Pouca gente pára para perguntar porquê.
A posição deitada de costas parece familiar, quase automática: é assim que aparece em aulas de preparação para o parto, em séries e nas salas de partos. No entanto, do ponto de vista histórico, trata-se de uma escolha relativamente recente - e, em muitos casos, serve mais a medicina do que a mulher que está a dar à luz. Entre evidência científica actual e práticas antigas, a questão volta a impor-se: em que posição conseguem as mulheres parir com mais segurança, mais força e maior autodeterminação?
Como a posição de costas se tornou norma
Durante milhares de anos, o mais comum era as mulheres terem os filhos de pé, de cócoras ou sentadas. Cadeiras de parto, cordas para se segurarem, parteiras ao mesmo nível dos olhos - esse era o cenário habitual antes de o parto passar para espaços clínicos e para uma condução predominantemente médica.
A mudança ganhou força há cerca de 300 a 400 anos, quando cirurgiões homens começaram, cada vez mais, a substituir o papel das parteiras. Um obstetra influente promoveu a posição deitada: apresentada como supostamente mais confortável para a mulher e, sobretudo, muito mais prática para o médico, que podia sentar-se comodamente e ver melhor.
Somou-se ainda um factor social: o parto saiu do ambiente doméstico, tradicionalmente feminino, e passou para um contexto médico, marcado por uma lógica e um olhar masculinos. A mulher deixou de ser encarada como agente activa do nascimento e passou a ser vista como paciente a quem se “presta assistência”.
Política, poder - e o olhar sobre o corpo feminino
Há uma teoria frequentemente citada que aponta até para a influência de um monarca: um rei terá assistido a partos e mostrado desconforto com a posição tradicional na cadeira, por esta lhe tapar a vista do que estava a acontecer. A posição deitada resolveria esse “problema” - e acabou por se impor. Para alguns historiadores, o episódio tornou-se simbólico: o corpo feminino não se ajustou prioritariamente à fisiologia, mas sim aos hábitos de observação e de trabalho de homens com poder.
“O parto hospitalar de costas não nasceu por respeito à natureza do corpo feminino, mas por conveniência e pela vontade de controlo da medicina.”
O que diz a anatomia: gravidade em vez de imobilidade
Se olharmos apenas para a mecânica do corpo, a posição de costas parece pouco intuitiva. Em pé, de joelhos ou de cócoras, a abertura da bacia aumenta de forma mensurável, por vezes em vários centímetros. Esses centímetros extra podem ser decisivos para a facilidade com que o bebé progride através da pelve.
Nas posturas verticais, a gravidade joga a favor: o bebé desce com mais facilidade para o canal de parto, e o seu peso colabora com as contracções em vez de as contrariar. A mulher consegue mobilizar a bacia e o tronco, mudar de posição, apoiar-se à frente - e cada ajuste altera a pressão sobre o colo do útero e o pavimento pélvico.
Ginecologistas e parteiras relatam o mesmo padrão: quando as mulheres dão à luz sem imposições médicas - por exemplo, num parto não planeado e muito rápido em casa - raramente escolhem, por vontade própria, ficar completamente deitadas de costas. Por instinto, viram-se de lado, colocam-se em quatro apoios, fazem cócoras ou, pelo menos, erguem-se parcialmente.
Porque é que a posição totalmente deitada pode ser desfavorável
Deitar-se de costas traz vários inconvenientes em simultâneo:
- O peso do útero pode comprimir grandes vasos sanguíneos, o que pode sobrecarregar o sistema circulatório da mãe.
- A gravidade tende a afastar o bebé da bacia, em vez de o ajudar a entrar nela.
- A mulher tem menos capacidade de mobilizar a bacia e de participar de forma activa.
- A percepção subjectiva da dor aumenta muitas vezes, porque as contracções parecem trabalhar “contra” o corpo.
Muitas mulheres referem que, em posições mais verticais, respiram melhor, sentem-se menos vulneráveis e mantêm um contacto mais forte com o próprio corpo. É precisamente este lado activo que algumas especialistas consideram estar a ser abafado no contexto hospitalar: o corpo feminino seria “padronizado” e forçado a encaixar num modelo que se adapta sobretudo a equipamentos, camas e ao campo de visão de quem presta cuidados.
Evidência científica: menos intervenções com parto em posição vertical
A investigação contemporânea em obstetrícia tem comparado com mais detalhe os efeitos das várias posições. Uma análise de vários milhares de partos indica que quem se movimenta durante a fase de dilatação ou permanece em postura vertical apresenta, em termos estatísticos, menor risco de cesariana e menor necessidade de analgésicos fortes.
Segundo especialistas, isso explica-se por vários mecanismos:
- Contracções mais eficazes: as contracções beneficiam mais da gravidade e da mobilidade pélvica, e o colo do útero tende a dilatar mais rapidamente.
- Trabalho de parto mais curto: a movimentação e a verticalidade encurtam, em muitos casos, a fase activa do parto.
- Menos instrumentos: fórceps, ventosa e episiotomias extensas são usados com menor frequência em partos verticais.
