No dia em que percebi que algo tinha mudado, estava diante do espelho do quarto, já pronta para sair para o trabalho às 6:30, a olhar para uma mulher que mal reconhecia. O corte de cabelo era o mesmo, o blazer impecável também, e a caneca do costume - o café já frio - continuava pousada na cómoda. Só que a faísca que antes me empurrava para a rua, aquela energia inquieta, tinha-se afastado sem alarido.
Os prazos deixaram de me assustar e também deixaram de me entusiasmar. Convites a que antes teria dito logo que sim ficaram por responder no telemóvel. E os amigos murmuravam: “Estás a abrandar”, com um sorriso simpático que soava mais a prémio de consolação.
Comecei a perguntar-me se era isto: o início daquele deslizar lento e interminável para “menos”.
E se fosse outra coisa, completamente diferente?
Quando “perdi a motivação” é um diagnóstico errado
Aos 64, apanhei-me a dizer às pessoas: “Estou simplesmente sem motivação.” Saía-me com a mesma leveza com que se comenta o tempo. Dizia-o ao jantar de família quando a minha filha perguntava porque é que eu não queria liderar mais um projecto. Dizia-o a antigos colegas num café, quando falavam de novos planos e promoções.
Mas a frase sabia-me mal. Como um casaco emprestado que nunca assenta bem nos ombros.
Porque, por dentro, eu continuava a importar-me - só que já não com as mesmas coisas.
Houve um momento pequeno que tornou isso óbvio. Numa segunda-feira de manhã, deixei passar três e-mails do meu antigo chefe a pedir se eu podia “entrar numa chamada rápida” sobre consultoria. Noutra altura, às 10:00, a minha versão antiga já estaria a meio de uma proposta detalhada.
Em vez disso, eu estava sentada num banco de jardim, a ver o meu neto concentradíssimo a desenhar um arco-íris torto com um lápis de cera pequenino. O telemóvel vibrava ao meu lado, a acender o ecrã vezes sem conta. Eu via a mãozinha dele tentar um segundo arco-íris, depois um terceiro, e senti uma coisa que não sentia há anos: uma alegria calma, ampla.
Eu não estava preguiçosa. Eu não estava anestesiada. Eu estava inteira - só que noutro lugar.
Foi aí que caiu a ficha. Eu não tinha perdido a motivação; as minhas prioridades tinham-se reorganizado enquanto eu tentava, à pressa, acompanhar uma versão antiga da minha vida.
Durante décadas, sucesso, para mim, significou comboios cedo, noites longas, caixa de entrada a zero, equipas sob controlo, objectivos esmagados. Por isso, quando deixei de querer aquela passadeira rolante, concluí que havia algo “errado”. Na verdade, a minha bússola interior tinha rodado em silêncio.
A mesma vontade que eu despejava na carreira começou a inclinar-se para a saúde, manhãs sossegadas, conversas com significado e trabalho que me parecesse verdadeiro - e não apenas impressionante no LinkedIn. A energia continuava lá. Só tinha mudado de rumo.
Aprender a escutar um novo tipo de impulso
A viragem aconteceu quando fiz um exercício simples que, em tempos, eu própria pedia às equipas mais novas para fazerem. Num papel, desenhei duas colunas: “O que antes me dava energia” e “O que me dá energia agora”. Sentei-me a olhar para aquilo a sentir-me um bocadinho ridícula, caneta no ar, como uma adolescente a fazer trabalhos de casa.
Aos poucos, as palavras vieram. Na coluna antiga: promoções, conferências, prazos apertados, gerir orçamentos grandes, ver o meu nome em relatórios. Na coluna nova: caminhadas longas, refeições sem pressa, voluntariado, aprender algo totalmente novo, tempo com pessoas a quem não interessa o que eu fazia para viver.
A encarar as duas listas, percebi que a minha motivação não tinha desaparecido. Tinha crescido - discretamente.
Se está nos sessenta e se sente estranhamente “plana”, não é a única pessoa. Um inquérito de 2023 sobre bem-estar em fases mais tardias da vida mostrou que muitas pessoas nos 50 e 60 anos relatam menos entusiasmo por metas profissionais, mas maior satisfação quando investem tempo em relações, hobbies ou causas.
Uma amiga minha, com 67, confessou-me que se sentia “inútil” desde que reduzira o horário como médica. Tinha saudades da adrenalina, daquela urgência constante. Depois começou a ler todas as tardes para crianças na biblioteca local. Um dia disse, quase admirada: “Chego ao fim do dia cansada, mas é um cansaço bom.”
Não foi o motor que avariou. Ela apenas mudou de estrada.
O problema é que a sociedade raramente nos dá um guião para esta mudança. Celebramos os 30 e poucos anos ambiciosos por “encontrarem a sua paixão”, mas etiquetamos, sem grande barulho, uma pessoa de 64 que define limites como alguém que “está a abrandar”.
E acabamos por engolir esse julgamento. Chamamos-lhe “perder motivação” quando, na verdade, estamos a trocar a urgência da conquista pela profundidade do alinhamento. Essa mudança pode ser desconcertante, sobretudo se a sua identidade foi construída em torno de empurrar sempre, produzir sempre.
Sejamos francos: ninguém consegue viver assim todos os dias sem, mais cedo ou mais tarde, bater numa parede. E a parede não é fracasso. Às vezes, é apenas o sinal de que a direcção em que tem corrido já não combina com a vida que realmente quer.
