O neurocientista Moran Cerf afirmou à Lusa que o cérebro humano tem dificuldade em lidar com um volume excessivo de informação e que a crescente dependência tecnológica pode levar à perda de determinadas capacidades.
Excesso de informação e limites do cérebro humano
Ao ser questionado sobre como gerir hoje tanta informação, o neurocientista - que também lecciona negócios - defende que o cérebro humano “não lida bem números grandes”.
Na sua perspectiva, “Temos um cérebro que é novo, tem apenas 100 mil anos na sua forma atual” e “ainda pensa que está na savana”, onde comia tudo o que surgisse porque “não sabia se encontraria algo amanhã”. Moran Cerf, conhecido pelo trabalho na intersecção entre cérebro humano, tecnologia e tomada de decisão, é um dos oradores do TEDxPorto 2026.
A partir de Nova Iorque, em entrevista por vídeoconferência à Lusa, sublinhou que “É por isso que o excesso de informação é tão prejudicial para o nosso cérebro”, dando como exemplo o facto de o cérebro não conseguir lidar com a quantidade de conteúdos em plataformas como a Netflix e a HBO e “quer consumir tudo”.
Essa lógica de abundância, acrescenta, também se reflecte nas relações: “Não conseguimos ter um relacionamento de verdade porque, com um simples deslizar de dedo na tela, já temos um novo namorado ou namorada que pode ser ainda melhor”, o que, no seu entender, acaba por tornar as pessoas menos felizes.
A prazo, adverte, “acho que não é bom para nós, é melhor ter algumas opções para escolher e com as quais esteja feliz”.
Mudança de mentalidade e escolhas calibradas, segundo Moran Cerf
Depois de expor o problema - porque “o nosso cérebro não está acostumado com a abundância (....)” -, Cerf coloca a questão de como lhe responder: “agora que apresentei o problema”, como resolver? Para o investigador, a saída passa por uma alteração de atitude: “Acho que precisamos de mudar a nossa mentalidade”, algo que considera ser sobretudo pessoal, “é algo individual, cada um faz isso por si mesmo”.
O doutorado em Neurociência pelo Caltech, com formação também em Filosofia da Ciência e Física, tem estudado doentes submetidos a cirurgias cerebrais com implantes neurais, investigando temas basilares como a consciência, os sonhos e os processos de decisão.
No que toca à forma como avaliamos conteúdos e escolhas, o neurocientista norte-americano avisa que as decisões não devem ser guiadas por números elevados: “Parecem-nos ótimos”, mas “acho que deveria ser o contrário, porque a IA [inteligência artificial] pode facilmente fabricar milhões de visualizações” com os seus ‘bots’.
Daí a sua conclusão: “se ainda confiarmos em números, como se números grandes fossem melhores que números pequenos, na verdade estaremos a levar o nosso cérebro para o lugar errado”. Em vez disso, considera que as pessoas devem escolher com base nas preferências e de forma calibrada.
Essa calibração, reforça, deve aplicar-se a múltiplos domínios: “Tudo o mais que possa imaginar, como encontros amorosos, tomadas de decisão e assim por diante, deve ser calibrado”.
IA, terceirização de competências e mudanças no hipocampo
Sobre os efeitos da IA no cérebro humano, Moran Cerf começa por salientar um padrão: “Em primeiro lugar, toda tecnologia para a qual fazemos 'outsource' (terceirizamos) das habilidades acaba a realizá-las” no “nosso lugar” - como sucede ao memorizar números de telemóvel ou ao recorrer à navegação.
A este propósito, aponta uma alteração física: “O nosso hipocampo, a parte do cérebro responsável pela navegação, diminuiu de tamanho na última década. Portanto, há uma mudança mecânica no nosso cérebro porque não precisamos mais navegar” e, assim, “perdemos essa função”.
O aviso para o futuro é claro: “Acho que, com o tempo, à medida que a IA assumir cada vez mais dessas funções, realmente começaremos a perder a capacidade de fazer isso sem a IA”.
Ainda que reconheça ganhos de eficiência, Cerf deixa uma ressalva: a tecnologia “torna-nos mais eficientes, mas tirando coisas de nós. Pode dizer que é ótimo termos a opção de terciarizar coisas de que não gostamos, mas acho que não pensamos a longo prazo o suficiente para perceber que também estamos a perder coisas”.
No campo da memória, distingue situações diferentes: entre os vários tipos de processo de memória existem casos como a amnésia e o Alzheimer; num, perde-se a própria memória e, no outro, perde-se o acesso às memórias.
Com a utilização de IA, descreve um efeito distinto: “tem o fluxo de acesso, simplesmente não se lembra das coisas com tanta frequência”.
Quanto ao debate na neurociência sobre a possibilidade de apagar memórias, considera que a resposta a eliminar as negativas “não é óbvia”. E justifica: “a maioria delas tem uma função” e, se a natureza as preservou, é porque isso é “útil para nós”.
Da economia da informação à economia da cognição
Cerf enquadra a evolução tecnológica como um processo que já dura “há um quarto de século”. Segundo a sua leitura, os primeiros 10 anos foram os “da informação”, quando empresas como a Amazon, a Google e outras colocaram informação na Internet.
Depois, prossegue, veio a década seguinte, “da atenção”. “De repente as empresas disseram: Não basta apenas ter informações disponíveis, é preciso controlar o que você vê”, assegurando um fluxo informativo que orienta a atenção; a partir daí, passaram a cobrar, criando uma economia em que tudo “gira em torno da atenção”.
Hoje, diz, entrámos numa terceira fase: “a terceira geração, onde estamos agora, é a da cognição, não basta que veja o anúncio, quer ter certeza de que seu cérebro realmente absorve o conteúdo do anúncio”.
É, portanto, uma “economia da cognição” e é “aí que a IA se torna a melhor ferramenta para as empresas ou a pior ferramenta para as pessoas cuja cognição está a ser manipulada”.
Para Cerf, a IA é, em muitos aspectos, positiva: “De muitas maneiras, a IA "é ótima para nós"”, mas admite o risco de, no futuro, poder vir a ser encarada de forma oposta, “como uma tecnologia terrível que nos causou muitos danos”.
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