- Melhor oxigenação: sem compressão de grandes vasos, o fluxo sanguíneo para o bebé tende a manter-se mais estável.
“Quem consegue movimentar-se livremente durante o parto precisa muitas vezes de menos medicação, menos instrumentos de ajuda e vive o processo de forma mais activa.”
Convém sublinhar que posição vertical não significa apenas “de pé”. Também são frequentemente consideradas favoráveis:
- Cócoras, eventualmente com apoio do(a) parceiro(a) ou de uma cadeira
- Quatro apoios sobre a cama ou numa esteira
- De lado, com a perna de cima flectida
- Sentada numa bola de Pilates (Pezziball), inclinando-se para a frente durante as contracções
Porque é que, ainda assim, os hospitais mantêm a posição de costas
Apesar das vantagens associadas à verticalidade, a posição clássica de “pernas nos suportes” continua a ser padrão em muitas salas de partos. A razão não é tanto falta de conhecimento, mas sim o modo como o sistema está montado.
A posição ginecológica facilita intervenções e controlos por parte da equipa: CTG, toque vaginal, ecografia, acessos venosos - tudo encaixa melhor quando a mulher está deitada. Num modelo orientado para previsibilidade, registo e eficiência, esta postura torna-se sedutora.
Há obstetras que falam abertamente da necessidade de “padronização”. Um corpo sempre na mesma posição é mais rápido de avaliar; e, se for preciso, instrumentos e equipas cirúrgicas conseguem intervir com maior rapidez. Esta lógica consolidou-se em muitos países após a Segunda Guerra Mundial e continua a moldar rotinas nas salas de partos.
Quando o cuidado se transforma em paternalismo
Parteiras e médicas de obstetrícia criticam que, muitas vezes, a liberdade de escolha existe apenas no papel. Quem pede outra posição ouve não raramente frases como “Assim não conseguimos trabalhar bem” ou “Deite-se, por favor, é mais seguro” - mesmo em partos sem complicações.
Ao mesmo tempo, as alternativas fora do hospital são limitadas. Em alguns países, existem poucos centros de parto; e o parto em casa permanece um modelo de nicho. Isso restringe, na prática, as opções de quem procura mais liberdade de movimento.
“Vários especialistas concordam: muita coisa que hoje acontece por rotina poderá ser vista, dentro de alguns anos, como desnecessariamente desgastante.”
Tornar o parto mais activo: que possibilidades existem hoje
Apesar das limitações estruturais, a assistência ao parto está a mudar, ainda que devagar. Muitas maternidades criam “salas de parto natural” ou salas alternativas. Aí é comum encontrar bolas de Pilates, tecidos ou lianas para apoio, colchões no chão e, por vezes, banheiras de parto.
Outra tendência é a chamada “epidural móvel”. A ideia é reduzir a dose de analgésico de modo a proporcionar alívio significativo da dor, mantendo, porém, a capacidade de mexer as pernas e a bacia. Assim, torna-se possível conjugar analgesia com posturas mais verticais, pelo menos em determinadas fases.
Em situações de emergência, a posição de costas continua a ser indispensável. Numa cesariana, em hemorragia importante ou numa extração instrumental complexa, é a postura que oferece melhor acesso e melhor controlo. Por isso, muitos profissionais defendem um caminho flexível: tanta liberdade de movimento quanto possível, tanta posição padrão quanto necessário.
Projecto plano de parto: autodeterminação dentro do hospital
Quem não tiver a sorte de cair numa sala de partos particularmente avançada pode preparar-se com antecedência. Um plano de parto - escrito ou discutido em consulta - ajuda a explicitar preferências:
- Que posições quer a mulher experimentar durante a fase de dilatação?
- Deve o(a) parceiro(a) ter a tarefa de apoiar a mobilidade e as mudanças de postura?
- Qual é a posição da mulher face à epidural, a outros analgésicos e à episiotomia?
- Que desejos existem para a fase expulsiva (cócoras, de lado, quatro apoios)?
Idealmente, estes pontos são conversados antes do parto com a parteira ou o médico. Assim, a equipa sabe quais são as prioridades e pode orientar melhor as decisões na sala de partos, desde que não exista risco médico.
O que significam, na prática, expressões como “parto activo”
A expressão “parto activo” aparece em muitos guias, mas nem sempre é clarificada. Não se trata de um “parto de performance”, e sim de uma abordagem em que a mulher participa e decide tanto quanto possível:
- Muda de posição por iniciativa própria, em vez de apenas reagir a instruções.
- Usa respiração, voz e movimento como ferramentas de forma consciente.
- Participa nas decisões sobre intervenções, dentro do que a situação permitir.
A postura é apenas uma peça do puzzle. O ambiente, a luz, o ruído e a forma como a equipa comunica também determinam se a mulher vive o momento como “protagonista do parto” ou mais como “objecto de tratamento”.
Para muitos casais, faz sentido ensaiar antecipadamente como pode ser um parto que não se resuma à posição de costas: pequenos períodos em quatro apoios, depois de lado, alternando com algum tempo sentada na bola. Ter estas imagens presentes ajuda, no momento, a pedir posições e a co-construir o processo.
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