Dar-se permissão para mudar prioridades aos 64
Um hábito concreto transformou a forma como passei a atravessar os dias. Todas as manhãs, com o café, comecei a fazer a mim própria uma pergunta silenciosa: “O que merece mesmo a minha energia hoje?” Não aquilo que fica bem. Não aquilo que impressiona. Aquilo que merece de mim.
Eu escrevia três coisas - só três. Havia dias em que era telefonar a um vizinho solitário, fazer um exame médico que eu andava a adiar e cozinhar algo colorido para o jantar. Noutros, era finalmente dizer sim a um projecto criativo e dizer não a mais um “favor rápido” que, na prática, engolia a tarde inteira.
Ao início, este ritual pequeno parecia quase um acto de rebeldia. Depois começou a parecer respeito. Pelo meu tempo. Pelos anos que ainda tenho.
Muitos de nós caem no mesmo engano: tratamos qualquer descida de entusiasmo como falha pessoal, em vez de a ler como um sinal. Forçamo-nos mais, marcamos mais coisas, tentamos “voltar” à pessoa que éramos aos 40. E depois sentimos culpa quando não resulta.
Se se revê nisto, não está estragada. Está em transição. O erro é medir a sua versão de 64 com a régua dos 40. Física, emocional e profissionalmente, está a jogar um jogo diferente agora.
Haverá dias em que ainda vai querer metas grandes e ousadas. Noutros, a maior vitória pode ser desligar o telemóvel e ver a luz a mudar na parede da sala. As duas coisas podem ser válidas. As duas podem ser escolhas intencionais, e não sinais de declínio.
Uma terapeuta com quem falei disse-me: “Os seus valores, mais tarde na vida, muitas vezes ficam mais claros, não mais fracos.” Essa frase ficou comigo. Mudou-me o enquadramento de tudo.
Confundimos ruído com propósito. Aos 64, tem o direito de escolher propósito em vez de ruído.
Por isso, comecei a construir um lembrete pequeno e visível das minhas novas prioridades. Escrevi-as em post-its e coloquei-os dentro de uma moldura simples em cima da secretária. Coisas como:
- Proteger as manhãs para o que me nutre, não para o que me drena
- Dizer sim a pessoas que me deixam mais leve, não mais pequena
- Fazer pelo menos uma coisa por semana que seja puramente por curiosidade
- Descansar sem pedir desculpa por isso
- Trabalhar em projectos onde a experiência conta mais do que a velocidade
Isto não era “abrandar”. Era reinvestir a minha energia onde ela realmente faz crescer alguma coisa.
Quando a sua vida deixa de caber na história antiga
Há noites em que me sento na varanda e penso na mulher que acreditava que a motivação era um bem fixo, algo que se tinha ou se perdia. A mesma mulher que aguentava enxaquecas para acabar um relatório, mas adiava a alegria para “qualquer outra altura”. Essa “outra altura” chegou - e não se parece nada com o que eu imaginava aos 40.
Eu ainda trabalho, mas de outra forma. Recuso projectos que não batem certo com os meus valores, mesmo que paguem bem. Digo sim a viagens mais lentas, a tardes sem plano, a conversas que vão além da conversa de circunstância. Há menos adrenalina e mais firmeza. Menos performance e mais presença.
Talvez também esteja nesse limiar: a sua história antiga sobre o que é sucesso já não encaixa, mas ainda não encontrou as palavras para a nova. Esse espaço pode assustar e, ao mesmo tempo, trazer uma liberdade estranha. É o espaço onde pode decidir o que conta a partir de agora.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para quem lê |
|---|---|---|
| A motivação raramente desaparece | Muitas vezes desloca-se para novas prioridades como saúde, relações ou significado | Diminui a auto-culpa e abre caminho para redefinir objectivos |
| Verificação diária de alinhamento | Perguntar “O que merece mesmo a minha energia hoje?” e listar três coisas | Ferramenta simples para orientar a motivação para o que importa agora |
| Novo guião de vida aos 60+ | Passar da validação externa para valores internos e presença | Ajuda a ver a mudança como crescimento, e não como declínio |
Perguntas frequentes
- Pergunta 1 Como sei se perdi mesmo a motivação ou se apenas mudei de prioridades?
Repare para onde a sua energia vai naturalmente quando ninguém está a ver. Se ainda se sente envolvida e viva a fazer certas coisas, a sua motivação está intacta. Só está a apontar para um sítio novo.- Pergunta 2 Aos 64, é “tarde demais” para mudar de rumo na vida?
Não. Muitas pessoas começam novas carreiras, projectos ou hábitos nos sessenta e setenta. A escala pode ser diferente, mas o sentido de propósito pode ser igualmente forte.- Pergunta 3 E se a minha família achar que estou a desistir por abrandar no trabalho?
Tente explicar para onde está a ir, não apenas o que está a deixar. Partilhe os valores por trás das suas escolhas para que vejam uma mudança de foco, não um colapso.- Pergunta 4 Sinto culpa por escolher descanso em vez de produtividade. Como lido com isso?
A culpa costuma vir de regras antigas que já não a servem. Comece com pequenos momentos de descanso, com intenção, e lembre-se de que são um investimento na sua saúde e na sua presença - não um desperdício.- Pergunta 5 Posso continuar a definir objectivos se as minhas prioridades se afastaram do trabalho?
Claro. Os seus objectivos podem ser relacionais, criativos, físicos ou espirituais. O essencial é que combinem com quem é agora, e não com quem sentia que tinha obrigação de ser antes.
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