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França: após o banimento do imidaclopride, aves insectívoras mostram sinais de recuperação

Dois jovens agricultores observam aves numa plantação de trigo com equipamento de agricultura à volta.

Dados de longo prazo agora analisados em França indicam que, desde a proibição de determinados insecticidas, as populações de aves insectívoras - como andorinhas e felosas - começaram uma recuperação tímida. Os números ainda estão longe de permitir falar num final feliz, mas oferecem um raro sinal de esperança num panorama geralmente sombrio de perda de biodiversidade - e voltam a agitar, na Europa, a discussão sobre química agrícola e diversidade de espécies.

Como um insecticida pode reduzir populações inteiras de aves

No centro desta nova análise está o imidaclopride, um composto que, durante décadas, esteve entre os neonicotinóides mais utilizados na Europa. Estes princípios activos actuam no sistema nervoso dos insectos e foram concebidos para atingir sobretudo pragas das culturas. Na realidade, porém, acabaram por entrar nos solos, em linhas de água, em minhocas - e, por via da cadeia alimentar, no universo das aves.

A equipa de Thomas Perrot trabalhou com informação recolhida entre 2013 e 2022 em quase 2.000 parcelas de monitorização distribuídas por toda a França. Ao cruzar os diferentes conjuntos de dados, surge um padrão consistente: onde o imidaclopride era detectável, as espécies insectívoras apresentavam quebras acentuadas.

"Em regiões com maior carga de imidaclopride, as populações de insectívoros encolheram, em média, mais de um décimo."

Antes da proibição deste princípio activo, as descidas rondavam 12,7%. Mesmo após o banimento, o efeito negativo manteve-se em cerca de nove por cento. Isto aponta não só para a toxicidade da substância, mas também para a sua persistência em solos e meios aquáticos.

Já as espécies granívoras - isto é, consumidoras de sementes, como os tentilhões - e as aves mais flexíveis, omnívoras, reagiram de forma muito mais fraca ou sem um impacto mensurável. Este contraste ajuda a interpretar o mecanismo: os neonicotinóides afectam as aves sobretudo através do que elas comem - os insectos - e não apenas por intoxicação directa.

Contacto directo com o tóxico e “mesa vazia”

Para as aves insectívoras, o imidaclopride pode ser devastador por duas vias:

  • Menos presas: as populações de insectos colapsam e as crias encontram muito menos alimento.
  • Efeito directo: resíduos provenientes de sementes tratadas (revestidas) ou de água contaminada podem também prejudicar o sistema nervoso das próprias aves.

Segundo o estudo, o imidaclopride não foi encontrado apenas no solo agrícola, mas também em águas superficiais, em minhocas e até em tecidos de pequenos mamíferos e de aves. O resultado é uma deslocação do composto ao longo de praticamente todo o ecossistema agrícola.

Proibição desde 2018 - e os primeiros sinais de recuperação

Desde 2018, os neonicotinóides deixaram de poder ser usados em campo na UE. O objectivo, na altura, foi sobretudo proteger abelhas e outros polinizadores. O facto de agora se observar, em algumas áreas, um ligeiro reforço das populações de aves insectívoras é visto como um indício relevante de que este tipo de proibição pode produzir resultados.

Os investigadores franceses descrevem o que observam como uma recuperação "tímida, mas mensurável": a diferença de densidade populacional entre parcelas muito contaminadas e parcelas menos contaminadas está a diminuir. Em termos práticos, isso significa que, em campos antes mais envenenados, começam a reaparecer mais insectívoros.

"A tendência não se inverte de um dia para o outro, mas inverte-se - um sinal de alerta torna-se um sinal cauteloso de esperança."

Esta melhoria não acontece sem travões. O imidaclopride é persistente: estudos recentes sugerem que os seus resíduos podem manter actividade no solo durante anos após a última aplicação. Acrescentam-se ainda excepções à regra: em França, produtores de beterraba obtiveram autorizações especiais em 2021 e 2022 para utilizarem sementes tratadas com neonicotinóides. Assim, a carga ambiental manteve-se elevada em certas regiões por mais tempo do que a proibição “no papel” faria supor.

Muitas pressões ao mesmo tempo

Os pesticidas são apenas uma das forças que pressionam as aves nas paisagens agrícolas. Por isso, o estudo enquadra os resultados num quadro mais amplo:

  • Perda de habitat: sebes desaparecem, prados são convertidos, margens de campo são seladas.
  • Efeitos do clima: alterações no calendário das estações mudam a disponibilidade de alimento durante a nidificação.
  • Agricultura intensiva: menos pousios, mais monoculturas, maior frequência de fertilização.

Estas variáveis actuam em conjunto, tornando difícil atribuir melhorias a uma única medida política. Ainda assim, a diferença marcada entre insectívoros e granívoros sublinha a força do efeito específico do insecticida.

Porque nem todas as espécies de aves reagem da mesma forma

Na análise, os cientistas avaliaram 57 espécies de aves, distribuídas por 1.983 parcelas. Um resultado central foi claro: nos insectívoros, a resposta foi quase linear - quanto mais imidaclopride no ambiente, menores os efectivos.

