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Nova *Calamaria incredibilis* na China surpreende com mimetismo cabeça-cauda

Serpente enrolada na folha com pessoa a desenhar e pintar um esboço da cobra num caderno de anotações.

Uma espécie de cobra descoberta recentemente revela um comportamento invulgar para escapar aos predadores: a cauda imita a cabeça - um fenómeno conhecido como mimetismo cabeça-cauda.

Quando um predador tenta matar uma cobra, tende a atacar a cabeça. É a extremidade perigosa - a que morde, a que tem dentes. O resto é apenas corpo.

A nova espécie, identificada em florestas montanhosas do sul da China, parece ter construído a sua estratégia de sobrevivência exactamente com base nessa expectativa.

Quando se assusta, esconde a verdadeira cabeça dentro de uma espiral apertada do corpo e ergue a cauda. A cauda é curta, romba e apresenta um padrão que a faz parecer uma segunda cabeça.

Conheça Calamaria incredibilis

A espécie chama-se Calamaria incredibilis, uma cobra esguia e não venenosa, com pouco menos de 23 centímetros de comprimento. Apresenta um dorso castanho-escuro, marcado por sete listas interrompidas.

Este réptil vive em florestas húmidas e montanhosas de folha larga no sul da China, na região de Guangxi, a cerca de 760 metros de altitude.

A equipa que a descreveu formalmente foi liderada por Shuo Qi, herpetólogo da Universidade Sun Yat-sen (SYSU), em Guangzhou.

Qi e colegas de museus de várias partes da China e da Rússia atribuíram o nome à espécie em Abril passado. O nome latino traduz-se, de forma aproximada, por “inacreditável” - o que diz muito sobre a reacção do grupo quando percebeu o que tinha diante de si.

A cauda da cobra parece uma segunda cabeça

Se for surpreendida, esta cobra não foge. Enrola o corpo num oito muito apertado e mantém-se baixa sobre a manta de folhas. Depois, levanta a cauda.

A cauda é curta e grossa, com um aspecto muito semelhante ao da cabeça - um cilindro atarracado que afunila até uma ponta romba. Mantida no ar, sem se mexer, pode parecer uma cabeça a qualquer animal por perto com apetite.

Assim, um predador que ataque o que julga ser a cabeça acaba por morder a cauda. Entretanto, a cabeça verdadeira permanece escondida dentro da espiral, pronta a escapar.

Este tipo de mimetismo da cauda surge em pontos dispersos da família das cobras e quase sempre em espécies pequenas e discretas, que vivem debaixo do solo ou entre a folhada. Uma mordidela na cauda pode ser suportada. Uma mordidela na cabeça, não.

Escondida entre semelhantes

A nova espécie integra um grupo mais amplo de pequenas cobras asiáticas conhecidas como cobras-dos-juncos (reed snakes). O género reúne cerca de 70 membros conhecidos. A maioria passa a vida enterrada sob folhas e solo húmido, vindo à superfície durante a noite.

Muitas destas cobras são, à primeira vista, praticamente indistinguíveis. Castanho apagado. Escamas lisas. Listas discretas ao longo do dorso. Foi precisamente essa aparência repetida que fez com que esta espécie passasse despercebida durante tanto tempo.

Calamaria incredibilis insere-se num conjunto de cobras muito semelhantes e próximas entre si, distribuídas pelo sul da China e pelo Sudeste Asiático - um agrupamento que os taxonomistas designam por complexo C. pavimentata. Numa gaveta de museu, poderia facilmente ser confundida com qualquer uma das outras.

A genética de Calamaria incredibilis

Não foi o aspecto que denunciou a espécie. Foi o ADN. Os investigadores compararam uma região específica do ADN mitocondrial - um gene usado para distinguir espécies de cobras - a partir de animais recolhidos em dois locais de Guangxi, nas áreas de Chongzuo e Guilin.

Os resultados foram notáveis. A distância genética entre a nova cobra e os seus parentes conhecidos mais próximos ficou em cerca de 12.67 por cento. Para um vertebrado, trata-se de uma diferença grande.

Em regra, espécies estreitamente aparentadas dentro do mesmo género apresentam apenas uma fracção dessa distância. Aqui, a nova espécie revelou-se muito afastada de qualquer parente descrito.

Um estudo separado, dedicado a outra Calamaria recém-descrita na vizinha província de Yunnan, encontrou o mesmo padrão.

As chamadas espécies crípticas - linhagens distintas escondidas dentro do que parece ser apenas uma - continuam a surgir no género assim que se aplicam análises genéticas.

Um caçador discreto

Apesar da defesa dramática, a vida desta cobra é tranquila. É sobretudo nocturna e passa o dia a deslizar por fissuras no solo húmido, escondida sob folhas e madeira em decomposição. Quase nunca é observada.

Alimenta-se de minhocas e de larvas moles de insectos. Na prática, não consegue morder seres humanos e não tem veneno para incomodar ninguém. O truque do oito, com a cabeça escondida, é reservado para momentos de alarme genuíno.

Florestas cheias de segredos

A Reserva Natural Nacional de Huaping situa-se no norte de Guangxi, perto da fronteira com o Vietname, e inclui uma das mais antigas manchas de floresta de folha larga da região. Tem sido, de forma consistente, uma fonte de novas descobertas.

No início deste ano, a mesma floresta revelou um pequeno sapo da folhada que se tornou a 9.000.ª espécie de anfíbio formalmente nomeada em todo o mundo. Duas novas espécies de vertebrados numa única reserva, no espaço de um ano, é algo pouco comum.

A descrição desse sapo, publicada apenas algumas semanas antes, sublinhava o mesmo ponto que a equipa da cobra voltaria a repetir: as florestas antigas do sul da China ainda guardam uma quantidade surpreendente de diversidade de vertebrados que nunca foi formalmente registada.

O que isto altera

Antes desta descoberta, os herpetólogos tratavam o complexo C. pavimentata como um conjunto de talvez meia dúzia de espécies sobrepostas.

O exemplar de Guangxi aumenta esse número - e indica que outros “sósias” dentro do grupo poderão estar escondidos da mesma forma.

Com esta adição ao que se conhece, a espécie passa a integrar a curta lista de cobras observadas na natureza a recorrer ao mimetismo cabeça-cauda. Para os biólogos de campo da região, há agora um novo comportamento a procurar em cobras pequenas e de tons discretos.

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