(AP) – Quer optem por injecções semanais, quer prefiram comprimidos diários, há mais norte-americanos do que nunca a recorrer a medicamentos anti-obesidade para perder peso e melhorar a saúde.
Segundo um inquérito recente do grupo de investigação em saúde KFF, cerca de 1 em cada 8 adultos nos EUA afirma estar a tomar um fármaco GLP-1.
A própria Novo Nordisk indicou que, só desde Janeiro, foram passadas mais de 600 000 receitas do novo comprimido Wegovy. Uma análise preliminar da Truveta, empresa de dados de cuidados de saúde, aponta que mais de um terço dos utilizadores está a iniciar estes medicamentos.
Ainda assim, os especialistas avisam que a medicação, por si só, não resolve tudo. Para obter os maiores ganhos com os fármacos conhecidos como GLP-1, também são necessárias mudanças no estilo de vida - alimentação equilibrada, actividade física, sono adequado e gestão do stress.
"O maior erro que as pessoas cometem com os medicamentos GLP-1 é pensar que a receita é o tratamento", afirmou a médica Katherine Saunders, especialista em medicina da obesidade na Weill Cornell Medicine e cofundadora da FlyteHealth, uma empresa de tratamentos para perda de peso.
Os GLP-1 podem, por si, promover perda de peso e benefícios para a saúde, mas os efeitos tendem a ser mais fortes e duradouros quando os medicamentos são combinados com alterações de hábitos, concluiu uma revisão recente de quase três dezenas de estudos.
Eis o que os especialistas dizem que deve saber sobre os medicamentos GLP-1 e os hábitos saudáveis:
Não é só uma questão de peso
A obesidade é um factor importante no desenvolvimento de doenças crónicas, incluindo problemas como doença cardíaca e diabetes. Ainda assim, a prioridade deve ser a saúde no seu todo - e não apenas o número na balança - defendeu a médica Jody Dushay, endocrinologista e especialista em obesidade na Harvard Medical School.
"A saúde é o que come, o quanto mexe o corpo, como está o açúcar no sangue, como está a tensão arterial, como está o colesterol", disse. "Todas essas coisas são realmente importantes."
Os medicamentos GLP-1 actuam ao visar hormonas no intestino e no cérebro, o que abranda a digestão e influencia o apetite e a sensação de saciedade. Esse efeito "equilibra o campo de jogo", explicou Saunders, tornando mais fácil adoptar hábitos saudáveis como comer menos e mexer-se mais.
"As redes sociais e a publicidade, por vezes, criam a impressão de que estes medicamentos são uma solução rápida, mas a obesidade é uma doença complexa, crónica e progressiva" que exige acompanhamento médico contínuo, acrescentou.
O que mostram os estudos sobre GLP-1 e mudanças no estilo de vida?
Nos ensaios clínicos de medicamentos anti-obesidade como o Wegovy e o Zepbound, a medicação foi acompanhada por programas estruturados de estilo de vida - algo que é recomendado a par de cada nova prescrição.
Com isso, não só se observa uma perda de peso relevante, como também melhorias em indicadores de saúde.
Um estudo de Fevereiro com mais de 98 000 veteranos militares dos EUA concluiu que quem usou um GLP-1 e seguiu seis a oito hábitos saudáveis teve um risco 43% mais baixo de eventos cardiovasculares graves, como AVC e ataque cardíaco, do que quem não tomou estes medicamentos e seguiu três ou menos desses hábitos.
Os hábitos de vida "podem amplificar substancialmente os benefícios dos medicamentos modernos", sublinhou o médico Frank Hu, autor principal e director do departamento de nutrição da Harvard T.H. Chan School of Public Health.
Que mudanças são mais importantes?
Para tirar o máximo partido dos GLP-1 e, ao mesmo tempo, reduzir possíveis efeitos secundários como náuseas, vómitos, obstipação e perda de massa muscular, Dushay e outros especialistas deixam orientações concretas.
Para manter a massa muscular, recomendam consumir 20 g a 30 g de proteína por refeição - por exemplo, peixe, aves, iogurte e feijão. Também aconselham aumentar a ingestão de fibra e beber mais água - cerca de 2 a 3 litros por dia. Se houver azia ou náuseas, a sugestão é evitar fritos e comida picante, e não se deitar após as refeições.
Quanto ao exercício, o objectivo passa por 150 minutos semanais de actividade aeróbica ou, idealmente, cerca de uma hora por dia. Deve ainda juntar 30 minutos de treino de força duas ou três vezes por semana, como levantar pesos ou usar bandas de resistência.
É igualmente importante dormir o suficiente - sete a nove horas por dia para um adulto saudável - e tomar medidas para reduzir o stress mental e emocional.
Por fim, os especialistas recomendam acompanhar a evolução com um profissional de saúde. Os medicamentos GLP-1 podem ter efeitos adversos raros, mas graves.
"Alguém precisa mesmo de ir acompanhando: qual é o ritmo da sua perda de peso? Quais são os seus efeitos secundários? E não apenas enviar-lhe uma receita todos os meses", afirmou Dushay.
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