As palavras faltam-lhe. Sente um formigueiro na pele. Fica esmagado pela percepção de quão pequeno e insignificante é, tomado por uma sensação difícil de pôr em palavras.
Isto é assombro.
O assombro é um estado emocional complexo que surge quando a imensidão daquilo que vemos ou sentimos ultrapassa aquilo que conseguimos compreender. Pode assumir um tom positivo ou negativo.
Astronautas descrevem esta sensação quando se deparam com a vastidão do espaço e com o lugar diminuto da Terra dentro desse cenário.
Esta vivência - por vezes chamada de "efeito de visão global" - pode mudar para sempre a forma como quem observou a Terra à distância passa a pensar a vida aqui.
Mas não é preciso ir à Lua e voltar para sentir assombro.
Uma obra de arte marcante, um passeio na natureza ou dançar no meio de uma multidão podem provocar esta sensação avassaladora e transcendente.
A neurociência indica que experiências de assombro podem beneficiar a saúde mental - quando são positivas. Então, em que circunstâncias o assombro nos faz bem? E o que é que, exactamente, se passa no cérebro?
O assombro pode ser positivo e negativo
O assombro positivo é, provavelmente, aquilo em que a maioria das pessoas pensa quando ouve a palavra. Se alguma vez se comoveu com algo imenso e belo - como uma montanha imponente ou um pôr do sol - é provável que tenha sentido essa mistura de serenidade e admiração.
Ainda assim, os psicólogos por vezes definem o assombro como uma experiência situada na fronteira entre o prazer e o medo.
Prazer e medo podem provocar níveis semelhantes de activação corporal - coração acelerado, arrepios e calafrios -, mas a forma como interpretamos isso como emoção depende do contexto. O mesmo pode acontecer quando nos confrontamos com algo vasto e esmagador.
O assombro negativo pode surgir quando nos sentimos ameaçados ou sem controlo, como durante um sismo ou um ataque terrorista.
Imagine-se perante um tsunami e a vê-lo avançar na sua direcção. Pode sentir-se impotente e cheio de pavor e, ao mesmo tempo, tomado por uma sensação de insignificância perante a majestade e a força da natureza. É esta a complexidade do assombro.
Tentar dar sentido ao inesperado
O nosso cérebro está continuamente a fazer previsões e a integrar as experiências naquilo que já sabemos.
Temos tendência a "filtrar" os sinais sensoriais que correspondem ao que esperamos, para, em vez disso, concentrarmos a atenção em estar preparados para reagir à informação surpreendente.
A informação nova é processada por áreas do cérebro que ajudam a encaixá-la na nossa compreensão prévia do mundo, através de estruturas de conhecimento chamadas esquemas (ou schemas).
De acordo com a teoria dos esquemas, ou incorporamos a informação nova num esquema já existente, ou temos de alterar o esquema para acomodar o novo conhecimento.
Nem todas as experiências novas despertam assombro. Ele aparece quando sentimos, ao mesmo tempo, incapacidade de assimilar uma experiência ao conhecimento actual e uma sensação de vastidão.
Por exemplo, pode ter um esquema para "cascata" - uma estrutura mental do que espera (rochas, água, beleza).
Mas, quando se depara com o estrondo das Cataratas Vitória, a sua dimensão e velocidade, e a forma como o sol incide sobre a névoa de água, sente assombro; não se parece com nenhuma cascata que tenha visto e fica muito para lá das suas expectativas.
O que acontece no cérebro quando sentimos assombro?
Quando sentimos assombro, diminui a actividade em regiões do cérebro associadas ao processamento interno ou auto-referencial. Esta rede é a que sustenta a memória e a forma como entendemos o nosso lugar no mundo.
Quando a actividade nessas regiões baixa, a atenção desloca-se de si próprio para o processamento de informação externa. Isto pode ajudar a explicar porque é que tende a "sentir-se pequeno" quando vive assombro.
No entanto, o assombro positivo e o negativo podem ter efeitos diferentes no nosso sistema nervoso.
O assombro negativo está ligado à activação do sistema nervoso simpático, que desencadeia a resposta de "luta ou fuga".
Já o assombro positivo associa-se a um aumento da actividade parassimpática. Isso reduz a frequência cardíaca e a activação, motivo pelo qual podemos sentir-nos mais tranquilos.
Como o assombro pode ser bom para nós
Se é alguém que procura experiências maiores do que si - caminhar até miradouros de cortar a respiração, praticar meditação, apreciar arte ou perder-se no rugido de uma multidão -, provavelmente já sabe que o assombro pode fazê-lo sentir-se muito bem.
Agora, a investigação está a estudar porquê. Evidência emergente sugere que o assombro pode favorecer a saúde mental e o bem-estar de cinco formas:
- melhorar a capacidade do sistema nervoso para relaxar
- reduzir o auto-foco
- aumentar a probabilidade de ajudarmos outras pessoas
- aproximar-nos dos outros
- reforçar o sentido de significado.
Ainda é preciso fazer mais trabalho antes de podermos afirmar se o assombro traz benefícios duradouros. Ainda assim, procurar assombro de forma intencional pode ajudá-lo a sentir menos stress, mais satisfação e maior felicidade.
Encontrar assombro no dia-a-dia
O que desperta assombro varia de pessoa para pessoa. Mas sabemos que algumas experiências têm maior probabilidade de provocar este sentimento complexo, como arte, música e ambientes naturais que nos comovem.
Muitas pessoas também encontram assombro em experiências colectivas, sobretudo as que envolvem música ou movimento partilhados, ou rituais religiosos. Estas experiências ajudam-nos a ir além de nós próprios e a fazer parte de algo maior.
Reflectir sobre ideias intelectuais inspiradoras, complexas e "grandes", através de aprender algo novo, também pode ter esse efeito.
Então, é possível cultivar assombro de forma activa?
Uma maneira de começar é fazer "caminhadas de assombro". Consistem em caminhar com a intenção de reparar na beleza, na vastidão e no maravilhamento. Ligar-se ao seu próprio sentido de espiritualidade - mesmo que não seja religioso - também pode evocar assombro.
Em muitos casos, a experiência vasta e avassaladora do assombro pode começar com simples actos de atenção.
Nikki-Anne Wilson, Docente, Escola de Psicologia, UNSW Sydney; Neuroscience Research Australia
Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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