Nos granívoros, o desenho foi mais irregular. Em alguns casos, as populações chegaram a atingir um pico temporário com carga intermédia e, depois, voltaram a cair. Isto pode estar ligado a efeitos indirectos, como alterações na competição entre espécies ou mudanças na composição da vegetação disponível.

Também no território se notam contrastes: em várias zonas do centro, noroeste e leste de França, os insectívoros continuam relativamente frequentes. Em áreas mais a sul, tendem a dominar os granívoros. Estes padrões relacionam-se com o clima, os tipos de solo e os sistemas de cultivo - e com a estratégia de pesticidas seguida pelos agricultores.

A estrutura da paisagem também pesa

Outro factor-chave é o próprio desenho da paisagem. O estudo distingue, de forma geral, entre regiões muito intensificadas e áreas com mais elementos semi-naturais.

"Onde faltam sebes, faixas floridas e restos de prados, mesmo depois de uma proibição sobra muitas vezes apenas uma emergência ecológica."

Em regiões com agricultura extensiva ou biológica, os investigadores observaram populações de aves bastante mais estáveis. Elementos estruturais como bosquetes, sebes ou margens largas funcionam como refúgios e locais de reprodução, ajudando a manter insectos. Mesmo quando uma parte dos campos foi tratada no passado com neonicotinóides, a recuperação tem aí mais margem para acontecer.

Nova ferramenta: quão tóxico é, no total, um campo agrícola?

Um ponto particularmente relevante para a política agrícola futura é um conceito adicional apresentado no estudo: a "Total Applied Toxicity" (TAT). Este indicador pretende quantificar a toxicidade da combinação de todos os pesticidas aplicados para diferentes grupos de organismos.

Com isso, ganha visibilidade um problema que muitas vezes escapa aos processos de autorização: no terreno, raramente se pulveriza um único princípio activo. Em muitas parcelas, aplicam-se misturas de fungicidas, herbicidas e insecticidas. O TAT procura captar essa carga total, em vez de avaliar substâncias isoladas.

Para as aves, a implicação é directa: mesmo com o desaparecimento dos neonicotinóides, outros produtos podem continuar a reduzir insectos - e, por arrasto, pressionar os insectívoros. É uma das razões apontadas para que a recuperação observada seja real, mas relativamente fraca.

O que isto significa para a agricultura e para a política

Os resultados obtidos em França deixam mensagens claras:

  • Proibir princípios activos específicos pode trazer melhorias mensuráveis.
  • Os efeitos são lentos e ficam limitados por outros tóxicos.
  • Sem melhores habitats nas áreas agrícolas, qualquer subida permanece frágil.

A UE definiu, com a estratégia "Do prado ao prato", o objectivo de reduzir de forma significativa o uso de pesticidas. A execução tem sido difícil em muitos Estados-membros, em parte devido à resistência de empresas do sector químico e de segmentos da agricultura. Os dados franceses acrescentam agora um argumento: regras mais apertadas não são apenas simbólicas - podem traduzir-se em efeitos quantificáveis na biodiversidade.

O que são, ao certo, os neonicotinóides - e porque continuam tão contestados

Os neonicotinóides pertencem a uma classe de substâncias que actuam no sistema nervoso dos insectos. São frequentemente utilizados como tratamento de sementes: o grão é revestido antes da sementeira e o princípio activo acaba por se distribuir pela planta. O objectivo é que as pragas morram ao alimentar-se.

Isto torna-se problemático por vários motivos:

  • Polinizadores, como abelhas e abelhões, podem ingerir resíduos através do néctar e do pólen.
  • Organismos do solo, como minhocas, ficam sob exposição continuada.
  • Parte dos compostos chega a ribeiros e rios por drenagem e escorrência.

Para as aves, o resultado combina menos insectos, mais tóxicos na dieta e perturbações nos períodos de criação. O trabalho francês junta-se, assim, a um conjunto crescente de estudos internacionais que apontam para uma ligação sistemática entre neonicotinóides e o declínio de aves.

O que teria de mudar, em concreto, a seguir

A equipa de Perrot defende que é preciso ir além de um simples banimento químico. Na sua leitura, são necessários vários passos em paralelo:

  • Reforçar a gestão agroecológica, com menos pesticidas e rotações mais diversificadas.
  • Criar mais infra-estruturas ecológicas obrigatórias, como sebes, faixas floridas e pequenos charcos em zonas agrícolas.
  • Aumentar os apoios financeiros aos agricultores que transitem para sistemas menos dependentes de químicos.
  • Garantir investigação independente de longo prazo sobre efeitos combinados de pesticidas, recorrendo a indicadores como o TAT.

Para consumidores em Portugal, estes resultados não são apenas um olhar para lá da fronteira. Também ajudam a perceber como as opções locais podem contar: escolher mais produtos biológicos, apoiar programas regionais de plantação de sebes ou influenciar decisões políticas - muito do que afecta as aves em França tem paralelos no nosso contexto.

A boa notícia é que, quando política, ciência e agricultura convergem, andorinhas, felosas e outros caçadores de insectos voltam a aparecer com mais frequência. A menos boa é que o ritmo ainda está longe de compensar rapidamente as perdas de décadas anteriores. Ainda assim, estes avanços discretos mostram que é possível mudar de rumo - desde que as regras não só sejam aprovadas, como aplicadas com consistência.

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