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Estudo revela que certos padrões de sesta em idosos podem ser sinal de alerta.

Idosa a dormir no sofá aconchegada com manta, junto a mesa com livros, documentos e óculos.

As sestas podem ser extraordinárias. Podem revitalizar o corpo e a mente de várias formas - por exemplo, melhorando a atenção, o tempo de reacção, a memória e a capacidade de resolver problemas.

Sestas curtas também podem compensar parte dos efeitos negativos da privação de sono e até contribuir para reduzir o risco de demência.

Padrões de sestas em adultos mais velhos: um possível sinal de alerta

Um estudo recente indica, contudo, que em adultos mais velhos certos padrões de sesta podem merecer atenção.

De acordo com investigadores nos EUA, fazer muitas sestas durante o dia - sobretudo de manhã - está associado a taxas de mortalidade mais elevadas em pessoas idosas.

Os autores referem que este descanso diurno considerado “excessivo” pode reflectir problemas de saúde subjacentes ou em desenvolvimento e, por isso, pode funcionar como um indicador mensurável e acompanhável para detecção precoce.

O nosso estudo é um dos primeiros a mostrar uma associação entre padrões de sestas medidos objectivamente e mortalidade, e sugere que há um enorme valor clínico em acompanhar padrões de sestas para detectar condições de saúde cedo”, afirma a primeira autora, Chenlu Gao, cientista do sono no Mass General Brigham.

O que já se sabia - e porque ainda havia tantas dúvidas

Trabalhos anteriores já tinham associado a sesta frequente a problemas específicos, incluindo hipertensão e AVC, mas a relação global continua longe de estar bem esclarecida.

Há indícios de correlação, por exemplo, mas pouca certeza quanto à causalidade. As sestas não têm, necessariamente, de promover as doenças com que são associadas e podem ser tentativas - úteis, embora insuficientes - de atenuar algum problema de saúde pré-existente.

E mesmo com evidência robusta de ligação entre sestas e doença, persistem questões importantes sobre a própria associação, quanto mais sobre o que está a causar o quê. Em parte, isto acontece devido às limitações dos dados disponíveis.

Sestas excessivas mais tarde na vida têm sido associadas a neurodegeneração, doenças cardiovasculares e até maior morbilidade, mas muitos desses resultados baseiam-se em hábitos de sesta auto-reportados e deixam de fora métricas como quando acontecem e quão regulares são essas sestas”, explica Gao.

Entre 20 e 60 por cento dos adultos mais velhos fazem sestas durante o dia, e muitas delas serão provavelmente revigorantes, ou pelo menos inofensivas. Embora a sesta excessiva esteja ligada a vários problemas, o avanço na compreensão dessas ligações tem sido travado por dados com pouca objectividade e detalhe.

Como o estudo recolheu dados mais objectivos sobre as sestas

Para colmatar essa lacuna, Gao e colegas recorreram a informação do Rush University Memory and Aging Project, iniciado em 1997 como um estudo de coorte sobre capacidades cognitivas e neurodegeneração em centenas de pessoas com mais de 55 anos do norte do Illinois.

Em 2005, o projecto passou a integrar monitores de pulso para registar o comportamento dos participantes ao longo de um período médio de 10 dias, distinguindo momentos de actividade e de repouso.

Esses monitores mantiveram-se no estudo em curso e, até 2025, contribuíram para duas décadas de estatísticas disponíveis, num total de 1.338 indivíduos.

Com este conjunto de dados objectivos sobre padrões de sesta, os autores do novo estudo conseguiram analisar com maior rigor factores como a duração, a frequência e a hora do dia das sestas, bem como a variabilidade dos hábitos diários de sesta de cada pessoa.

O que foi observado: duração, frequência, manhã e risco de mortalidade

Ao comparar os padrões de sesta no início com a mortalidade por todas as causas ao longo de 19 anos de acompanhamento, os investigadores concluíram que sestas mais longas e mais frequentes, assim como sestas matinais, estavam associadas a maior risco de morte.

O estudo verificou que cada hora adicional de sestas diárias se associou a um aumento de cerca de 13 por cento no risco de mortalidade. Além disso, cada sesta extra por dia também se ligou a um aumento de 7 por cento no risco de morrer durante o período de seguimento.

A hora do dia parece igualmente relevante. Segundo o estudo, o risco de mortalidade em quem faz sestas de manhã é cerca de 30 por cento mais alto do que em quem as faz no início da tarde.

Ainda assim, isto não significa obrigatoriamente que a sesta seja a causa.

É importante notar que isto é correlação, não causalidade”, sublinha Gao. “Sestas excessivas provavelmente indicam doença subjacente, condições crónicas, perturbações do sono ou desregulação circadiana.”

Em vez de desencorajar o descanso diurno, estes resultados apresentam as sestas como potenciais pistas úteis sobre o estado de saúde de uma pessoa.

Agora que sabemos que existe uma forte correlação entre padrões de sestas e taxas de mortalidade, podemos defender a implementação de avaliações de sestas diurnas com dispositivos vestíveis para prever condições de saúde e prevenir um maior declínio”, diz Gao.

O estudo foi publicado na JAMA Network Open.

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