Será que as tatuagens podem ser uma arma secreta na luta contra o cancro da pele? À primeira vista, a ideia parece pouco plausível, mas investigação recente indica que a tinta das tatuagens pode estar associada a algo inesperado - sobretudo no que toca ao risco de melanoma.
Durante muitos anos, o debate público concentrou-se nos potenciais riscos para a saúde ligados às tatuagens. Ainda assim, novos dados apontam numa direcção surpreendente: pessoas com várias tatuagens parecem apresentar menos melanoma, e não mais.
Apesar disso, antes de alguém marcar uma sessão de tatuagem com fins “preventivos”, vale a pena olhar com atenção para as limitações: como em qualquer trabalho científico, existem pontos fracos, e este estudo não é excepção.
O que o estudo no Utah sobre tatuagens e melanoma observou
Uma equipa de investigadores no Utah - o estado norte-americano com as taxas mais elevadas de melanoma - analisou mais de 1.000 pessoas. O objectivo foi comparar doentes com melanoma com participantes saudáveis, para perceber se ter tatuagens, em especial tatuagens extensas, influencia o risco de cancro.
Os resultados sugeriram que quem tinha feito várias sessões de tatuagem ou tinha várias tatuagens grandes apresentava um risco mais baixo de melanoma. Na prática, o risco observado foi mais do que reduzido a metade.
O achado chamou a atenção, sobretudo porque há muito existem preocupações em torno das tintas de tatuagem: incluem substâncias químicas que, noutros contextos, podem ser nocivas ou até carcinogénicas. Também já se levantou a hipótese de que introduzir substâncias “estranhas” na pele poderia favorecer o desenvolvimento de cancro.
De resto, investigação recente e abrangente relacionou tatuagens com um tipo de cancro designado por linfoma. Ainda assim, este estudo populacional alargado não confirmou essas preocupações no caso específico do melanoma.
Porque é que os resultados podem induzir em erro
Mesmo assim, a evidência vem acompanhada de várias ressalvas importantes. A primeira - e possivelmente a mais determinante - é a ausência de dados sobre factores de risco essenciais para o melanoma, algo indispensável para se poder estabelecer uma relação fiável de causa e efeito.
Factores relevantes como o historial de exposição solar, a utilização de solários, a facilidade com que a pele queima ao sol, o tipo de pele e a existência de antecedentes familiares de melanoma foram registados apenas para as pessoas com cancro - e não para os participantes saudáveis.
Sem esses elementos, não é possível separar se o menor risco observado em pessoas tatuadas resulta efectivamente das tatuagens, ou se é apenas consequência de outras diferenças de estilo de vida.
Surge ainda a questão do chamado viés comportamental. Entre os participantes tatuados, foi mais frequente o relato de hábitos solares mais arriscados, como usar solários e sofrer queimaduras solares. Ainda assim, a aparente “protecção” associada a múltiplas tatuagens manteve-se mesmo após ajustamentos para tabagismo, actividade física e algumas outras variáveis.
No entanto, não existiam dados, para ambos os grupos, sobre comportamentos críticos de risco para melanoma - como práticas de protecção solar e uso de protector solar.
Isto abre a possibilidade de o efeito aparentemente protector resultar de diferenças não medidas: por exemplo, quem tem muitas tatuagens pode ter maior tendência para usar protector solar ou evitar a exposição ao sol, com o intuito de preservar a arte corporal.
A complexidade aumenta com outro detalhe: a taxa de resposta entre os casos de melanoma foi de apenas cerca de 41%. Ou seja, a maioria das pessoas com melanoma não respondeu às questões, o que é relativamente baixo, embora comum em estudos baseados em questionários. Este cenário pode gerar o chamado viés de selecção: se quem respondeu for diferente de quem não respondeu, os resultados podem não se aplicar de forma geral.
Também não foi recolhida informação sobre a localização das tatuagens, pelo que se desconhece se estavam em zonas expostas ao sol ou em áreas habitualmente cobertas - uma distinção importante, já que a radiação ultravioleta é um factor de risco central no cancro da pele. Aliás, investigação recente sugere que a poluição do ar pode proteger contra o melanoma, ao filtrar parte dos raios ultravioleta prejudiciais.
De forma interessante, o estudo não indicou que os melanomas surgissem com maior frequência em pele tatuada do que em zonas sem tatuagem. Isto aponta para a improbabilidade de a tinta ser directamente carcinogénica, embora exista alguma investigação que sugira que possa ser.
Ainda assim, os autores pedem prudência. Sendo um dos primeiros estudos de grande dimensão sobre tatuagens e melanoma, estes resultados servem sobretudo para levantar hipóteses a testar - não para provar que as tatuagens são protectoras.
Quando comparados com trabalhos anteriores, realizados noutros países, os resultados também não são consistentes. Há estudos que identificaram cancros cutâneos - incluindo melanoma - em populações tatuadas ou em determinadas áreas do corpo.
Contudo, esses estudos foram igualmente limitados por amostras pequenas, falta de informação sobre outros factores de risco fundamentais e hábitos de exposição solar muito diferentes entre regiões do mundo.
O que isto significa na prática para o cancro da pele
Em termos práticos, estes dados estão longe de ser um sinal verde para procurar tatuagens como “escudo” contra o melanoma. Em particular, a falta de informação comportamental e biológica detalhada significa que os efeitos observados podem reflectir apenas diferenças de estilo de vida ou hábitos não registados em pessoas tatuadas.
Por agora, a recomendação base para prevenir melanoma mantém-se: limitar a exposição ao sol, usar protector solar e verificar a pele com regularidade - independentemente de ter ou não tatuagens.
Para quem já tem várias tatuagens, o estudo traz, ainda assim, uma nota tranquilizadora: neste momento, não existe evidência de que tatuar aumente o risco de melanoma, e qualquer associação com menor risco pode simplesmente reflectir outros factores.
A mensagem mais ampla, porém, é de cautela científica. Sinais interessantes como este justificam nova investigação, com amostras maiores e estudos mais controlados, capazes de contemplar todas as complexidades do risco oncológico e do comportamento humano.
Até lá, as tatuagens continuarão a ser uma escolha pessoal - mas definitivamente não uma estratégia médica recomendada para evitar o cancro da pele.
Justin Stebbing, Professor de Ciências Biomédicas, Universidade Anglia Ruskin
Este artigo é republicado a partir de A Conversa ao abrigo de uma licença CC. Leia o artigo original.
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