequência, muitos acabam por permanecer, mesmo quando as condições se deterioram.

As classes médias têm maior probabilidade de se moverem por terem alguma margem de manobra. Já os agregados mais abastados, muitas vezes, conseguem lidar com o problema sem mudar, recorrendo aos seus recursos para se adaptarem.

“Esta dinâmica tem consequências importantes para o planeamento a longo prazo, incluindo o investimento em infraestruturas, a procura de habitação e a estabilidade económica regional”, disse Li.

“Também sublinha a necessidade de abordar não só a adaptação climática, mas também as barreiras estruturais – como a desigualdade e o acesso à habitação – que moldam a forma como as pessoas respondem à mudança ambiental.”

O calor extremo reduz a atratividade

O calor extremo influencia a migração, mas não através de grandes vagas de saída. O efeito mais visível é tornar determinados lugares menos apelativos para quem pondera mudar-se.

As áreas com maiores aumentos de temperatura tendem a atrair menos novos residentes. Isso não provoca uma quebra súbita na população, mas vai travando o crescimento ao longo do tempo. Menos entradas significam uma expansão mais lenta desses territórios.

Ao mesmo tempo, regiões com climas quentes, porém estáveis, continuam a captar pessoas. A diferença indica que o “calor” em si não é necessariamente evitado; o que pesa são os extremos.

Os investigadores procuraram ainda um limiar a partir do qual a subida das temperaturas pudesse começar a afetar de forma mais marcada a migração. Esse possível ponto de viragem parece situar-se em torno de 2,6°F a 2,7°F acima de médias anteriores (cerca de 1,4°C a 1,5°C).

Mesmo nesse patamar, o impacto continua a ser reduzido. Não se observa uma mudança repentina em grande escala; eventuais alterações surgem de modo gradual e variam conforme as condições locais.

Os efeitos mais fortes podem surgir mais tarde

“A ausência de efeitos fortes hoje não significa que o clima continuará a ser um fator menor”, afirmou Diana Mitsova.

“Os nossos resultados sugerem que respostas migratórias mais fortes podem emergir no futuro, sobretudo à medida que a subida das temperaturas interage com eventos extremos, a exposição prolongada ou restrições como a disponibilidade de habitação e os mercados de seguros. Potenciais ‘pontos de viragem’ podem ainda estar à frente.”

Isto significa que, apesar de o clima não estar a ser, neste momento, o principal motor da mobilidade, poderá ganhar peso no futuro.

A ideia de que as alterações climáticas irão rapidamente desencadear migrações em massa não corresponde ao que se observa hoje. As pessoas mudam-se por vários motivos, e o clima é apenas uma peça dessa decisão.

Algumas regiões continuam a crescer mesmo com o aumento das temperaturas, sobretudo porque oferecem mercados de trabalho sólidos e boas condições de vida.

Outras áreas perdem população por dificuldades económicas, mais do que por razões climáticas isoladas. E, para muitas pessoas, ficar onde estão não é uma escolha - é a única opção viável.

Influência do clima na migração

“O nosso clima em mudança está a começar a moldar a migração de formas subtis e indiretas, principalmente através da interação com sistemas económicos e sociais já existentes”, disse Li.

“A forma como esses sistemas evoluem – e a eficácia com que as políticas enfrentam a vulnerabilidade – terá um papel determinante para saber se o clima se torna, no futuro, um motor mais poderoso do movimento populacional.”

O recado é simples: preparar-se para as alterações climáticas não passa apenas por antecipar para onde as pessoas poderão ir, mas também por melhorar as condições nos locais onde já vivem.

Habitação de melhor qualidade, infraestruturas mais robustas e apoio económico mais justo podem influenciar, de forma concreta, a maneira como as comunidades lidam com a subida das temperaturas.

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