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Stuart Rowley explica a transformação elétrica da Ford Europa

Carro elétrico azul moderno estacionado numa garagem com estação de carregamento e vista para cidade ao pôr do sol.

Numa mesa-redonda com jurados do Carro do Ano, Stuart Rowley, presidente da Ford Europa, ajudou-nos a perceber a dimensão das mudanças em curso na marca para a tornar tão ágil quanto uma empresa emergente. Esta viragem acontece numa altura em que o sector automóvel avança rapidamente para a eletrificação - uma transformação que pode revelar-se mais complexa quando se parte de estruturas pesadas, típicas das multinacionais.

No início de março, foram dados os primeiros passos para acelerar esse processo de mudança profunda.

Ficaram, assim, definidas unidades de negócio autónomas: a Ford Blue (modelos com motor de combustão) e a Ford Model e (veículos elétricos). Estas juntam-se à Ford Pro, dedicada aos comerciais, bem como à Ford Drive (ex-Ford Mobility) e à Ford Credit.

Importa lembrar que a Ford é uma das últimas marcas automóveis cuja liderança permanece nas mãos de uma família, algo que, segundo o presidente da Ford Europa, “define o ADN de tudo o que a empresa faz num mercado extremamente competitivo, seja para os clientes, funcionários e concessionários”.

Só carros elétricos em 2030

É difícil contestar que a eletrificação representa a maior mudança na indústria automóvel em mais de 100 anos. Praticamente todas as marcas estão a reposicionar-se e a trabalhar intensamente num caminho que aponta para um futuro de propulsão totalmente elétrica.

Rowley sublinha que é precisamente por isso que a Ford estabeleceu três compromissos fundamentais, orientados para o curto, médio e longo prazo: “vamos ter uma gama totalmente elétrica de veículos de passageiros até 2030 e de comerciais igualmente isentos de emissões até 2035; oferecer soluções e serviços de mobilidade que vão redefinir a experiência de ter um Ford e implementar uma estratégia sustentável na Europa, no sentido de cumprirmos o acordo climático de Paris”.

O responsável máximo da marca norte-americana na Europa pretende, com um plano de grande ambição, recuperar terreno face a concorrentes diretos (como a Volkswagen, a Peugeot, entre outras).

2022 começou com lucros

No primeiro trimestre de 2022, a Ford Europa registou um lucro de 3% (197 milhões de euros), interrompendo uma sequência de três trimestres consecutivos de resultados negativos.

Este desempenho foi alcançado apesar da descida das vendas, em parte devido às perturbações desencadeadas pela invasão da Ucrânia. Houve paragens na produção do Focus em Saarlouis, na Alemanha, e do Tourneo na unidade da Volkswagen em Poznan, na Polónia, onde é produzido lado a lado com o Volkswagen Caddy, modelo com o qual partilha a plataforma.

Ainda assim, estes números contrastam com os da Ford Motor Company, que no mesmo trimestre perdeu 3,1 mil milhões de dólares, penalizada pela queda acentuada das ações da Rivian (construtora de carrinhas de caixa aberta e veículos utilitários desportivos elétricos), na qual a Ford detém uma participação relevante de 1,2 mil milhões de dólares.

De resto, quando a Rivian entrou em bolsa em novembro de 2021, a sua capitalização chegou a superar em quase 50% o valor bolsista da Ford Motor Company, um dos seus principais investidores. A Wall Street continua longe de nutrir grande entusiasmo pela indústria automóvel “tradicional”…

Antes de voltarmos a focar a Europa, vale a pena assinalar que a Ford quer tornar-se já em 2023 o segundo maior fabricante norte-americano de elétricos, imediatamente atrás da Tesla.

O importante Mustang Mach-E

De regresso à Europa - onde a Ford deixou, este ano, de funcionar como entidade autónoma, 55 anos após a sua criação - a prioridade passa por dar continuidade ao plano iniciado com a chegada do Mustang Mach-E ao mercado (em 2021).

https://youtu.be/RW8ICFKT7fM

Trata-se de um modelo com uma aceitação muito relevante junto do público europeu, como detalha Stuart Rowley: “vendemos 23 000 Mach-E em 2021 e temos uma previsão a rondar as 40 000 entregas em 2022, além de ser um carro que está a trazer muitos novos clientes para a marca, uma vez que nove em cada 10 compradores deste modelo são novos na Ford, com uma elevada percentagem de clientes habituais de marcas de automóveis premium”.

Na Europa, uma das frentes mais determinantes para a Ford é a dos veículos comerciais - agora sob a designação Ford Pro - área em que a marca lidera há sete anos consecutivos.

Para Rowley, a eletrificação encaixa de forma particularmente natural neste segmento: “estamos a observar um enorme interesse na nossa frota Ford Pro e o lançamento, esta primavera, da E-Transit é um momento decisivo, por se tratar da carrinha de carga mais vendida no mundo.”

“No final de 2022”, prossegue, “deveremos ter entregue 7000 E-Transit aos nossos ansiosos clientes, depois de termos feito vários meses de testes-piloto em condições reais com protótipos quase finais nos serviços municipais, de correios, entrega de artigos alimentares na Alemanha, Reino Unido e Noruega”.

