Perda de audição em Portugal: crise silenciosa e números
Em Portugal, está a ganhar dimensão uma crise discreta que já atinge mais de meio milhão de pessoas. A perda de audição é hoje um dos grandes problemas de saúde pública deste século, mas continua a ser desvalorizada, pouco diagnosticada e, muitas vezes, deixada para segundo plano. O uso excessivo de auscultadores tende a agravar este cenário.
Os dados podem, aliás, ser ainda mais preocupantes. "Seguramente, é mais de meio milhão", avisa Nuno Trigueiros Cunha, presidente da especialidade de otorrinolaringologia da Ordem dos Médicos. "À medida que aumenta a população sénior, aumenta também a incidência".
O efeito na vida das pessoas é significativo. "A audição é fundamental na comunicação. Quando começam a ouvir mal, as pessoas começam a isolar-se. É um dos fatores de risco mais significativos para as demências se não tratado a tempo", alerta o especialista.
Vergonha e negação
Apesar da relevância do problema, muitos portugueses protelam durante anos a avaliação clínica. Entre a vergonha, a negação e um percurso que tende a ser moroso, há quem só procure apoio quando a situação já está bastante avançada.
A tendência está também a deslocar-se para idades mais baixas. Jovens (e não só) expostos a volumes elevados, seja através de auscultadores, em concertos ou em discotecas, estão a engrossar estas estatísticas. António Ricardo Miranda, presidente da associação OUVIR, é claro: "existe ainda uma insuficiente sensibilização, particularmente no uso prolongado de auscultadores e na exposição a níveis elevados de som". E aponta a necessidade de intervenção: "a prevenção exige campanhas consistentes, áreas nas quais Portugal ainda tem margem significativa de melhoria".
A lacuna é, em grande parte, estrutural. Não há programas de rastreio auditivo e o acesso a respostas continua condicionado. Melissa Cravo, presidente da APtA, partilha um indicador inquietante: "as pessoas demoram cerca de sete anos a procurar ajuda".
Ajuda do SNS
O primeiro passo: consulta de otorrinolaringologia
O percurso começa, em regra, com uma consulta de otorrinolaringologia no SNS. Aí, o especialista determina o grau de perda auditiva e, se se justificar, elabora um relatório médico. Depois disso, o utente pode deslocar-se a uma entidade credenciada, entregar a documentação requerida e escolher o modelo disponível no âmbito do programa comparticipado.
Comparticipação limitada e reduzida
A comparticipação corresponde a 80% do custo de aquisição, mas aplica-se apenas a utentes com baixos rendimentos e depende de prescrição médica emitida por um especialista do SNS.
O caminho tortuoso para ter um aparelho
Em geral, a comparticipação permite uma nova aquisição a cada cinco anos, ou num intervalo de três anos no caso da ADSE/outros regimes. Costumam ser exigidos os seguintes elementos:
- receita médica;
- fatura e recibo originais;
- e, muitas vezes, três orçamentos de fornecedores distintos.
Modelos aprovados pelo Estado
Há vários modelos no mercado: desde opções mais discretas, praticamente invisíveis, até alternativas mais avançadas, com ligação a smartphones e sistemas de controlo remoto. No caso dos aparelhos auditivos comparticipados pelo SNS, trata-se dos modelos que cumprem critérios específicos definidos pelo Estado - isto é, os que demonstram eficácia no tratamento auditivo.
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