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Novo estudo identifica proteínas no líquido cefalorraquidiano que podem explicar por que a esclerose múltipla é mais comum em mulheres

Cientista feminina em laboratório analisa amostra enquanto computador exibe imagens cerebrais.

Cerca de 2,9 milhões de pessoas em todo o mundo vivem, estima-se, com esclerose múltipla (EM) e, desse total, aproximadamente três quartos são mulheres. Compreender melhor as razões desta diferença entre sexos pode ser decisivo para melhorar os tratamentos - ou até para chegar à cura desta doença autoimune.

Investigadores do Campus Médico Anschutz da Universidade do Colorado identificaram, num novo estudo, pistas que ajudam a explicar a discrepância acentuada entre mulheres e homens.

Os resultados são ainda preliminares, porque assentam apenas em seis participantes, mas podem contribuir para perceber com mais detalhe como a EM progride em mulheres e em que direções poderão ser orientadas futuras abordagens terapêuticas.

Diferenças entre sexos na esclerose múltipla e noutras doenças neurológicas

Como enquadramento, os autores recordam que diferenças entre sexos não são incomuns em patologia neurológica e neurodegenerativa.

"Muitas doenças neurológicas e neurodegenerativas apresentam diferenças entre sexos", afirma a endocrinologista Kimberley Bruce. "Algumas delas, como a doença de Alzheimer e a esclerose múltipla, são mais frequentes em mulheres, enquanto a doença de Parkinson é mais frequente em homens."

"Por isso, provavelmente podemos aprender muito sobre os mecanismos subjacentes que impulsionam estas doenças, se compreendermos as diferenças entre sexos com maior detalhe."

O que o líquido cefalorraquidiano (LCR) pode mostrar sobre a EM

O líquido cefalorraquidiano (LCR) é um fluido transparente que envolve, amortece e sustenta o cérebro e a medula espinal. Por estar em contacto direto com o sistema nervoso central, alterações na composição das suas proteínas podem dar indicações relevantes sobre o que está a acontecer em doenças neurológicas.

A esclerose múltipla caracteriza-se por lesão da mielina, a camada protetora que envolve as fibras nervosas no sistema nervoso.

Para observar mais de perto as proteínas no LCR onde as fibras nervosas estão imersas, foi realizada uma análise a amostras de três mulheres com EM e três mulheres sem EM. Todas tinham LCR colhido por punção lombar no contexto da investigação de dores de cabeça intensas.

Proteínas no LCR: alterações observadas e possíveis pistas hormonais

Ao comparar os grupos, os investigadores identificaram mais de 100 proteínas do LCR que estavam em níveis mais altos ou mais baixos em doentes com EM do que em mulheres sem EM com idades equivalentes.

De forma mais específica, a análise apontou 72 proteínas claramente mais abundantes em mulheres com EM e 46 proteínas claramente menos abundantes.

Entre as proteínas aumentadas nas doentes com EM surgiram várias relacionadas com atividade de células do sistema imunitário, incluindo a micróglia (associada à remoção de resíduos celulares) e os macrófagos (envolvidos na destruição de células nocivas).

Por outro lado, várias proteínas que diminuíram com a EM estão ligadas à neurogénese e ao funcionamento neuronal - isto é, à produção de novos neurónios e à reparação dos existentes. A leitura possível é que estes processos essenciais são afetados no contexto da EM.

"Ao identificar alterações específicas de proteínas no fluido que rodeia o cérebro e a medula espinal, o estudo melhora a nossa compreensão de como a EM progride - sobretudo em mulheres", diz Bruce.

"Também destaca possíveis sinais que médicos ou investigadores poderiam usar para acompanhar a atividade da doença ou testar novas terapias."

Os autores sugerem ainda que as hormonas possam ter um papel importante, em especial em mulheres na casa dos 30 e dos 40 anos - um intervalo etário em que as mulheres recebem o diagnóstico de EM a uma taxa três vezes superior à dos homens e no qual algumas mulheres vivenciam gravidezes e alterações nos ciclos menstruais.

Uma das proteínas do LCR que apareceu elevada foi a globulina de ligação às hormonas sexuais (SHBG), que se liga ao estrogénio e à testosterona. Um excesso de SHBG a "absorver" estas hormonas faz com que fique menos disponível para células e tecidos.

Considera-se que as hormonas sexuais influenciam a atividade imunitária, incluindo no cérebro, pelo que este mecanismo pode ajudar a explicar por que razão as alterações imunitárias associadas à EM poderão diferir entre mulheres e homens.

Estas interpretações são, por agora, hipóteses que poderão ser exploradas mais a fundo. Trata-se de um estudo muito pequeno, pelo que este conjunto de resultados deve ser visto como preliminar e sujeito a confirmação em grupos maiores. Além disso, estas descobertas precisam de ser integradas com o que já se sabe sobre a EM e sobre a forma como a doença tem início.

Com o tempo, é possível que algumas destas proteínas venham a ser alvo de fármacos para ajudar a controlar ou prevenir a EM, embora também seja claro que se trata de uma doença muito complexa, com vários fatores a contribuir.

"Há muitos fatores distintos que influenciam o risco de esclerose múltipla", afirma Bruce.

"Daqui para a frente, precisamos de terapias diferentes que atuem sobre estes fatores variados, para um cuidado global melhor e mais personalizado."

A investigação foi publicada em Relatórios de Neurociência da IBRO.

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