O novo desenho da pegada industrial

A Ford está empenhada em atualizar e melhorar a fábrica de Craiova, na Roménia, que ganhará peso nesta transformação e passou a estar sob a responsabilidade da parceria empresarial que a Ford mantém há mais de duas décadas na Turquia.

Nesta unidade, está em curso um investimento de 300 milhões de dólares para fabricar um novo comercial ligeiro acessível, a Transit Courier, e a variante de passageiros Tourneo Courier - ambos em 2023 - seguindo-se, no ano seguinte, uma versão elétrica.

Rowley é taxativo ao afirmar que “o sucesso desta área de negócio é crucial para que sejam concretizados os objetivos quantitativos e qualitativos da Ford na Europa, tal como a implementação de um sistema de produção eficaz, sustentável e integrado, dos veículos e baterias. Estamos a preparar um modelo de produção neutro em carbono, que deverá estar ativo até 2035, o que significa uma redução para zero das emissões geradas nas nossas fábricas, logística e fornecedores principais”.

Ainda este ano, a Ford assinou um acordo com a SK On e a Koc Holding para erguer uma das maiores fábricas de baterias para veículos comerciais na Europa. “Trata-se de uma joint venture com sede na Turquia, cujo pilar é a gigafábrica nas proximidades de Ancara, onde serão produzidas células NMC (níquel, manganês e cobalto) para incorporação nos módulos de baterias”, explica o presidente da Ford Europa.

Depois, destaca a dimensão global do investimento: “entretanto, já estamos a construir uma fábrica de baterias também nos Estados Unidos (com um orçamento de 5,8 mil milhões de dólares) e não ficaremos por aqui, porque o nosso plano requer, pelo menos, 240 GWh (Gigawatts-hora) de capacidade de células de baterias até 2030. A fábrica na Turquia irá contribuir com cerca 40 GWh já a partir de meados da presente década”.

Ao somar estes 40 GWh aos 130 GWh previstos em três fábricas nos Estados Unidos, obtém-se um total de 170 GWh - ainda aquém dos 240 GWh anuais de que a Ford irá necessitar, mesmo contando com o contributo adicional do Centro de Eletrificação de Colónia, como se verá já a seguir.

Três utilitários desportivos compactos elétricos

Em paralelo, o Puma (também produzido em Craiova) - do qual foram vendidas mais de 130 000 unidades na Europa em 2021 - passará a ter uma versão elétrica no mercado europeu em 2024 (por outro lado, o Ecosport será descontinuado até ao final de 2022).

Tal como acontece com o Courier, o Puma elétrico recorrerá à atual plataforma do segmento B (Fiesta/Puma), adaptada à eletrificação, e não à MEB da Volkswagen nem a outra arquitetura dedicada.

O ponto central da ofensiva elétrica na Europa é o Centro de Eletrificação de Colónia (Alemanha): “a fábrica muito moderna vai ser uma realidade e será um dos projetos alimentados pelo investimento de dois mil milhões de dólares em automóveis elétricos. E confirmamos que vamos ter uma nova linha de montagem de baterias em Colónia, operativa a partir de 2024”.

A Ford já adiantou que o primeiro modelo a sair deste centro será um utilitário desportivo médio, a revelar antes do final deste ano, com início de produção no começo de 2023. Seguir-se-á um segundo modelo, um utilitário desportivo de caráter mais desportivo, em 2024. Ambos assentarão na plataforma MEB da Volkswagen.

“Entre os dois, o volume de produção previsto será de 1,2 milhões de veículos durante o ciclo de vida destes produtos. E iremos fornecer e produzir futuros comerciais para a Volkswagen, com a plataforma estreada na E-Transit”, remata o confiante timoneiro da Ford Europa.

Diversificação no tipo de propulsão e de receitas

Sobre os efeitos da guerra na Ucrânia, Rowley garante que a prioridade da Ford é a segurança e o bem-estar dos seus colaboradores na região, mas reconhece que “já houve interrupções em mais do que uma fábrica, além de que foi encerrada a atividade comercial na Rússia”.

Quanto à diversificação de sistemas de propulsão elétrica no médio e longo prazo, o responsável da Ford no nosso continente afasta, para já, investimentos em hidrogénio: “o nosso foco está nos elétricos a bateria e até é possível que em algum momento haja potencial para veículos a pilha de combustível (elétricos alimentados por hidrogénio, portanto), no segmento dos comerciais pesados, mas não está nos nossos planos de momento”.

Entre a pandemia e a instabilidade geopolítica que marcam o mundo desde 2020, são poucos os líderes de topo dispostos a arriscar previsões muito assertivas sobre a evolução dos volumes.

Ainda assim, o agora também diretor de qualidade da Ford Motor Company salienta “o facto das vendas da Ford na Europa terem sido muito consistentes nos últimos anos” e reforça a importância “de potenciar a faturação proveniente de outras fontes de receitas, como do negócio da conectividade e serviços relacionados, é onde existe maior potencial de crescimento do que propriamente pelo incremento de matrículas nesta região”.

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